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A guerra contra o clima.

Por Valéria Monteiro.

A guerra contra o clima.
Imagem criada por IA.

A guerra quase sempre é narrada do modo que os Estados preferem narrá-la: em mapas, mísseis, fronteiras, barris de petróleo e doutrinas de segurança. É uma linguagem de poder, controle e estratégia. Mas existe uma outra contabilidade em curso, menos visível e nem por isso menos decisiva. Ela mede o ar que se torna mais sujo, a água que deixa de ser potável, o solo que absorve toxinas, os campos que deixam de produzir, as florestas que queimam e o carbono extra que sobe à atmosfera enquanto governos falam em estabilidade.

🇺🇸 (Scroll down for English)

Essa é uma das dimensões menos discutidas dos conflitos contemporâneos — e uma das mais reveladoras. Guerras não destroem apenas cidades, vidas e infraestrutura. Elas também contaminam ecossistemas, reorganizam cadeias energéticas, ampliam emissões e aprofundam um problema que o mundo já vinha fracassando em enfrentar: a distância crescente entre a realidade política e as metas climáticas que os próprios governos assinaram.

No caso do Irã, essa dimensão se impôs de forma particularmente clara. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertou que o conflito no Oriente Médio tende a agravar a pressão sobre recursos naturais, danificar ecossistemas terrestres e marinhos, comprometer água e saneamento e atrasar esforços de resiliência hídrica e climática em uma região que já vivia forte estresse ambiental. O órgão também chamou atenção para a exposição direta da população à fumaça espessa produzida por óleo em chamas.

Foi nesse contexto que os efeitos ambientais da guerra deixaram de ser abstração e passaram, literalmente, a cair do céu. Relatos sobre ataques a depósitos e instalações petrolíferas próximos a Teerã descreveram nuvens tóxicas ligadas à combustão de petróleo, com emissão de hidrocarbonetos, além de óxidos de enxofre e nitrogênio. Esses compostos podem acidificar a chuva. O episódio foi associado também à chamada chuva preta: uma precipitação escura e oleosa, misturada a fuligem e resíduos químicos dos incêndios. A Organização Mundial da Saúde considerou apropriadas as orientações para que moradores permanecessem em ambientes fechados diante dos riscos respiratórios e cutâneos.

Esse detalhe importa porque condensa, de forma brutal, a lógica ecológica da guerra contemporânea. Infraestrutura energética, quando bombardeada, deixa de ser apenas ativo estratégico e se transforma em vetor imediato de contaminação atmosférica, hídrica e do solo. A guerra termina na linha de frente antes de terminar no ambiente. Ela continua nos lençóis freáticos, nas cadeias alimentares, nos pulmões e na própria química da chuva. A imagem é forte porque o dano também é: não se trata apenas de destruição física, mas de poluição persistente.

Mas o Irã oferece, sobretudo, o retrato instantâneo da contaminação: fumaça tóxica, chuva ácida, chuva preta, pânico energético. A Ucrânia oferece outra coisa: o retrato de longa duração. Ali, a guerra já mostrou o que acontece quando devastação ambiental deixa de ser episódio e vira sistema. Água e solo contaminados, florestas destruídas, áreas agrícolas comprometidas, infraestrutura industrial arrasada e uma reconstrução de altíssima intensidade carbônica transformaram o conflito em um laboratório terrível da persistência ecológica da guerra.

Estimativas usadas por autoridades ucranianas apontaram cerca de 237 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente emitidas desde a invasão de 2022. A conta inclui uso de combustíveis fósseis, incêndios, destruição de florestas, atividade industrial e o carbono embutido na reconstrução. O valor ajuda a desmontar uma ilusão persistente: a de que o impacto ambiental da guerra se resume à explosão do momento. Não se resume. O pós-guerra também emite. O pós-guerra também polui. O pós-guerra também prolonga a desordem climática.

