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Selic em 15% pela quarta vez:

O silêncio do Banco Central como instrumento.

Selic em 15% pela quarta vez: o silêncio do Banco Central como instrumento por Valéria Monteiro.

Crédito: Wikipedia.

A ausência de pistas sobre os próximos passos dos juros não é falha de comunicação, mas parte central da política monetária em um país de autonomia recente.

(Scroll down for English)

Ao manter a taxa Selic em 15% ao ano pela quarta reunião consecutiva, o Banco Central brasileiro entregou uma decisão amplamente esperada. O que merece atenção, no entanto, é o que não veio junto: qualquer forma de sinalização sobre os próximos passos da política monetária.

Não houve pistas sobre cortes, nem sobre novas altas. Em um país historicamente acostumado a interpretar cada nuance do comunicado do Copom como um roteiro antecipado, o silêncio pode parecer desconfortável. Mas ele é deliberado — e está alinhado às melhores práticas internacionais.

Do excesso de sinalização à dependência dos dados

Após a pandemia, tanto o Federal Reserve quanto o Banco Central Europeu (BCE) revisaram profundamente suas estratégias de comunicação. O uso intenso de forward guidance — com promessas explícitas de juros baixos por longos períodos — mostrou seus limites quando a inflação surpreendeu e exigiu uma reversão rápida e agressiva da política monetária.

A lição foi clara: sinalizar demais pode aprisionar o Banco Central.

Desde então, Fed e BCE passaram a enfatizar uma abordagem mais cautelosa, baseada na incerteza e na dependência dos dados (data dependent), evitando compromissos antecipados com trajetórias de juros. O Banco Central do Brasil caminha agora na mesma direção.

Por que isso é ainda mais relevante no Brasil

O mercado brasileiro sempre reagiu de forma intensa à comunicação do Banco Central. Pequenas mudanças de tom eram suficientes para deslocar juros futuros, câmbio e fluxos de capital antes mesmo das decisões formais. Nesse ambiente, a sinalização acabava funcionando como um substituto da própria política monetária.

Ao evitar pistas, o BC busca recuperar o controle do tempo e da transmissão da política monetária — exatamente como fizeram Fed e BCE ao reduzir o peso das indicações verbais e recolocar os dados no centro do processo decisório.

Autonomia recente, estratégia já testada

A independência formal do Banco Central brasileiro é relativamente recente. Por décadas, a comunicação excessiva foi também uma resposta à pressão política e à necessidade de ancorar expectativas.

Com a autonomia, muda o paradigma. Assim como ocorre nos Estados Unidos e na zona do euro, um BC independente não promete caminhos. Ele se compromete com objetivos — sobretudo a estabilidade de preços — e preserva flexibilidade para reagir a um ambiente marcado por choques fiscais, volatilidade cambial e incertezas globais.

Ao manter a Selic em 15% sem indicar o que virá adiante, o Copom sinaliza que não há piloto automático, expressão hoje recorrente tanto em Washington quanto em Frankfurt.

Menos leitura de comunicados, mais atenção aos fundamentos

Essa mudança de postura desloca o foco. Em vez de buscar pistas em comunicados, o mercado é convidado a observar os fundamentos que realmente importam: inflação corrente e expectativas, política fiscal, atividade econômica, condições financeiras globais e comportamento do câmbio.

É o mesmo movimento observado no Fed e no BCE, que procuram reduzir a dependência dos mercados em relação à comunicação e aumentar a qualidade da resposta aos dados.

Conclusão

A quarta manutenção da Selic em 15% diz menos sobre o nível atual dos juros e mais sobre o método. O Banco Central brasileiro passa a adotar uma estratégia já conhecida nas principais economias avançadas: menos promessa, mais condicionalidade; menos sinalização, mais flexibilidade.

Em um país de autonomia recente, o silêncio não indica hesitação. Indica convergência com práticas internacionais — e a tentativa de tornar a política monetária mais eficaz ao não ser antecipada pelo mercado.

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Inglês:
Selic at 15% for the Fourth Time: Brazil Adopts the Fed–ECB Playbook of Strategic Silence

The lack of forward guidance is not a communication gap, but a deliberate monetary policy choice by a recently independent central bank.

Brazil’s Central Bank has kept its benchmark interest rate, the Selic, at 15% per year for the fourth consecutive meeting. While the decision itself was widely expected, what deserves attention — especially for European and North American readers — is what did not come with it: any form of forward guidance.

There were no hints of imminent cuts, no signals of renewed tightening. This silence is not accidental. It mirrors an approach increasingly adopted by the Federal Reserve and the European Central Bank in the post-pandemic environment, where excessive guidance proved costly.

From forward guidance to data dependence

During the pandemic, both the Fed and the ECB relied heavily on strong forward guidance, committing to low rates for extended periods. When inflation surged unexpectedly, those commitments had to be unwound abruptly, damaging credibility and forcing aggressive tightening.

The lesson was clear: too much signaling can trap a central bank.

Since then, both institutions have shifted toward a more cautious, data-dependent framework, emphasizing uncertainty and conditionality rather than pre-announced paths. Brazil’s Central Bank is now clearly operating within this same logic.

Why this matters more in Brazil

Historically, Brazilian markets have been unusually sensitive to central bank language. Minor changes in tone were enough to move long-term yields, the exchange rate and capital flows well ahead of policy decisions. In that environment, guidance often became a substitute for policy itself.

By withholding signals, Brazil’s Central Bank is attempting to reclaim control over timing and transmission — much as the Fed and the ECB have done by repeatedly stressing that decisions will depend on incoming data, not on pre-set trajectories.

A young independence, a familiar strategy

Brazil granted formal independence to its Central Bank only recently. For decades, political pressure encouraged excessive communication as a way to anchor expectations. Autonomy, however, requires a different posture.

Like the Fed and the ECB, an independent central bank does not promise paths; it commits to objectives. Price stability remains the anchor, while policy flexibility is preserved in the face of uncertain inflation dynamics, fiscal risks and global financial conditions.

By holding the Selic at 15% without indicating next steps, Brazil’s Central Bank signals that there is no automatic pilot — a phrase now familiar in Washington and Frankfurt alike.

Shifting the focus back to fundamentals

For investors accustomed to parsing statements line by line, this restraint may feel uncomfortable. But the effect is intentional: attention shifts away from language and toward fundamentals — inflation trends, fiscal sustainability, economic activity, global liquidity conditions and exchange-rate behavior.

This is precisely the recalibration seen at the Fed and the ECB, where central banks have sought to reduce the market’s reliance on verbal cues and re-center policy around data.

Conclusion

Holding the Selic at 15% for the fourth time says less about Brazil’s near-term rate outlook and more about institutional alignment. The country’s Central Bank is adopting a framework increasingly familiar to policymakers in the US and Europe: less guidance, more conditionality; fewer promises, greater flexibility.

For a recently independent central bank, silence is not a sign of hesitation. It is a sign of convergence with global best practice — and an assertion that monetary policy works best when it is not pre-empted by the market.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

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