A guerra contra o clima.
Do Irã à Ucrânia, os conflitos armados contaminam ecossistemas, ampliam emissões e afastam o mundo das metas de Paris.

A guerra quase sempre é narrada do modo que os Estados preferem narrá-la: em mapas, mísseis, fronteiras, barris de petróleo e doutrinas de segurança. É uma linguagem de poder, controle e estratégia. Mas existe uma outra contabilidade em curso, menos visível e nem por isso menos decisiva. Ela mede o ar que se torna mais sujo, a água que deixa de ser potável, o solo que absorve toxinas, os campos que deixam de produzir, as florestas que queimam e o carbono extra que sobe à atmosfera enquanto governos falam em estabilidade.
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Essa é uma das dimensões menos discutidas dos conflitos contemporâneos — e uma das mais reveladoras. Guerras não destroem apenas cidades, vidas e infraestrutura. Elas também contaminam ecossistemas, reorganizam cadeias energéticas, ampliam emissões e aprofundam um problema que o mundo já vinha fracassando em enfrentar: a distância crescente entre a realidade política e as metas climáticas que os próprios governos assinaram.
No caso do Irã, essa dimensão se impôs de forma particularmente clara. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertou que o conflito no Oriente Médio tende a agravar a pressão sobre recursos naturais, danificar ecossistemas terrestres e marinhos, comprometer água e saneamento e atrasar esforços de resiliência hídrica e climática em uma região que já vivia forte estresse ambiental. O órgão também chamou atenção para a exposição direta da população à fumaça espessa produzida por óleo em chamas.
Foi nesse contexto que os efeitos ambientais da guerra deixaram de ser abstração e passaram, literalmente, a cair do céu. Relatos sobre ataques a depósitos e instalações petrolíferas próximos a Teerã descreveram nuvens tóxicas ligadas à combustão de petróleo, com emissão de hidrocarbonetos, além de óxidos de enxofre e nitrogênio. Esses compostos podem acidificar a chuva. O episódio foi associado também à chamada chuva preta: uma precipitação escura e oleosa, misturada a fuligem e resíduos químicos dos incêndios. A Organização Mundial da Saúde considerou apropriadas as orientações para que moradores permanecessem em ambientes fechados diante dos riscos respiratórios e cutâneos.
Esse detalhe importa porque condensa, de forma brutal, a lógica ecológica da guerra contemporânea. Infraestrutura energética, quando bombardeada, deixa de ser apenas ativo estratégico e se transforma em vetor imediato de contaminação atmosférica, hídrica e do solo. A guerra termina na linha de frente antes de terminar no ambiente. Ela continua nos lençóis freáticos, nas cadeias alimentares, nos pulmões e na própria química da chuva. A imagem é forte porque o dano também é: não se trata apenas de destruição física, mas de poluição persistente.
Mas o Irã oferece, sobretudo, o retrato instantâneo da contaminação: fumaça tóxica, chuva ácida, chuva preta, pânico energético. A Ucrânia oferece outra coisa: o retrato de longa duração. Ali, a guerra já mostrou o que acontece quando devastação ambiental deixa de ser episódio e vira sistema. Água e solo contaminados, florestas destruídas, áreas agrícolas comprometidas, infraestrutura industrial arrasada e uma reconstrução de altíssima intensidade carbônica transformaram o conflito em um laboratório terrível da persistência ecológica da guerra.
Estimativas usadas por autoridades ucranianas apontaram cerca de 237 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente emitidas desde a invasão de 2022. A conta inclui uso de combustíveis fósseis, incêndios, destruição de florestas, atividade industrial e o carbono embutido na reconstrução. O valor ajuda a desmontar uma ilusão persistente: a de que o impacto ambiental da guerra se resume à explosão do momento. Não se resume. O pós-guerra também emite. O pós-guerra também polui. O pós-guerra também prolonga a desordem climática.
Juntos, Irã e Ucrânia desmontam uma ficção confortável: a de que conflito armado é assunto de segurança, e clima, um tema paralelo. No Irã, a guerra mostra como a infraestrutura fóssil bombardeada contamina o presente. Na Ucrânia, já se vê como a guerra compromete também o futuro — pela persistência da poluição, pela erosão territorial e pelo carbono exigido para reconstruir o que foi destruído.