Juntos, Irã e Ucrânia desmontam uma ficção confortável: a de que conflito armado é assunto de segurança, e clima, um tema paralelo. No Irã, a guerra mostra como a infraestrutura fóssil bombardeada contamina o presente. Na Ucrânia, já se vê como a guerra compromete também o futuro — pela persistência da poluição, pela erosão territorial e pelo carbono exigido para reconstruir o que foi destruído.

Esse desarranjo pesa ainda mais porque o mundo já está atrasado em relação às metas do Acordo de Paris. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, estimou que, mesmo com a implementação integral das contribuições nacionalmente determinadas atuais, o planeta ainda caminha para algo entre 2,3°C e 2,5°C de aquecimento neste século; sob as políticas correntes, a projeção chega a 2,8°C. Paris já estava longe antes dessas guerras se tornarem exemplos tão eloquentes da colisão entre violência armada e colapso ambiental.

A literatura científica e os relatórios recentes insistem em um ponto incômodo: operações militares, indústria de defesa, destruição de reservatórios naturais de carbono e reconstrução pós-conflito formam uma conta climática muito maior do que a política internacional costuma admitir. Uma revisão citada em 2025 estimou que atividades militares respondiam por cerca de 5,5% das emissões globais e advertiu que os dados continuam incompletos e pouco transparentes.

Há ainda uma omissão persistente no centro do debate climático: as emissões militares seguem submedidas e subnotificadas. O mundo cobra metas da indústria, do transporte, do agro e do setor elétrico, mas continua tratando a máquina de guerra com uma opacidade notável. Essa lacuna não é apenas técnica. É política. Ela ajuda a preservar a ficção de que segurança e clima pertencem a esferas distintas, quando na prática a guerra é também um fato climático.

O ponto central é incômodo, mas simples: não existe política climática séria que trate a guerra como nota de rodapé. Não existe transição energética robusta em um mundo que, a cada choque geopolítico, volta a se curvar diante do petróleo. E não existe meta climática plenamente crível se as grandes potências continuam separando “segurança” de “meio ambiente”, como se incêndios industriais, destruição de infraestrutura, vazamentos tóxicos, deslocamento forçado e gasto militar maciço não fossem também matéria climática.

No fim, Irã e Ucrânia oferecem ao mundo duas versões da mesma advertência. Uma mostra a contaminação em tempo real: fumaça tóxica, chuva ácida, água ameaçada, pânico energético. A outra revela o que permanece quando a atenção internacional se desloca: solo degradado, florestas destruídas, infraestrutura arrasada e uma reconstrução carregada de carbono.

Juntas, essas guerras desmontam uma ficção conveniente: a de que conflito armado pertence ao campo da segurança, enquanto o clima seria um tema à parte, quase administrativo. Não é. A guerra também é um acontecimento ambiental. Ela altera a química da chuva, envenena a água, compromete a terra, amplia emissões e empurra para mais longe metas climáticas que já pareciam difíceis demais.

A política internacional talvez ainda insista em separar guerra de clima. A atmosfera não faz essa separação. O solo tampouco. A água, menos ainda.

A guerra não corrói apenas a paz. Corrói também as condições materiais de qualquer futuro habitável.


🇺🇸 Inglês:
War against the climate.

From Iran to Ukraine, armed conflicts contaminate ecosystems, expand emissions, and push the world further away from the Paris goals.

War is almost always narrated the way states prefer to narrate it: through maps, missiles, borders, barrels of oil, and security doctrines. It is a language of power, control, and strategy. But there is another ledger running alongside that one, less visible yet no less decisive. It measures dirtier air, undrinkable water, soil saturated with toxins, fields that no longer yield, forests set ablaze, and extra carbon rising into the atmosphere while governments speak of stability.

This is one of the least discussed dimensions of contemporary conflict — and one of the most revealing. Wars do not destroy only cities, lives, and infrastructure. They also contaminate ecosystems, reorganize energy systems, expand emissions, and deepen a crisis the world was already failing to confront: the widening gap between political reality and the climate goals governments themselves signed on to.

