Valentino:
A elegância como disciplina do deslumbramento.

Crédito: Wikipedia.
Há estilistas que seguem o tempo. Outros tentam antecipá-lo. Valentino Garavani pertence a uma categoria mais rara: a dos que o suspendem. Sua morte, aos 93 anos, não encerra apenas uma trajetória profissional — consolida uma ideia de elegância que atravessou gerações sem jamais pedir desculpas por existir.
(Scroll Down For English)
Enquanto a moda se acelerava, confundindo novidade com relevância, Valentino insistiu no contrário: a precisão como valor supremo. Seu corte não era mero virtuosismo técnico; era uma ética do olhar. Nada excessivo, nada descuidado. Cada linha obedecia a uma lógica interna que dispensava explicações. A roupa se sustentava sozinha.
Valentino jamais quis reinventar o corpo feminino. Preferiu respeitá-lo. Sua obra não nasce da ruptura agressiva, mas da continuidade refinada. Ele compreendia algo que o tempo parece esquecer: quando a forma é perfeita, ela não precisa gritar.
O vermelho que não se desculpa
O Vermelho Valentino não é uma assinatura cromática; é uma posição estética. Um vermelho que não pede licença, não se dilui em tendências, não se justifica conceitualmente. Ele existe — e basta.
Assumir uma cor tão absoluta como identidade exige coragem. Só os clássicos podem correr esse risco: o de serem imediatamente reconhecíveis. Mas ali estava o segredo — o vermelho nunca era excesso porque vinha sustentado por estrutura, corte, proporção. O impacto era consequência, não estratégia.
Para Valentino, deslumbrar não era vulgaridade. Era responsabilidade.
Clássico não é conservador
Chamar Valentino de “clássico” é correto — desde que se entenda o termo. O clássico, em sua obra, não significa apego ao passado, mas resistência à banalização. Enquanto a moda celebrava o efêmero, ele apostava na permanência.
Vestiu atrizes, primeiras-damas, princesas. Mas, sobretudo, vestiu momentos. Casamentos, despedidas, aparições que exigiam mais do que roupa — exigiam presença, postura, silêncio.
O luxo do controle
Num tempo em que o luxo se confunde com excesso e exposição, Valentino defendia o luxo do controle absoluto. Nada precisava ser explicado. O corte falava. A forma resolvia.
Sua saída de cena, em 2007, foi coerente com tudo o que construiu: sem ruído, sem espetáculo vazio. Como alguém que sabe quando a obra já se tornou maior que o autor.
O que Valentino deixa não é um vazio, mas um padrão. Um lembrete incômodo de que é possível ser elegante sem ser nostálgico, moderno sem ser descartável, marcante sem ser barulhento.
Num mundo que se desculpa por brilhar, Valentino jamais o fez.
E talvez por isso sua obra continue ali — precisa, vermelha, irretocável — como tudo aquilo que foi feito para durar.
⸻
Inglês:
Valentino: Elegance as the Discipline of Dazzle.
Some designers follow time. Others try to outrun it. Valentino Garavani belonged to a rarer category: those who suspend it. His death at 93 does not simply close a career — it seals a vision of elegance that endured for decades without ever apologizing for itself.
As fashion grew louder, faster, increasingly obsessed with novelty, Valentino moved in the opposite direction. For him, precision was a moral stance. His tailoring was not decorative virtuosity but discipline. Nothing accidental, nothing excessive. Each line answered to an internal logic that required no explanation. The garment stood on its own.
Valentino never sought to reinvent the female body. He chose instead to honor it. His work was not born of rupture, but of continuity — refined, intentional, unapologetic. He understood what many forget: when form is exact, it does not need to shout.
A red that refuses to apologize
Valentino Red is not merely a color. It is an aesthetic position. A red that does not ask permission, does not bend to trends, does not justify itself with theory. It exists — fully, unmistakably.
Claiming such a definitive signature requires confidence only true classics can afford: the risk of instant recognition. Yet the red never tipped into excess. It was anchored by structure, proportion, and impeccable cut. The impact was never forced. It was inevitable.
For Valentino, dazzling was not indulgence. It was obligation.
Classic is not conservative
To call Valentino “classic” is accurate — provided the word is understood correctly. In his work, classicism was not nostalgia, but resistance to triviality. While fashion chased the ephemeral, he invested in permanence.
He dressed actresses, first ladies, royalty. But more than that, he dressed moments — weddings, farewells, public appearances that demanded more than clothing. They required presence, restraint, authority.
The luxury of restraint
In an era where luxury is confused with exposure and excess, Valentino championed another idea: the luxury of absolute control. No manifesto was needed. The cut spoke. The form resolved everything.
His retirement in 2007 followed the same logic as his career: composed, deliberate, free of spectacle. The exit of someone who knows when the work has already outgrown its maker.
What Valentino leaves behind is not absence, but a benchmark. A reminder — perhaps an uncomfortable one — that it is possible to be relevant without noise, modern without disposability, seductive without vulgarity.
In a world that apologizes for brilliance, Valentino never did.
And that may be why his work still stands — precise, red, immaculate — like everything that was made to endure.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
19 de janeiro de 2026

Leia também
Interfaces Cérebro–Computador.
O que a pesquisa cerebral realmente significa para a tecnologia movida pelo pensamento.
