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O Brasil não está normal.

O que falta ao país não é opinião. É nitidez.

O Brasil não está normal.

Este texto não nasce de um rito.
Nasce de um incômodo.

Nasce da recusa em aceitar como normal a exaustão, a mentira, a brutalidade e a degradação do debate público.

Antes de qualquer definição formal, existe um ponto de partida: o Brasil precisa voltar a encarar a realidade.

O Brasil não está normal.

Não é normal que a mentira circule com mais velocidade do que os fatos. Não é normal que a brutalidade tenha sido promovida a linguagem pública. Não é normal que o improviso seja vendido como autenticidade e que a gritaria tenha conseguido se passar por coragem.

Talvez o mais perigoso seja isto: a adaptação. O país foi se habituando ao ruído, à simplificação, à infantilização do debate. Foi se habituando a torcidas onde deveria haver cidadania, a choques sucessivos onde deveria haver direção, a slogans onde deveria existir pensamento de país.

A degradação raramente chega anunciada. Ela se instala aos poucos, até parecer ambiente.

Um país começa a se perder quando desaprende distinções básicas: fato e encenação, firmeza e brutalidade, liberdade e vale-tudo, liderança e oportunismo. O centro da crise brasileira talvez esteja aí: o Brasil foi sendo afastado da realidade.

E um país afastado da realidade não constrói futuro. Apenas administra sobressaltos.

O que falta ao Brasil não é opinião. Opinião há em excesso. O que falta é clareza. Clareza para nomear o que está diante dos olhos sem recorrer à caricatura. Clareza para tratar o cidadão como adulto. Clareza para não reduzir um país complexo ao tamanho de um slogan.

Clareza, neste momento, não é estilo. É coragem.

O Brasil precisa voltar a ser um país em que a inteligência não pareça fraqueza. Em que a moderação não seja confundida com omissão. Em que a firmeza não precise imitar a violência para ser compreendida. Em que responsabilidade não soe como falta de carisma.

Durante tempo demais, venderam ao brasileiro uma escolha pequena: o delírio barulhento ou a frieza sem alma. Essa escolha é falsa. O Brasil pode ser sério sem ser árido. Pode ser forte sem ser brutal. Pode ser sensível sem ser manipulável. Pode voltar a pensar grande sem se entregar a fantasias.

O Brasil não precisa de salvadores. Precisa de adultos.

Adultos capazes de sustentar conflito sem incendiar a casa. Capazes de enfrentar interesses sem transformar tudo em espetáculo. Capazes de compreender que governar não é performar força, mas produzir realidade.

Há milhões de brasileiros cansados não da democracia, mas da sua caricatura; não da divergência, mas da degradação; não da política, mas de sua versão mais cínica, mais preguiçosa, mais predatória.

É com esse Brasil que esta reflexão conversa.

Não para prometer ilusão. Não para oferecer atalhos. Mas para afirmar uma escolha simples e difícil: não participar da degradação do Brasil para conquistar espaço no Brasil.

O país real é melhor do que a caricatura que fizeram dele. O povo brasileiro é mais maduro do que a imagem infantilizada que tantas vezes lhe atribuem. E a vida pública pode ser maior do que essa sucessão exaustiva de ruído, cálculo curto e excitação vazia.

O colapso não é destino.

O Brasil pode voltar a ser projeto. Pode voltar a ser conversa séria. Pode voltar a ser ideia de futuro. Mas isso começa por um gesto menos retórico e mais raro: olhar para a realidade sem truques, sem anestesia, sem covardia.

Realidade.
Responsabilidade.
Clareza.

É com esse espírito que me coloco nesta conversa: para defender um projeto de Brasil à altura do que o país pode ser — e do que os brasileiros já demonstraram ser capazes de construir.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

31 de mar. de 2026

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