In Iran’s case, that dimension imposed itself with unusual clarity. The United Nations Environment Programme warned that conflict in the Middle East is likely to intensify pressure on natural resources, damage marine and terrestrial ecosystems, disrupt water and sanitation systems, and set back efforts to build water and climate resilience in a region already under severe environmental stress. The agency also highlighted direct civilian exposure to thick smoke from burning oil.

It was in that context that war’s environmental effects ceased to be an abstraction and quite literally began falling from the sky. Reports on strikes near Tehran described toxic clouds linked to petroleum combustion, releasing hydrocarbons along with sulfur and nitrogen oxides. Those compounds can acidify rainfall. The episode was also associated with so-called black rain: a dark, oily precipitation mixed with soot and chemical residues from the fires. The World Health Organization backed advice for residents to remain indoors because of respiratory and skin risks.

That detail matters because it condenses, with brutal clarity, the ecological logic of contemporary war. Once bombed, energy infrastructure stops being merely a strategic asset and becomes an immediate vector of atmospheric, hydrological, and soil contamination. War leaves the front line before it leaves the environment. It continues in aquifers, food chains, lungs, and in the chemistry of rainfall itself. The image is striking because the damage is, too: this is not only physical destruction, but persistent pollution.

But Iran offers, above all, the instantaneous portrait of contamination: toxic smoke, acid rain, black rain, energy panic. Ukraine offers something else: the long-duration portrait. There, war has already shown what happens when environmental devastation stops being an episode and becomes a system. Contaminated water and soil, destroyed forests, damaged farmland, shattered industrial infrastructure, and an intensely carbon-heavy reconstruction effort have turned the conflict into a terrible laboratory of war’s ecological persistence.

Estimates used by Ukrainian authorities pointed to roughly 237 million tonnes of carbon dioxide equivalent emitted since the 2022 invasion. That total includes fossil fuel use, fires, forest destruction, industrial activity, and the carbon embedded in reconstruction. The number helps dismantle a persistent illusion: that war’s environmental impact is limited to the blast itself. It is not. Postwar rebuilding also emits. Postwar rebuilding also pollutes. Postwar rebuilding also prolongs climate disorder.

Taken together, Iran and Ukraine dismantle a comforting fiction: that armed conflict belongs to the realm of security, while climate is a separate subject. In Iran, war shows how bombed fossil infrastructure contaminates the present. In Ukraine, one can already see how war also compromises the future — through persistent pollution, territorial erosion, and the carbon required to rebuild what has been destroyed.

That disorder matters even more because the world is already behind on the goals of the Paris Agreement. UNEP’s Emissions Gap Report 2025 estimated that even full implementation of current nationally determined contributions would still put the planet on track for roughly 2.3°C to 2.5°C of warming this century; under current policies, the projection rises to 2.8°C. Paris was already far away before these wars became such stark examples of the collision between armed violence and environmental breakdown.

Recent literature and reporting keep returning to an uncomfortable point: military operations, the defense industry, the destruction of natural carbon sinks, and post-conflict reconstruction together form a climate bill far larger than international politics usually admits. A review cited in 2025 estimated that military activity accounts for about 5.5% of global emissions and warned that the data remain incomplete and insufficiently transparent.

There is also a persistent omission at the heart of the climate debate: military emissions remain undercounted and underreported. The world demands targets from industry, transport, agriculture, and power generation, yet continues to treat the machinery of war with striking opacity. That gap is not merely technical. It is political. It helps preserve the fiction that security and climate belong to separate spheres, when in practice war is also a climate fact.
The central point is uncomfortable but simple: there is no serious climate policy that treats war as a footnote. There is no robust energy transition in a world that bends back toward oil at every geopolitical shock. And there is no fully credible climate target if major powers keep separating “security” from “the environment,” as though industrial fires, destroyed infrastructure, toxic leaks, forced displacement, and massive military spending were not also climate matters.

