top of page
Uma pá de cal no consumo de açúcar?

Uma pá de cal no consumo de açúcar?

Por Valéria Monteiro.

A descoberta de que a cal participa da fabricação do açúcar refinado circula como escândalo nas redes sociais. Mas a ciência sugere que a verdadeira discussão está em outro lugar.


Scroll down for English


A controvérsia errada


De tempos em tempos, uma informação sobre o açúcar refinado ressurge nas redes sociais: ele seria produzido com cal.


A afirmação é verdadeira. A interpretação, nem sempre.


A cal é utilizada há décadas na clarificação do caldo de cana, ajudando a remover impurezas durante o processamento industrial. Trata-se de uma etapa tecnológica, não de um ingrediente adicionado ao produto final. O açúcar que chega à mesa não é consumido como uma mistura de sacarose e cal.


Mas a curiosidade popular sobre o tema revela algo interessante: enquanto nos preocupamos com um detalhe do processo industrial, frequentemente ignoramos os aspectos mais relevantes do ponto de vista biológico.


A verdadeira pergunta não é se há cal no açúcar.


É o que o açúcar faz dentro de nós.


O combustível mais antigo da vida


A glicose é uma das moléculas mais importantes da biologia.


Praticamente todas as células humanas dependem dela para produzir energia. O cérebro, sozinho, consome cerca de 20% da energia total do organismo, mesmo representando apenas uma pequena fração do peso corporal.


Quando ingerimos açúcar refinado, frutas, arroz, pão, batata ou massas, o sistema digestivo converte grande parte desses carboidratos em glicose.


Essa glicose entra na corrente sanguínea e passa a abastecer músculos, órgãos e cérebro.


Sem ela, a vida simplesmente não seria possível.


O problema começa quando a disponibilidade de energia ultrapassa sistematicamente a demanda do organismo.


O papel da insulina: a chave metabólica


Quando a glicose sobe no sangue, o pâncreas libera insulina.


A insulina funciona como uma chave biológica que permite a entrada da glicose nas células.


Parte dessa energia é utilizada imediatamente.


Outra parte é armazenada como glicogênio no fígado e nos músculos.


Quando esses estoques ficam cheios, o excesso passa a ser convertido em gordura.


Esse mecanismo foi uma extraordinária vantagem evolutiva durante milhares de anos, quando períodos de abundância alternavam-se com períodos de escassez.


O problema é que o corpo humano evoluiu para um ambiente que praticamente não existe mais.


Hoje, a abundância é permanente.


Quando o sistema começa a falhar


A exposição frequente a grandes quantidades de açúcar e carboidratos altamente refinados pode levar ao desenvolvimento de resistência à insulina.


Nesse cenário, as células passam a responder menos eficientemente ao hormônio.


O organismo reage produzindo cada vez mais insulina para compensar.


Durante anos, os exames podem parecer relativamente normais.


Por trás das aparências, porém, uma cascata de alterações metabólicas já está em curso.


Entre elas:


aumento da gordura abdominal;


elevação dos triglicerídeos;


redução do colesterol HDL;


aumento da inflamação sistêmica;


acúmulo de gordura no fígado;


maior risco cardiovascular.


Em muitos casos, esse processo culmina no diabetes tipo 2.


O açúcar é viciante?


A resposta científica é mais complexa do que parece.


O açúcar ativa circuitos cerebrais relacionados à recompensa, especialmente aqueles mediados pela dopamina.


Os mesmos sistemas participam da motivação, aprendizagem e prazer.


Isso não significa que açúcar produza dependência química idêntica à observada em drogas como nicotina ou opioides.


Mas ajuda a explicar por que alimentos ultraprocessados ricos em açúcar são tão eficazes em estimular consumo repetido.


A indústria alimentícia conhece esse fenômeno há décadas.


Existe açúcar saudável?


A resposta depende do que se entende por açúcar.


Do ponto de vista químico, o açúcar de coco, o mel, o açúcar mascavo, o demerara e o refinado continuam sendo fontes concentradas de açúcares simples.


O organismo não os enxerga de forma radicalmente diferente.


O que muda são quantidades de minerais, compostos bioativos e velocidade de absorção.


Em geral:


Frutas inteiras


São a melhor fonte natural de açúcares.


Além da frutose e da glicose, fornecem fibras, vitaminas, minerais, água e compostos antioxidantes.


As fibras retardam a absorção dos açúcares e reduzem picos glicêmicos.


Mel


Contém compostos antioxidantes e pequenas quantidades de micronutrientes.


Ainda assim, permanece sendo uma fonte concentrada de açúcar.


Açúcar mascavo e demerara


Mantêm parte dos minerais presentes na cana.


Os benefícios nutricionais existem, mas são modestos.


Não transformam açúcar em alimento saudável.


Tâmaras e frutas secas


Podem adoçar receitas oferecendo fibras e micronutrientes adicionais.


Mas também são densas em açúcar e calorias.


O que realmente importa


A ciência contemporânea tem mostrado que a saúde metabólica depende menos da demonização de um ingrediente isolado e mais do padrão alimentar como um todo.


Frutas, vegetais, proteínas adequadas, fibras, atividade física e sono de qualidade exercem impacto muito maior do que substituir açúcar refinado por versões consideradas mais naturais.


