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Entregamos a chave e fingimos espanto.

Por Valéria Monteiro.

Entregamos a chave e fingimos espanto.

Foto: Gerada por IA.

Os EUA chamaram o PCC e o Comando Vermelho de terroristas. Passei a semana ouvindo os dois lados gritarem — e nenhum deles falando do que importa.


Confesso o que sinto antes de dizer o que penso, porque em Em Voz Alta é assim que funciona. Quando vi Marco Rubio assinar o papel que declara o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas, não senti alívio nem indignação. Senti vergonha. A vergonha de um país que precisou de um secretário de Estado americano para dizer, em inglês, o nome do monstro que mora na nossa esquina.


A direita comemorou como se Trump tivesse feito o trabalho que o Brasil não fez. A esquerda gritou “ingerência” como se a palavra de Washington fosse mais letal que a bala perdida de Paraisópolis. Os dois me cansam — e cansam por motivos opostos que se equivalem na covardia.


Comemorar a etiqueta americana é confessar a própria impotência com sorriso no rosto. Flávio Bolsonaro voou a Washington, entregou um dossiê e voltou anunciando que resolveu a segurança pública brasileira numa sala de reunião a nove mil quilômetros do Complexo do Alemão. Não resolveu nada. Apenas conseguiu que outro país assinasse o atestado de óbito que nós nos recusamos a escrever.


E a esquerda, que tecnicamente tem razão, escolheu morrer abraçada à razão. Nossa lei distingue facção de terrorismo, e distingue bem — mas defender a letra da Lei 13.260 com mais ardor do que se defende a senhora que paga pedágio ao tráfico para chegar em casa é uma escolha moral, não jurídica. Estar certo no Diário Oficial e errado na rua é o talento mais antigo da minha trincheira política. Eu me recuso a aplaudi-lo.


Porque há, sim, um risco real, e ele não é invenção petista: a designação de organização terrorista é a mesma chave que Trump já girou para mandar míssil em barco no Caribe. Não é um adjetivo. É uma autorização. E uma autorização lavrada em Washington sobre solo brasileiro é uma arma que troca de mão conforme a conveniência de quem a empunha.



Mas reclamar disso agora é cinismo, e eu não vou ter essa cara de pau. Nós entregamos a chave. Passamos trinta anos deixando o Estado evaporar de territórios inteiros, terceirizando o controle a quem chegasse primeiro — facção, milícia e, agora, o vocabulário jurídico de um governo estrangeiro. Trump não invadiu coisa nenhuma. Ele sentou numa cadeira que estava vazia, com o nosso convite escrito no estofado.


Então não: não vou aplaudir nem me indignar. Vou fazer a única pergunta que sobra de pé — quando é que o Brasil vai entender que o direito de nomear os próprios monstros, e a coragem de enfrentá-los, também se chama soberania? Enquanto a resposta não vier, seguiremos importando até a palavra que define o nosso medo.


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Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

29 de mai. de 2026

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