In the end, Iran and Ukraine offer the world two versions of the same warning. One shows contamination in real time: toxic smoke, acid rain, threatened water, energy panic. The other reveals what remains once international attention moves on: degraded soil, destroyed forests, wrecked infrastructure, and reconstruction loaded with carbon.

Together, these wars dismantle a convenient fiction: that armed conflict belongs to the realm of security, while climate is some separate, almost administrative issue. It is not. War is also an environmental event. It alters the chemistry of rain, poisons water, compromises land, expands emissions, and pushes already difficult climate goals even farther away.

International politics may still insist on separating war from climate. The atmosphere does not. Neither does the soil. Water, least of all.

War corrodes more than peace. It corrodes the material conditions of any livable future.

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Um estudo publicado este mês mostra que trinta e um agrotóxicos considerados seguros, juntos, mais que dobram o risco de câncer.

Desde 2024, o Brasil opera sob uma lei que afrouxou justamente o critério que protegia sua população desse risco.


A água sai do céu, encontra a folha, escorre pela haste, atravessa o solo, alimenta o lençol, alcança o rio, abastece a cidade, chega à torneira, entra no copo, passa pela boca, percorre o sangue. Esse caminho não tem fronteira. Não há porta de entrada nem barreira sanitária.

Onde se planta uma soja pulverizada, há um corpo, dezenas de quilômetros adiante, que beberá, sem saber, parte daquele dia.

A geografia do veneno não é a do pulverizador: é a da gravidade.

Essa é a imagem que precisei manter diante dos olhos esta semana, depois de ler, com calma, o estudo publicado em abril na Nature Health por uma equipe formada por pesquisadores do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), do Instituto Pasteur, da Universidade de Toulouse e do Instituto Nacional de Doenças Neoplásicas do Peru.

O trabalho é assinado por Jorge Honles, Stéphane Bertani e mais quinze colegas. Mapeia a exposição a trinta e um agrotóxicos no território peruano e a cruza com o registro nacional de câncer entre 2007 e 2020 — cento e cinquenta e oito mil e setenta e dois casos primários. Em quatrocentas e trinta e seis regiões, os autores encontraram aquilo que chamam de hotspots: zonas onde a coincidência espacial entre a exposição combinada e o aparecimento da doença é nítida. O risco relativo médio nessas zonas é de 2,52 — ou seja, cerca de duas vezes e meia o risco esperado. Em alguns recortes específicos, chega a 9,38.

O dado, sozinho, já é grave.

Mas o que sustenta a coluna de hoje não é o número. É uma frase, contida quase de passagem no método: nenhum dos trinta e um agrotóxicos analisados estava classificado como cancerígeno do grupo um pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde. Cada uma daquelas substâncias, isoladamente, era considerada segura — ou, no jargão técnico que tomou o lugar do bom senso, estava abaixo do limite tolerável.

Juntas, no campo, na água, no leite, no útero, no fígado, formavam aquilo que os autores nomeiam, com uma sobriedade que beira o rigor poético, exposição cumulativa a misturas de pesticidas.

A virada conceitual que esse estudo opera é mais profunda do que o noticiário ainda compreendeu.

Por mais de meio século, a regulação sanitária do mundo trabalhou como se as moléculas existissem sozinhas.

Avaliava-se uma substância: testava-se em animais, calculava-se a dose tolerável, definia-se o limite máximo de resíduo permitido nos alimentos.

A premissa silenciosa era a de que cada veneno conviveria, no corpo do exposto, apenas consigo mesmo. Mas o corpo de um agricultor, de uma criança em escola rural, de uma mulher grávida em município ribeirinho à plantação, nunca foi monogâmico em sua exposição. Bebe-se uma água que carrega resíduos de glifosato, atrazina, mancozebe, clorpirifós, todos abaixo do limite, todos seguros.

Come-se um tomate com vestígios de outros tantos. Respira-se a deriva da pulverização aérea. O que o estudo da Nature Health mostra, em escala nacional, com modelagem espacial e dados moleculares, é que essa coexistência não é neutra.

