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Chernobyl, quarenta anos depois:

A ferida que não fecha.

Chernobyl, quarenta anos depois:

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No dia 26 de abril de 1986, à 1h23 da madrugada, um teste de segurança mal executado no reator nº 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, no norte da então República Socialista Soviética da Ucrânia, provocou duas explosões sucessivas. A primeira, de vapor, rasgou o teto do reator. A segunda, possivelmente envolvendo hidrogênio, lançou toneladas de material radioativo na atmosfera. O núcleo, feito de grafite, ardeu por nove dias. A nuvem contaminante ignorou a Cortina de Ferro, atravessou a Escandinávia, atingiu fortemente a Bielorrússia e espalhou-se por três quartos da Europa. Foi o pior acidente nuclear da história, o primeiro a receber nível 7 — o máximo — na Escala Internacional de Eventos Nucleares, posteriormente igualado por Fukushima em 2011.


Quarenta anos depois, Chernobyl deveria ser apenas uma lição aprendida. Não é. Continua sendo, simultaneamente, um cemitério, um laboratório, um santuário ecológico involuntário e, desde 2022, um campo de batalha. É exatamente essa sobreposição de camadas que torna o aniversário de 2026 tão incômodo: a tragédia não pertence ao passado.


O acidente e a mentira que veio depois.


O que explodiu em Chernobyl não foi só um reator — foi uma certa ideia de infalibilidade técnica. O desastre resultou de uma combinação fatal de falhas de projeto no reator RBMK e de erros humanos graves durante um teste que, ironicamente, simulava uma situação de emergência. Sistemas automáticos de segurança foram desligados. A potência caiu, depois disparou sem controle. O reator se partiu.


Mas a catástrofe técnica foi amplificada por uma catástrofe política. O governo soviético demorou a evacuar Pripyat — a cidade de cinquenta mil pessoas construída para abrigar os trabalhadores da usina, a três quilômetros do reator. Quando os ônibus finalmente chegaram, 36 horas depois da explosão, já era tarde demais para muitos. Os moradores foram informados de que sairiam por poucos dias e receberam instruções para levar apenas documentos. Nunca voltaram.


O número de mortos nunca foi estabelecido com precisão, em parte por causa da opacidade soviética, em parte porque a radiação mata devagar. Os “liquidadores” — cerca de 600 mil soldados, bombeiros e operários — pagaram o preço mais alto. Muitos trabalharam com equipamento improvisado — sem plena noção da dose de radiação a que estavam expostos —, alguns com pás, em turnos de segundos sobre o telhado do reator, onde a radiação matava em minutos.


A natureza que voltou, os humanos que ficaram.


Há, em Chernobyl, um paradoxo biológico. A zona de exclusão de 30 quilômetros tornou-se uma das maiores áreas de recuperação de vida selvagem da Europa — ainda que em um ambiente contaminado. Lobos, linces, alces e ursos ocupam hoje o território abandonado. A floresta engoliu Pripyat.


Isso não significa que o lugar esteja seguro. Césio-137 e estrôncio-90 continuam presentes no solo. Elementos como plutônio e amerício permanecerão perigosos por séculos. Dentro do reator, a chamada “Pata de Elefante” segue entre os materiais mais radioativos já produzidos.


E há pessoas ali. Cerca de três mil trabalhadores operam na zona em regime de turnos. E há os samosely — moradores que voltaram clandestinamente às suas casas e nunca mais saíram.


A guerra que voltou ao reator.


Em fevereiro de 2022, tropas russas ocuparam a usina. Permaneceram por semanas, cavaram trincheiras em áreas altamente contaminadas e danificaram sistemas de monitoramento.


A estrutura de contenção moderna — um arco de aço de 36 mil toneladas, posicionado sobre o reator em 2016 e concluído em 2019 — havia sido projetada para durar cem anos.


Não resistiu intacta à guerra.


Em fevereiro de 2025, um drone atingiu o Novo Confinamento. A estrutura foi danificada. Avaliações posteriores indicaram perda de funções importantes de segurança. O custo de reparo disparou. Alertas internacionais passaram a mencionar risco de degradação estrutural e possível liberação de material radioativo.


