Cuba no escuro — e a nova linguagem do poder:
Não é a Faixa de Gaza. Mas a lógica começa a ecoar.

Cuba está no escuro.
E, pela primeira vez em décadas, alguém em Washington falou em “ter a honra de tomar” a ilha.
Não como metáfora.
Não como eco distante da Guerra Fria.
Mas como possibilidade.
Foi assim que Donald Trump descreveu Cuba — afirmando que os Estados Unidos poderiam ter a “honra de tomar Cuba” e que poderia fazer “o que quisesse” com ela.
Não é um plano.
Mas também não é mais apenas retórica.
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⚡ Um país no limite — e exposto
A crise energética cubana deixou de ser episódica.
Ela é estrutural.
• usinas envelhecidas
• falta de combustível
• anos de subinvestimento
• dependência externa crítica
Durante anos, o petróleo venezuelano sustentou o funcionamento mínimo da ilha.
Hoje, esse fluxo é instável — e insuficiente.
O resultado é um país que não colapsa totalmente,
mas também não funciona.
👉 Um território permanentemente no limite.
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🧭 Quando a linguagem muda, o jogo muda
Durante décadas, o enquadramento foi claro:
• conter
• pressionar
• isolar
Mas não ultrapassar.
Havia uma linha invisível.
Agora, ela começa a desaparecer.
Porque quando se fala em “tomar” um país — e mais ainda, em fazê-lo com “honra” — o deslocamento é duplo:
👉 da contenção para a possibilidade
👉 da necessidade para a legitimação
Um país deixa de ser apenas um problema.
E passa a ser apresentado como algo que pode ser, até mesmo, justificado.
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🧠 Energia como instrumento de poder
O que está em jogo não é apenas a crise interna.
É a transformação da vulnerabilidade em ferramenta.
Cuba, já sob embargo há décadas, agora enfrenta um estrangulamento mais direto:
👉 menos acesso a energia
👉 menos margem de manobra
👉 maior exposição externa
Não é preciso ocupar.
Basta controlar o fluxo.
Quem controla energia, controla o ritmo.
Quem controla o ritmo, controla a estabilidade.
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⚠️ Não é a Faixa de Gaza — mas algo ressoa
Cuba não é a Faixa de Gaza.
Não há guerra aberta.
Não há bombardeios.
A Faixa de Gaza está inserida em um conflito armado envolvendo Israel, com controle de fronteiras também pelo Egypt e governança da Hamas.
A equivalência seria simplista.
Mas a lógica começa a ecoar.
Quando fluxos essenciais são restringidos,
e a sobrevivência cotidiana passa a depender de decisões externas,
o território deixa de ser apenas soberano.
👉 e passa a ser gerido à distância
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🔥 O detalhe que muda tudo
Não é apenas a ideia de “tomar”.
É a ideia de fazê-lo com “honra”.
Porque “honra” não descreve uma necessidade.
Descreve uma narrativa.
Não se fala em honra para administrar um problema.
Fala-se em honra para justificar uma ação.
E é isso que transforma a frase em algo maior do que retórica.
Ela não apenas sugere poder.
Ela tenta legitimar seu uso.
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🧩 A pergunta que fica
A questão não é se os Estados Unidos vão agir.
É outra:
👉 o que já mudou para que essa linguagem possa ser dita — e não imediatamente rejeitada?
Porque frases assim não surgem no vazio.
Elas aparecem quando:
• limites estão sendo testados
• cenários estão sendo recalculados
• oportunidades começam a ser percebidas
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🕯️ Fechamento
Cuba está no escuro.
Mas talvez o mais revelador não seja a falta de energia.
É o momento em que esse escuro deixa de ser apenas uma crise —
e passa a ser descrito como oportunidade.
Porque é aí que países deixam de ser apenas frágeis…
e passam a ser tratados como algo que pode ser tomado —
com honra.
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🇺🇸Inglês:
Cuba in the dark — and a new language of power
Not Gaza. But the logic is starting to echo.
Cuba is in the dark.
And for the first time in decades, someone in Washington spoke of the “honor of taking” it.
Not metaphorically.
Not historically.
But as a possibility.
That is how Donald Trump framed the island — suggesting the United States might have the “honor of taking Cuba” and could do “whatever it wants” with it.
Not a policy.
But no longer just rhetoric.
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⚡ A country at the edge
Cuba’s energy crisis is structural.
• aging infrastructure
• fuel shortages
• external dependency
Venezuelan oil once sustained it.
Now it doesn’t.
The result:
👉 a country that does not collapse
👉 but no longer fully functions
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🧭 A shift in language — and meaning
For decades, Cuba was contained.
Now, the language shifts.
And with it, the meaning shifts.
Not just taking.
But taking with honor.
👉 from pressure
👉 to justification
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🧠 Power through flow
This is not only about internal failure.
It is about external leverage.
Control the flow.
Control the outcome.
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⚠️ Not Gaza — but something resonates
Cuba is not Gaza.
But when essential flows are restricted,
and survival depends on external decisions,
a territory shifts:
👉 from sovereign
👉 to managed
🔥 Final insight
The most revealing word is not “take”.
It is “honor”.
Because “honor” transforms action into narrative.
And narrative is what makes power acceptable.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
18 de mar. de 2026

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