Ela tem um nome, agora medido: efeito coquetel. E tem um mecanismo, identificado pelos autores como não-genotóxico — os venenos combinados não cortam o DNA; eles desarranjam, devagar, o sistema regulatório que mantém uma célula sendo aquilo que ela é. A célula esquece. Daí até o tumor, é uma questão de tempo geológico íntimo.

É preciso parar diante dessa palavra: seguro. O que a ciência reguladora chamou de seguro durante meio século foi a aposta de que o risco se calcula molécula por molécula.

O que a ciência ambiental contemporânea começa a demonstrar é que essa aposta era, na melhor das hipóteses, uma simplificação metodológica conveniente para a indústria.

Na pior, era um pacto: avaliar o que se sabe avaliar, e silenciar sobre o que excede a ferramenta.

O conceito que substitui essa moldura — exposômica espacial — desloca a unidade de análise do laboratório para o território. Não se pergunta mais o que uma substância faz num rato. Pergunta-se o que uma paisagem química faz num corpo que nasceu, viveu e morreu dentro dela.

Esse deslocamento chega ao Brasil num momento muito específico — e é aqui que a coluna deixa de ser sobre o estudo e passa a ser sobre nós.

Em dezembro de 2023, o presidente Lula sancionou, com vetos pontuais, a Lei 14.785, que substituiu o marco regulatório de agrotóxicos vigente desde 1989.

A nova lei foi celebrada pela bancada do agronegócio como uma vitória de modernização, eficiência e harmonização internacional. Foi denunciada, pelo movimento ambientalista, pelo Ministério Público de diversos estados, por entidades da saúde pública e por pesquisadores da Fiocruz e da Abrasco, como o coroamento de uma agenda iniciada quase uma década antes — a agenda que ficou conhecida, popularmente, como PL do Veneno.

O que a lei fez, em sua espinha, foi substituir o critério de proibição por categoria pelo critério do risco aceitável. Antes, uma substância classificada como cancerígena, mutagênica, teratogênica ou disruptora endócrina não podia ser registrada.

Agora, pode — desde que se demonstre, dentro do procedimento regulatório, que seus riscos são gerenciáveis. O Ministério Público do Rio Grande do Sul, em nota técnica de abril de 2024, observou que a noção de risco inaceitável carece de regulamentação que defina, com clareza, o que ela significa.

Os números do que veio depois são públicos.

O Brasil consolidou-se em 2024 como o maior mercado mundial de defensivos agrícolas, com faturamento estimado em quatorze bilhões e trezentos milhões de dólares — à frente dos Estados Unidos e da China.

O consumo nacional alcançou cerca de um milhão e meio de toneladas. Em 2025, o Ministério da Agricultura concedeu setecentos e cinquenta novos registros de agrotóxicos, recorde histórico, segundo dado oficial confirmado em janeiro deste ano após apuração do Brasil de Fato.

Somos, há mais de uma década, o maior consumidor absoluto do planeta. Somos, segundo dossiês reiterados de organizações como a Public Eye e a Fundação Heinrich Böll, destino preferencial de substâncias agroquímicas proibidas dentro da União Europeia mas exportadas pela própria indústria europeia.

Sobreponha-se esse mapa econômico ao mapa argumentativo do estudo peruano.

O que se vê é o seguinte: o país que mais pulveriza, mais importa, mais registra e mais consome agrotóxicos no mundo acaba de afrouxar, em lei, o critério que protegia sua população das substâncias com maior potencial cancerígeno isolado, no exato momento histórico em que a ciência demonstra que o risco real não está nas substâncias isoladas, mas em sua coexistência.

O Brasil não está atrás da ciência: está caminhando na direção contrária.

Trocou um princípio cautelar — o de proibir o que sabidamente faz mal — por um princípio probabilístico — o de tolerar o que pode ser administrado. Essa troca, que parecia uma modernização técnica, é, à luz da exposômica, um anacronismo regulatório.