Engenharia de longo prazo sob guerra ativa tornou-se uma contradição.


O que Chernobyl ensina que ainda não aprendemos


Há uma tentação de transformar Chernobyl em alegoria. Todas essas leituras dizem algo.


Mas a lição mais desconfortável é mais simples:


Catástrofes nucleares não terminam.


Elas se acumulam.


Exigem manutenção, dinheiro, instituições funcionais — e paz — por séculos.


O material radioativo no reator nº 4 continuará perigoso por mais tempo do que qualquer Estado moderno consegue garantir estabilidade. Pripyat será uma cidade fantasma por mais gerações do que a Ucrânia existe como país independente.


Chernobyl não pede memória.


Pede gestão.


E quando uma guerra atravessa a estrutura projetada para conter esse risco por cem anos, o que se rompe não é apenas o aço — é a ilusão de que o problema estava resolvido.



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Chernobyl was never meant to still be a live problem forty years later.


At 1:23 a.m. on April 26, 1986, a failed safety test at reactor No. 4 of the Chernobyl Nuclear Power Plant triggered two explosions. The first blew the reactor open. The second — likely involving hydrogen — released massive amounts of radioactive material into the atmosphere. The graphite core burned for days. The radioactive plume ignored borders, spread across much of Europe, and exposed a truth the Soviet system could not contain.


It became the worst nuclear disaster in history — the first to be classified at level 7, the highest on the International Nuclear Event Scale, later matched only by Fukushima.


Four decades later, Chernobyl should belong to history. It does not.


It remains, at once, a graveyard, a scientific site, an accidental wildlife refuge — and, since 2022, a theater of war. That overlap is what makes this anniversary unsettling: the disaster never really ended.


The accident — and the lie that followed


What failed at Chernobyl was not only a reactor. It was the illusion of technical infallibility.


A flawed reactor design combined with human error during a test that was supposed to simulate an emergency. Safety systems were disabled. Power dropped, then surged uncontrollably. The reactor ruptured.


The technical failure was followed by a political one. Authorities delayed evacuation. Residents of Pripyat left 36 hours later, told they would return in a few days. They never did.


The death toll was never fully established. Radiation does not always kill immediately. It lingers — in cancers, in long-term damage.


The “liquidators” — hundreds of thousands of workers — paid the highest price. Many operated with minimal protection, often without fully understanding the exposure they faced.


The wildlife that returned, the humans who stayed


There is a biological paradox at Chernobyl. The exclusion zone became one of Europe’s largest wildlife recovery areas — within a contaminated environment.


Wolves, lynx, and large mammals now inhabit the region. Nature returned — but not untouched.


The soil still carries radioactive elements. Some will remain dangerous for centuries. Inside the reactor, the mass known as the “Elephant’s Foot” remains one of the most radioactive objects ever created.


And people are still there. Workers rotate in and out. A few residents returned and never left.


War returns to the reactor


In 2022, Russian forces occupied the site. They dug trenches in contaminated ground and disrupted monitoring systems.


The modern containment structure — a massive steel arch designed to last a century — had been placed over the reactor in 2016 and completed in 2019.


It was built to contain a disaster.


It was not built for war.


In 2025, a drone strike damaged the structure. Subsequent assessments indicated loss of key safety functions. Repair costs surged. Warnings followed: structural degradation could lead to the release of radioactive material.


Long-term engineering depends on stability. War removes it.


What we still fail to understand


There is a tendency to turn Chernobyl into a metaphor. It works — to a point.


But the more uncomfortable truth is simpler:


Nuclear disasters do not end.


They accumulate.


They require maintenance, funding, functioning institutions — and peace — for centuries.


The radioactive material inside reactor No. 4 will remain dangerous longer than any modern state can guarantee stability. Pripyat will remain a ghost city for generations to come.


Chernobyl does not ask to be remembered.


It demands to be managed.


And when war cuts through a structure designed to contain that risk for a hundred years, what breaks is not just steel.


It is the illusion that the problem had been solved.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

26 de abr. de 2026

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