Esse desarranjo pesa ainda mais porque o mundo já está atrasado em relação às metas do Acordo de Paris. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, estimou que, mesmo com a implementação integral das contribuições nacionalmente determinadas atuais, o planeta ainda caminha para algo entre 2,3°C e 2,5°C de aquecimento neste século; sob as políticas correntes, a projeção chega a 2,8°C. Paris já estava longe antes dessas guerras se tornarem exemplos tão eloquentes da colisão entre violência armada e colapso ambiental.
A literatura científica e os relatórios recentes insistem em um ponto incômodo: operações militares, indústria de defesa, destruição de reservatórios naturais de carbono e reconstrução pós-conflito formam uma conta climática muito maior do que a política internacional costuma admitir. Uma revisão citada em 2025 estimou que atividades militares respondiam por cerca de 5,5% das emissões globais e advertiu que os dados continuam incompletos e pouco transparentes.
Há ainda uma omissão persistente no centro do debate climático: as emissões militares seguem submedidas e subnotificadas. O mundo cobra metas da indústria, do transporte, do agro e do setor elétrico, mas continua tratando a máquina de guerra com uma opacidade notável. Essa lacuna não é apenas técnica. É política. Ela ajuda a preservar a ficção de que segurança e clima pertencem a esferas distintas, quando na prática a guerra é também um fato climático.
O ponto central é incômodo, mas simples: não existe política climática séria que trate a guerra como nota de rodapé. Não existe transição energética robusta em um mundo que, a cada choque geopolítico, volta a se curvar diante do petróleo. E não existe meta climática plenamente crível se as grandes potências continuam separando “segurança” de “meio ambiente”, como se incêndios industriais, destruição de infraestrutura, vazamentos tóxicos, deslocamento forçado e gasto militar maciço não fossem também matéria climática.
No fim, Irã e Ucrânia oferecem ao mundo duas versões da mesma advertência. Uma mostra a contaminação em tempo real: fumaça tóxica, chuva ácida, água ameaçada, pânico energético. A outra revela o que permanece quando a atenção internacional se desloca: solo degradado, florestas destruídas, infraestrutura arrasada e uma reconstrução carregada de carbono.
Juntas, essas guerras desmontam uma ficção conveniente: a de que conflito armado pertence ao campo da segurança, enquanto o clima seria um tema à parte, quase administrativo. Não é. A guerra também é um acontecimento ambiental. Ela altera a química da chuva, envenena a água, compromete a terra, amplia emissões e empurra para mais longe metas climáticas que já pareciam difíceis demais.
A política internacional talvez ainda insista em separar guerra de clima. A atmosfera não faz essa separação. O solo tampouco. A água, menos ainda.
A guerra não corrói apenas a paz. Corrói também as condições materiais de qualquer futuro habitável.
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🇺🇸 Inglês:
War against the climate.
From Iran to Ukraine, armed conflicts contaminate ecosystems, expand emissions, and push the world further away from the Paris goals.
War is almost always narrated the way states prefer to narrate it: through maps, missiles, borders, barrels of oil, and security doctrines. It is a language of power, control, and strategy. But there is another ledger running alongside that one, less visible yet no less decisive. It measures dirtier air, undrinkable water, soil saturated with toxins, fields that no longer yield, forests set ablaze, and extra carbon rising into the atmosphere while governments speak of stability.
This is one of the least discussed dimensions of contemporary conflict — and one of the most revealing. Wars do not destroy only cities, lives, and infrastructure. They also contaminate ecosystems, reorganize energy systems, expand emissions, and deepen a crisis the world was already failing to confront: the widening gap between political reality and the climate goals governments themselves signed on to.
In Iran’s case, that dimension imposed itself with unusual clarity. The United Nations Environment Programme warned that conflict in the Middle East is likely to intensify pressure on natural resources, damage marine and terrestrial ecosystems, disrupt water and sanitation systems, and set back efforts to build water and climate resilience in a region already under severe environmental stress. The agency also highlighted direct civilian exposure to thick smoke from burning oil.
