
O corpo que viaja também cobra pedágio.
Por Valéria Monteiro.
As pernas doem.
O quadril parece fora do eixo.
A lombar leva minutos para “acordar”.
E, de repente, surge a pergunta inevitável: é a idade chegando… ou somos nós atravessando cidades italianas como se ainda tivéssemos vinte anos?
Viajar envelhece o corpo temporariamente.
Essa talvez seja a parte menos fotografada da experiência europeia. As imagens mostram taças de vinho diante do pôr do sol na Toscana, escadarias romanas, ruas de pedra em vilarejos medievais, malas deslizando por plataformas de trem. O que quase nunca aparece é o corpo tentando negociar tudo isso ao mesmo tempo.
Porque a Itália não se percorre sentada.
Ela exige caminhada. Escada. Desnível. Calçamento irregular. Horas em trens. Espera em estações. Colunas torcidas para arrastar malas em ruas desenhadas séculos antes da invenção da rodinha. Você anda muito mais do que imagina — e de um jeito que normalmente não anda na vida cotidiana.
O corpo percebe.
Existe quase um pequeno choque biomecânico do viajante.
Músculos estabilizadores que ficam adormecidos durante meses reaparecem subitamente. O quadril trabalha diferente. A lombar tenta compensar. A panturrilha endurece. O pé perde absorção no piso irregular. E até o simples gesto de olhar mapas no celular por horas altera a postura do pescoço e das costas.
Não é exatamente “a idade”.
Mas também não é completamente inocente.
Porque viajar revela uma verdade desconfortável: boa parte de nós perdeu diversidade de movimento. Vivemos em trajetos previsíveis. Cadeira. Carro. Sofá. Mesa. Elevador. O corpo moderno se move pouco — e quase sempre do mesmo jeito.
Então chega a viagem.
E ela obriga o corpo a lembrar funções que ele ainda tem, mas já não pratica.
A ironia é que isso acontece justamente nos lugares onde nos sentimos mais vivos. Você passa o dia encantado em Roma e, à noite, descobre músculos cuja existência desconhecia. Caminha por Lecce como se estivesse dentro de um filme e depois leva trinta segundos para sair da cama na manhã seguinte.
Talvez exista aí uma distinção importante.
Dor não significa necessariamente decadência.
Às vezes significa uso.
Claro: há limites. Dor persistente, intensa, irradiada ou incapacitante merece atenção médica. Mas existe também uma dor quase arqueológica do movimento reaparecendo. Como se o corpo dissesse: “eu ainda sei fazer isso… só não fazia há muito tempo”.
E talvez o mais curioso seja perceber que o desconforto e a vitalidade frequentemente chegam juntos.
As cidades italianas fazem algo raro com o corpo contemporâneo: obrigam a desacelerar sem imobilizar. Você anda mais devagar, mas anda muito. Come mais demoradamente, mas sobe mais escadas. Dorme tarde, desperta cedo, atravessa praças, estações, ladeiras, corredores de pedra.
É um cansaço diferente do cansaço digital.
Não é a exaustão imóvel das telas.
É um desgaste quase físico da experiência.
Talvez seja por isso que certas viagens permanecem no corpo muito depois de saírem das fotos.
Porque algumas cidades não passam apenas pelos olhos.
Passam pelas articulações.

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Your legs hurt.
Your hips feel misaligned.
Your lower back takes a while to “wake up.”
And suddenly the inevitable question appears: is this aging… or are we simply crossing Italy as if we were still twenty?
Travel temporarily ages the body.
That may be one of the least photographed parts of the European experience. The images show wine glasses at sunset in Tuscany, Roman staircases, medieval stone streets, train platforms. What almost never appears is the body trying to negotiate all of it at once.
Because Italy is not experienced sitting down.
It demands walking. Stairs. Uneven ground. Cobblestones. Hours on trains. Waiting in stations. Twisted spines pulling luggage through streets built centuries before rolling suitcases existed. You move far more than you realize — and in ways your daily life rarely requires anymore.
The body notices.
There is almost a small biomechanical shock to traveling. Stabilizing muscles dormant for months suddenly reactivate. The hips work differently. The lower back compensates. Calves tighten. Feet lose cushioning on irregular surfaces. Even constantly looking down at maps on a phone subtly changes posture.
It is not exactly “age.”
But it is not entirely innocent either.
Because travel exposes an uncomfortable truth: many of us have lost movement diversity. Modern life repeats the same choreography endlessly. Chair. Car. Couch. Desk. Elevator. The contemporary body moves very little — and almost always in the same patterns.
Then comes travel.
And it forces the body to remember functions it still possesses, but no longer practices.
The irony is that this happens precisely in the places where we feel most alive. You spend the day enchanted by Rome and discover muscles you did not know existed when you return to the hotel. You walk through Lecce as if inside a film, then need thirty seconds to get out of bed the next morning.
There may be an important distinction there.
Pain does not necessarily mean decline.
Sometimes it means use.
Of course, persistent or intense pain deserves medical attention. But there is also a kind of archaeological soreness that comes from movement returning. As if the body were saying: “I still know how to do this… I just haven’t in a long time.”
And perhaps the most interesting part is realizing that discomfort and vitality often arrive together.
Italian cities do something rare to the modern body: they force it to slow down without becoming still. You walk more slowly, but you walk a lot. You eat longer meals, but climb more stairs. You sleep late, wake early, cross plazas, train stations, hillsides, stone corridors.
It is a different exhaustion from digital exhaustion.
Not the immobile fatigue of screens.
A physical wear created by experience itself.
Maybe that is why certain journeys remain in the body long after they leave the photographs.
Because some cities do not pass only through the eyes.
They pass through the joints.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
23 de mai. de 2026

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