Em muitos casos, a troca produz uma sensação de virtude nutricional sem alterar significativamente a carga total de açúcar consumida.


A discussão que vale a pena


A história da cal no açúcar é um exemplo perfeito de como debates públicos frequentemente se concentram nos detalhes errados.


O açúcar refinado não é problemático porque utiliza cal em uma etapa industrial.


Ele se torna problemático quando consumido em excesso em um ambiente caracterizado por sedentarismo, disponibilidade contínua de alimentos ultraprocessados e gasto energético insuficiente.


A ciência dos alimentos raramente oferece respostas simples.


Mas, neste caso, ela oferece uma conclusão bastante clara:


A cal não é a notícia.


O metabolismo é.


___

Scroll down for English


A Shovelful of Lime on Sugar Consumption?


The fact that lime is used in the production of refined sugar often circulates online as a scandal. Science suggests the real story lies elsewhere.


The Wrong Controversy


Every few years, social media rediscovers a surprising fact: refined sugar is produced using lime.


The claim is true.


The conclusion often is not.


Lime has long been used during the clarification stage of sugar production, helping remove impurities from sugarcane juice before crystallization. It is a processing aid, not a meaningful ingredient of the final product.


Yet the fascination with this fact reveals something larger.


While many people focus on a detail of industrial manufacturing, they often overlook the biological effects of sugar itself.


The important question is not whether lime is involved in sugar production.


The important question is what sugar does inside the human body.



Life’s Most Fundamental Fuel


Glucose is one of biology’s most important molecules.


Virtually every cell in the human body relies on it for energy. The brain alone consumes roughly one-fifth of the body’s total energy expenditure despite accounting for only a small fraction of body mass.


Whether sugar comes from table sugar, bread, rice, potatoes, fruit, or pasta, digestion ultimately converts much of it into glucose.


That glucose enters the bloodstream and fuels the body’s organs, muscles, and nervous system.


Without glucose, life would not exist.


Problems arise when energy intake consistently exceeds energy demand.



Insulin: The Metabolic Gatekeeper


As blood glucose rises, the pancreas releases insulin.


Insulin acts as a biological key, allowing glucose to enter cells.


Some of that energy is used immediately.


Some is stored as glycogen in the liver and muscles.


Once those storage sites are full, excess energy is increasingly converted into fat.


For most of human history, this was an extraordinary survival mechanism.


Today, however, the environment has changed faster than human biology.


Food scarcity has largely been replaced by constant abundance.



When the System Begins to Break Down


Frequent exposure to large amounts of sugar and highly refined carbohydrates may contribute to insulin resistance.


In this state, cells become less responsive to insulin.


The pancreas compensates by producing even more of the hormone.


For years, blood tests may remain deceptively normal.


Beneath the surface, however, metabolic dysfunction is already developing.


Consequences may include:


* increased visceral fat accumulation;

* elevated triglycerides;

* reduced HDL cholesterol;

* chronic low-grade inflammation;

* fatty liver disease;

* increased cardiovascular risk.


Over time, this process can culminate in type 2 diabetes.



Is Sugar Addictive?


The scientific answer is nuanced.


Sugar activates reward pathways in the brain, particularly those involving dopamine.


These circuits play important roles in motivation, learning, and pleasure.


This does not mean sugar produces chemical dependence identical to nicotine or opioids.


However, it does help explain why highly processed foods rich in sugar are remarkably effective at driving repeated consumption.


The food industry has understood this biology for decades.



Are There Healthier Sugars?


That depends on what “healthy” means.


Chemically speaking, honey, coconut sugar, brown sugar, demerara sugar, and refined sugar remain concentrated sources of simple sugars.


The body does not treat them as fundamentally different substances.


What differs are trace nutrients, bioactive compounds, and rates of absorption.


Whole Fruit


The healthiest natural source of sweetness.


Fruit provides sugar alongside fiber, water, vitamins, minerals, and antioxidants.


Fiber slows absorption and moderates blood sugar spikes.


Honey


Contains antioxidants and small amounts of micronutrients.


Nevertheless, it remains a concentrated source of sugar.


Brown and Demerara Sugar


Retain some minerals naturally present in sugarcane.


The nutritional advantage exists but is relatively small.


Dates and Dried Fruits


Can sweeten foods while providing fiber and micronutrients.


They are still energy-dense and sugar-rich.



What Truly Matters


Modern nutrition science increasingly shows that metabolic health depends less on demonizing a single ingredient and more on overall dietary patterns.


Vegetables, fruits, fiber, adequate protein, regular physical activity, and quality sleep exert a far greater influence on long-term health than switching from refined sugar to a more natural alternative.


Many substitutions improve perception more than biology.



The Conversation Worth Having.


The controversy surrounding lime in sugar production illustrates how public debate often focuses on the wrong variables.


Refined sugar is not concerning because lime is used during processing.


It becomes concerning when it is consumed in excess within an environment characterized by sedentary lifestyles, ultra-processed foods, and insufficient energy expenditure.


Food science rarely offers simple answers.


In this case, however, its conclusion is straightforward:


Lime is not the story.


Metabolism is.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

1 de jun. de 2026

A história do mundo bate um bolão.
Leia Também
A história do mundo bate um bolão.
Por Valéria Monteiro.
Nunca melhor que o verão:
Refeições leves para o corpo e para o bolso.
bottom of page