It was in that context that war’s environmental effects ceased to be an abstraction and quite literally began falling from the sky. Reports on strikes near Tehran described toxic clouds linked to petroleum combustion, releasing hydrocarbons along with sulfur and nitrogen oxides. Those compounds can acidify rainfall. The episode was also associated with so-called black rain: a dark, oily precipitation mixed with soot and chemical residues from the fires. The World Health Organization backed advice for residents to remain indoors because of respiratory and skin risks.
That detail matters because it condenses, with brutal clarity, the ecological logic of contemporary war. Once bombed, energy infrastructure stops being merely a strategic asset and becomes an immediate vector of atmospheric, hydrological, and soil contamination. War leaves the front line before it leaves the environment. It continues in aquifers, food chains, lungs, and in the chemistry of rainfall itself. The image is striking because the damage is, too: this is not only physical destruction, but persistent pollution.
But Iran offers, above all, the instantaneous portrait of contamination: toxic smoke, acid rain, black rain, energy panic. Ukraine offers something else: the long-duration portrait. There, war has already shown what happens when environmental devastation stops being an episode and becomes a system. Contaminated water and soil, destroyed forests, damaged farmland, shattered industrial infrastructure, and an intensely carbon-heavy reconstruction effort have turned the conflict into a terrible laboratory of war’s ecological persistence.
Estimates used by Ukrainian authorities pointed to roughly 237 million tonnes of carbon dioxide equivalent emitted since the 2022 invasion. That total includes fossil fuel use, fires, forest destruction, industrial activity, and the carbon embedded in reconstruction. The number helps dismantle a persistent illusion: that war’s environmental impact is limited to the blast itself. It is not. Postwar rebuilding also emits. Postwar rebuilding also pollutes. Postwar rebuilding also prolongs climate disorder.
Taken together, Iran and Ukraine dismantle a comforting fiction: that armed conflict belongs to the realm of security, while climate is a separate subject. In Iran, war shows how bombed fossil infrastructure contaminates the present. In Ukraine, one can already see how war also compromises the future — through persistent pollution, territorial erosion, and the carbon required to rebuild what has been destroyed.
That disorder matters even more because the world is already behind on the goals of the Paris Agreement. UNEP’s Emissions Gap Report 2025 estimated that even full implementation of current nationally determined contributions would still put the planet on track for roughly 2.3°C to 2.5°C of warming this century; under current policies, the projection rises to 2.8°C. Paris was already far away before these wars became such stark examples of the collision between armed violence and environmental breakdown.
Recent literature and reporting keep returning to an uncomfortable point: military operations, the defense industry, the destruction of natural carbon sinks, and post-conflict reconstruction together form a climate bill far larger than international politics usually admits. A review cited in 2025 estimated that military activity accounts for about 5.5% of global emissions and warned that the data remain incomplete and insufficiently transparent.
There is also a persistent omission at the heart of the climate debate: military emissions remain undercounted and underreported. The world demands targets from industry, transport, agriculture, and power generation, yet continues to treat the machinery of war with striking opacity. That gap is not merely technical. It is political. It helps preserve the fiction that security and climate belong to separate spheres, when in practice war is also a climate fact.
The central point is uncomfortable but simple: there is no serious climate policy that treats war as a footnote. There is no robust energy transition in a world that bends back toward oil at every geopolitical shock. And there is no fully credible climate target if major powers keep separating “security” from “the environment,” as though industrial fires, destroyed infrastructure, toxic leaks, forced displacement, and massive military spending were not also climate matters.
In the end, Iran and Ukraine offer the world two versions of the same warning. One shows contamination in real time: toxic smoke, acid rain, threatened water, energy panic. The other reveals what remains once international attention moves on: degraded soil, destroyed forests, wrecked infrastructure, and reconstruction loaded with carbon.
Together, these wars dismantle a convenient fiction: that armed conflict belongs to the realm of security, while climate is some separate, almost administrative issue. It is not. War is also an environmental event. It alters the chemistry of rain, poisons water, compromises land, expands emissions, and pushes already difficult climate goals even farther away.
International politics may still insist on separating war from climate. The atmosphere does not. Neither does the soil. Water, least of all.
War corrodes more than peace. It corrodes the material conditions of any livable future.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
24 de março de 2026

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