Estamos legislando para um modelo de mundo que a própria pesquisa de fronteira acaba de declarar obsoleto.

Há ainda uma camada que precisa ser dita, porque não é técnica.

É geográfica.

O estudo da Nature Health observa, em sua conclusão, que as zonas de maior risco coincidem com regiões de agricultura intensiva, manejo insustentável da terra e acesso limitado a serviços de saúde.

O risco se concentra onde a vulnerabilidade já estava concentrada.

No Peru, são as comunidades indígenas e camponesas.

No Brasil, são as famílias quilombolas em torno do agronegócio do Cerrado, as populações ribeirinhas afetadas pela pulverização aérea, os alunos da escola rural São José do Pontal, em Rio Verde, Goiás, atingidos em 2013 por uma nuvem do agrotóxico Engeo pulverizada por uma aeronave da empresa Aerotex sobre uma plantação de milho vizinha — caso que terminou em condenação judicial das empresas, em ação civil pública conduzida pelo Ministério Público Federal — e os moradores das mais de cento e cinquenta comunidades tradicionais maranhenses contaminadas apenas no primeiro semestre de 2024, segundo levantamento divulgado pela Comissão Pastoral da Terra, pela Rede de Agroecologia do Maranhão e pela Federação dos Trabalhadores Rurais.

A geografia do veneno é a mesma da desigualdade.

O que a ciência ambiental chama de exposição cumulativa, a geografia política sempre soube nomear como abandono cumulativo.

Os corpos que adoecem primeiro são os mesmos corpos que historicamente importaram menos. A novidade do estudo não é descobrir essa coincidência: é tornar matematicamente irrefutável aquilo que, durante décadas, foi tratado como queixa.

Por isso esta coluna não consegue terminar com a polidez das chamadas a “mais pesquisa” e “mais diálogo”.

A pesquisa está feita. Está em revisão por pares, está publicada na Nature Health, está disponível para qualquer regulador que queira lê-la.

O diálogo, no nosso caso, foi feito durante mais de vinte anos, e produziu uma lei que andou para trás.

O que está em jogo agora não é uma controvérsia científica, é uma decisão política sobre o que se aceita não saber.

A regulação molécula a molécula é uma escolha pelo que pode ser medido com a régua antiga. A regulação por território, por exposição combinada, por geografia da doença — é uma escolha pelo que precisa ser visto antes que cada caso individual de leucemia, de linfoma, de câncer de mama em mulheres jovens em municípios agrícolas, vire estatística de um sistema que, oficialmente, considerou cada substância segura.

A água que sai do céu, escorre pela haste, atravessa o solo, alcança o rio, abastece a cidade e chega ao copo não pergunta a ninguém quais limites máximos de resíduo foram respeitados.

Ela carrega tudo o que encontrou pelo caminho.

Cabe à política decidir se quer enxergar essa travessia ou continuar olhando para uma molécula de cada vez, como quem audita uma orquestra ouvindo um instrumento por dia e jurando, ao fim do mês, que nunca houve concerto.

O ponto crítico desta semana é exatamente esse: a ciência avançou para enxergar o invisível; a política brasileira, oficialmente, avançou na direção contrária — escolheu um critério que torna o invisível inverificável. E a água continua a chegar ao copo.

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The water that flows through us.


A study published this month shows that thirty-one pesticides considered safe, taken together, more than double the risk of cancer.

Since 2024, Brazil has been operating under a law that loosened the very criterion that protected its population from this risk.


Water falls from the sky, lands on a leaf, slides down a stalk, soaks into the soil, feeds the water table, reaches the river, fills the city’s reservoir, runs through the tap, enters the glass, passes through the mouth, travels in the blood. That route has no border. There is no entrance, no sanitary checkpoint. Wherever a sprayed soybean field exists, there is a body, dozens of kilometers away, that will drink, without knowing, part of that day. The geography of poison is not the geography of the sprayer. It is the geography of gravity.


