O Sacrifício Definitivo.
Com Lula em empate técnico no segundo turno, desistir seria fraqueza — ou estratégia histórica?

As pesquisas mais recentes apontam um dado que muda o tom da eleição de 2026:
Luiz Inácio Lula da Silva aparece em empate técnico no segundo turno não apenas contra Flávio Bolsonaro, herdeiro direto do bolsonarismo, mas também contra Ratinho Júnior, nome da centro-direita com perfil mais administrativo.
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Lula ainda lidera cenários de primeiro turno.
Mas já não carrega vantagem consolidada na reta final.
Isso altera o cálculo político.
Nos bastidores, Lula pede rearranjos em Minas Gerais, em São Paulo, em estados-chave. Sacrifícios locais. Ajustes de alianças. Palanques robustos para sustentar uma quarta candidatura presidencial.
Mas, diante desse novo cenário, a pergunta ganha peso:
E se o maior gesto estratégico não fosse insistir —
mas sair?
A centralidade que já não é incontestável
Durante anos, o lulismo operou sob uma lógica simples: Lula unifica o campo progressista, mobiliza base, polariza adversários e mantém competitividade nacional.
Agora, os números mostram algo diferente:
• A vantagem já não é folgada.
• A rejeição permanece elevada.
• A direita apresenta múltiplas alternativas competitivas.
Isso não significa derrota anunciada.
Significa risco real.
E risco muda estratégia.
Sacrifícios horizontais e o sacrifício vertical
Até aqui, Lula pede sacrifícios aos outros — lideranças estaduais, partidos aliados, projetos regionais.
Mas há um tipo de sacrifício que muda a estrutura do jogo:
Anunciar que não disputará 2026.
E, em vez de convocar Fernando Haddad a mais um papel ingrato, indicá-lo como sucessor planejado.
Haddad já foi o candidato improvisado de 2018.
Hoje, é o ministro encarregado da engenharia fiscal do governo.
Uma candidatura estruturada desde já não seria repetição do passado.
Seria transição deliberada.
Lulismo versus bolsonarismo: uma assimetria
O bolsonarismo demonstrou capacidade de sobreviver fora do Planalto. Governadores, parlamentares e lideranças regionais mantêm identidade própria mesmo com Jair Bolsonaro fora do poder.
O lulismo, ao contrário, ainda é profundamente identificado com Lula como figura central.
Enquanto ele é candidato possível, a sucessão não se resolve.
Os empates técnicos tornam essa indefinição mais sensível.
Se Lula vencer novamente, consolida sua centralidade.
Se perder, o impacto é estrutural.
Se desistir e organizar a sucessão, redefine o jogo.
Permanência ou legado?
Há dois tipos de força política:
• A força da permanência.
• A força da transição.
Permanecer é controle.
Transitar é risco.
Mas líderes que controlam sua saída moldam sua memória histórica.
Diante de um cenário eleitoral competitivo, insistir pode ser racional.
Mas sair pode ser estratégico.
O teste final.
Talvez o maior gesto não seja pedir mais sacrifícios estaduais.
Talvez seja assumir o único sacrifício que altera o sistema:
abrir mão da candidatura.
Se Lula indicasse Haddad em vez de convocá-lo a novo papel de substituição emergencial, poderia sair da Presidência não apenas com vitórias acumuladas — mas com sucessão organizada.
E, na política, há algo que as urnas nem sempre revelam:
Permanecer é poder.
Mas saber sair é legado.
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Inglês:
The Ultimate Sacrifice
With Lula tied in runoff polls, would stepping aside be weakness — or strategic statesmanship?
Luiz Inácio Lula da Silva still leads first-round scenarios for Brazil’s 2026 presidential race.
But recent polling introduces a significant shift:
He appears in statistical ties in potential runoffs not only against Flávio Bolsonaro, heir to the Bolsonaro political brand, but also against Ratinho Júnior, a center-right governor with a managerial profile.
This is not a collapse.
It is competitiveness.
And competitiveness changes strategy.
A centrality no longer unquestioned
For years, Lula’s dominance simplified Brazil’s progressive field. His presence unified allies and structured polarization.
Now, the numbers suggest:
• No comfortable runoff advantage.
• Persistent rejection rates.
• Multiple viable right-wing or center-right alternatives.
The aura of inevitability weakens.
Horizontal sacrifices — and the vertical one
Lula has been demanding coalition adjustments in key states. Tactical concessions. Local sacrifices.
But there is one sacrifice that would alter the structure of the election:
Announcing he will not run in 2026.
And instead of placing Fernando Haddad in another emergency candidacy, formally endorsing him as prepared successor.
Haddad replaced Lula under extreme polarization in 2018.
A planned candidacy would be something entirely different.
Not improvisation.
Transition.
A structural asymmetry
Bolsonarism has demonstrated partial survival without executive power. Regional leaders and ideological networks remain active even with Jair Bolsonaro out of office.
Lulismo, however, remains tightly identified with Lula himself.
As long as he is electorally viable, succession is postponed.
Runoff ties make that postponement riskier.
If Lula runs and wins, he consolidates authority.
If he runs and loses, the impact is structural.
If he steps aside and organizes succession, he redefines legacy.
Power or legacy?
There are two forms of political strength:
• The strength of remaining indispensable.
• The strength of building something that survives you.
Staying is control.
Leaving strategically is legacy.
With polls showing real competition, the question is no longer abstract.
It is historical.
Sometimes, the ultimate sacrifice is not defeat.
It is choosing not to fight again.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
4 de mar. de 2026

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