That is the image I have had to keep in front of me this week, after slowly reading the study published in April in Nature Health by a team of researchers from the Institute of Research for Development (IRD), the Pasteur Institute, the University of Toulouse, and Peru’s National Institute of Neoplastic Diseases.


The work is signed by Jorge Honles, Stéphane Bertani, and fifteen other colleagues. It maps exposure to thirty-one pesticides across Peruvian territory and crosses that map with the country’s national cancer registry between 2007 and 2020 — one hundred fifty-eight thousand and seventy-two primary cases. In four hundred and thirty-six regions, the authors identified what they call hotspots: areas where the spatial overlap between combined exposure and disease incidence is unmistakable.

The mean relative risk in those zones is 2.52 — roughly two and a half times the expected risk. In specific pockets, it reaches 9.38.

The number, on its own, is grave.

But what sustains today’s column is not the figure. It is a sentence almost dropped in passing, in the methods section: none of the thirty-one pesticides analyzed was classified as a Group 1 carcinogen by the World Health Organization’s International Agency for Research on Cancer. Each of those substances, taken in isolation, was considered safe — or, in the technical jargon that has replaced common sense, sat below the tolerable limit.

Together, in the field, in the water, in milk, in the womb, in the liver, they formed what the authors name, with a sobriety that borders on poetic precision, cumulative exposure to pesticide mixtures.

The conceptual shift this study performs goes deeper than the news cycle has yet grasped.

For more than half a century, the world’s sanitary regulation has worked as though molecules existed alone. A substance was assessed: it was tested in animals, a tolerable dose was calculated, a maximum allowable residue limit was set in food.

The silent premise was that each poison would coexist, in the body of the exposed, only with itself. But the body of a farmer, of a child in a rural school, of a pregnant woman in a town along a plantation’s river, was never monogamous in its exposure.

People drink water carrying traces of glyphosate, atrazine, mancozeb, chlorpyrifos, all below the limit, all safe. They eat tomatoes with traces of others.

They breathe the drift from aerial spraying.

What the Nature Health study shows, on a national scale, with spatial modeling and molecular data, is that this coexistence is not neutral. It has a name, now measured: the cocktail effect. And it has a mechanism, identified by the authors as non-genotoxic — combined poisons do not cut DNA; they slowly disorganize the regulatory system that keeps a cell being what it is. The cell forgets. From there to a tumor, the matter is one of intimate geological time.

We must stop in front of that word: safe. What regulatory science called safe for half a century was a wager that risk could be calculated molecule by molecule. What contemporary environmental science is beginning to demonstrate is that this wager was, at best, a methodological simplification convenient for industry.

At worst, it was a pact: assess what we know how to assess, and stay silent about whatever exceeds the instrument. The concept replacing that frame — spatial exposomics — moves the unit of analysis from the laboratory to the territory. The question is no longer what a substance does to a rat. The question is what a chemical landscape does to a body that was born, lived, and died inside it.

This shift arrives in Brazil at a very specific moment — and this is where the column stops being about the study and starts being about us.

In December 2023, President Lula signed, with selective vetoes, Law 14.785, which replaced the regulatory framework for pesticides that had been in force since 1989.

The new law was celebrated by the agribusiness caucus as a victory for modernization, efficiency, and international harmonization.

It was denounced, by the environmental movement, by Public Prosecutor’s offices in several states, by public health entities, and by researchers at Fiocruz and Abrasco, as the culmination of an agenda that began nearly a decade earlier — the agenda popularly known as the Poison Bill.

What the law did, at its core, was replace the criterion of categorical prohibition with the criterion of acceptable risk. Before, a substance classified as carcinogenic, mutagenic, teratogenic, or endocrine-disrupting could not be registered.

Now, it can — provided it is shown, within the regulatory procedure, that its risks are manageable. The Public Prosecutor’s office of Rio Grande do Sul, in a technical note from April 2024, observed that the notion of unacceptable risk lacks regulation that would define, with clarity, what it means.

The numbers that followed are public.

Brazil consolidated itself in 2024 as the world’s largest market for agricultural pesticides, with revenue estimated at fourteen billion three hundred million dollars — ahead of the United States and China. National consumption reached approximately one and a half million tonnes. In 2025, the Ministry of Agriculture granted seven hundred and fifty new pesticide registrations, an all-time record, according to official figures confirmed this past January after reporting by Brasil de Fato. For more than a decade, we have been the largest absolute consumer on the planet. According to repeated dossiers by organizations such as Public Eye and the Heinrich Böll Foundation, we are also a preferred destination for agrochemical substances banned within the European Union but still exported by European industry itself.

Lay that economic map over the argumentative map of the Peruvian study. What emerges is this: the country that most sprays, most imports, most registers, and most consumes pesticides in the world has just loosened, in law, the very criterion that protected its population from substances with the highest standalone carcinogenic potential — and it has done so at the precise historical moment when science is demonstrating that the real risk lies not in isolated substances but in their coexistence. Brazil is not behind the science: it is walking in the opposite direction. We have traded a precautionary principle — to forbid what is known to cause harm — for a probabilistic principle — to tolerate what can be managed. That trade, which looked like a technical modernization, is, in light of exposomics, a regulatory anachronism. We are legislating for a model of the world that frontline research has just declared obsolete.

There is a further layer that must be said, because it is not technical. It is geographic.

The Nature Health study notes, in its conclusion, that the highest-risk zones coincide with regions of intensive agriculture, unsustainable land management, and limited access to health care.

Risk concentrates where vulnerability was already concentrated. In Peru, that means Indigenous and peasant communities.

In Brazil, it means quilombola families along the agribusiness frontier of the Cerrado, riverside populations affected by aerial spraying, the students of the rural school São José do Pontal, in Rio Verde, Goiás, sprayed in 2013 by a cloud of the pesticide Engeo released from an aircraft of the company Aerotex over a neighboring corn field — a case that ended in judicial conviction of the companies, in a public civil action led by the Federal Public Prosecutor — and the residents of the more than one hundred and fifty traditional communities in Maranhão contaminated in the first half of 2024 alone, according to documentation released by the Pastoral Land Commission, the Maranhão Agroecology Network, and the State Federation of Rural Workers.

The geography of poison is the geography of inequality. What environmental science calls cumulative exposure, political geography has always known how to name as cumulative abandonment.

The bodies that fall ill first are the same bodies that, historically, mattered less. The novelty of the study is not in discovering that coincidence: it is in making mathematically irrefutable what was, for decades, treated as a complaint.

That is why this column cannot end with the polite calls for “more research” and “more dialogue.” The research is done. It is peer-reviewed, it is published in Nature Health, it is available to any regulator who wants to read it. The dialogue, in our case, was held for over twenty years, and produced a law that walked backwards. What is at stake now is not a scientific controversy; it is a political decision about what one accepts not to know. Molecule-by-molecule regulation is a choice for what can be measured with the old ruler. Regulation by territory, by combined exposure, by the geography of disease — that is a choice for what must be seen, before each individual case of leukemia, of lymphoma, of breast cancer in young women in farming towns, becomes a statistic in a system that, officially, considered each substance safe.

The water that falls from the sky, slides down the stalk, soaks into the soil, reaches the river, fills the reservoir, and arrives in the glass does not ask anyone which maximum residue limits were respected.

It carries everything it found along the way. It is up to politics to decide whether it wants to see that crossing, or whether it prefers to keep looking at one molecule at a time — like an auditor reviewing an orchestra by listening to one instrument per day, and swearing, at the end of the month, that there was never a concert.

The critical point this week is exactly that: science has moved forward to see the invisible; Brazilian policy, officially, has moved in the opposite direction — choosing a criterion that renders the invisible unverifiable. And the water keeps reaching the glass.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

24 de março de 2026

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