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Os 5% de Trump e os jornalistas que ele esqueceu de contar.

Por Valéria Monteiro.

Os 5% de Trump e os jornalistas que ele esqueceu de contar.

Foto: Instagram Casa Branca.

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Donald Trump foi retirado do jantar dos correspondentes da Casa Branca neste sábado depois que disparos foram ouvidos no Washington Hilton. Um homem armado avançou contra um posto de segurança do lado de fora do salão de baile e foi contido antes de se aproximar da área principal do evento. Um agente foi atingido no colete. Ninguém ficou ferido.


Pouco depois, já em segurança, Trump fez um pronunciamento. E foi ali, diante de jornalistas, que apresentou seu cálculo sobre profissões de risco. Citou pilotos de Fórmula 1, mencionou toureiros e concluiu: ser presidente dos Estados Unidos seria, na sua avaliação, o trabalho mais perigoso que conhece. Quatro presidentes americanos foram assassinados. Algo como 5%, sugeriu. Não consegue imaginar profissão mais arriscada.


A frase foi proferida diante de uma sala cheia de repórteres.


Há uma ironia tão fina que quase passa despercebida. Trump olhou para um salão ocupado majoritariamente por jornalistas — profissionais que, no último ano, perderam mais de uma centena de colegas, em bombardeios em Gaza, sob ameaça constante no México e em prisões arbitrárias em regimes autoritários — e lhes informou, com a gravidade de quem traz uma revelação, que o trabalho dele é o mais perigoso que existe.


Quatro presidentes americanos foram assassinados em mais de dois séculos. É um número trágico. Mas a comparação que Trump propõe não é histórica — é seletiva. Ele escolhe, para se medir, profissões de espetáculo. Pilotos. Toureiros. Atividades que acontecem diante de plateia, com o risco como parte do roteiro. É uma estatística de arena, não de ofício.


Ficaram de fora os profissionais que estavam ali ouvindo.


Mas tudo bem. Trump não consegue imaginar profissão mais arriscada.


Disse isso minutos depois de jornalistas terem se jogado no chão de um salão de hotel.

Os mesmos jornalistas que, segundo sua aritmética, estariam ali seguros.


Relatos do local ajudam a dimensionar o contraste. Wolf Blitzer afirmou ao vivo que estava a poucos passos do atirador no momento dos disparos. Um repórter, não um agente de segurança. A proximidade do risco, naquele instante, não seguiu hierarquias institucionais.


Há, no entanto, um ponto em que ele talvez tenha razão — por um motivo diferente do que sugere. A presidência americana é, sim, perigosa. Mas o risco contemporâneo não se explica apenas por precedentes históricos. Ele também se insere num ambiente político que se deteriorou ao longo dos últimos anos — e no qual a relação entre poder e imprensa se tornou um dos eixos mais tensos.


Trump não foi o primeiro presidente a confrontar jornalistas. Mas elevou esse confronto a um método recorrente de comunicação. Chamou a imprensa de “inimiga do povo”, acusou veículos de fabricar fatos e transformou a deslegitimação do jornalismo em linguagem política central. Esse repertório não opera no vazio. Ele molda o ambiente em que o jornalismo circula e altera, aos olhos de parte do público, quem merece ser ouvido e quem pode ser descartado.


O jantar dos correspondentes existe justamente para celebrar o princípio oposto. Ele se ancora na Primeira Emenda da Constituição dos EUA — a ideia de que imprensa livre e poder político coexistem em tensão permanente, mas necessária. É um ritual raro: crítica e poder no mesmo espaço, sob regras compartilhadas.


Foi nesse espaço que os tiros foram ouvidos.


Quando o discurso público trata a imprensa como adversária estrutural, o risco deixa de ser apenas individual e se torna ambiental. Não é uma relação automática. Mas tampouco é irrelevante. Palavras moldam o clima em que ações passam a ser possíveis.


Trump, que ajudou a definir esse clima, agora se apresenta como alguém exposto a ele.


Empatia não é um recurso escasso. Pode — e deve — ser oferecida a qualquer pessoa sob ameaça, inclusive a ele. O que não se oferece é esquecimento.


Os jornalistas que estavam naquele Hilton, muitos dos mesmos que ele já atacou publicamente, fizeram o que fazem sempre: abaixaram a cabeça, registraram, transmitiram, escreveram. Foi essa profissão que documentou o episódio. Foi ela que organizou a informação. Foi ela que contou ao mundo o que aconteceu.


Inclusive a parte em que o presidente, protegido por um dos sistemas de segurança mais sofisticados do planeta, reapareceu minutos depois para explicar à imprensa que a imprensa não compreende o que é risco.


Há 5%, segundo Trump, de chance de um presidente americano morrer no cargo.

Para jornalistas, não há uma estatística única que resuma o risco, ele varia por país, conflito e regime. Mas há um dado mais simples, e mais difícil de ignorar: ele se repete, ano após ano, em nomes.


E esses nomes não aparecem em discursos presidenciais.


Talvez por isso o desconforto com Trump não se limite aos Estados Unidos. Ele se espalha por democracias que observam, com atenção, o modo como a relação entre poder e verdade vem sendo tensionada. Não se trata apenas de uma figura política, mas de um estilo de liderança que se desloca entre crítica e ataque, discordância e deslegitimação.


O episódio deste sábado não resolve esse debate. Mas o ilumina.


Porque, no momento em que o risco se materializou, todos no salão reagiram da mesma forma.

A diferença veio depois.


Ele fala em porcentagens.

Eles trabalham com nomes.



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Trump’s 5% — and the people he forgot to count.


Opinion


Donald Trump was escorted out of the White House Correspondents’ Dinner on Saturday after shots were heard at the Washington Hilton. An armed man advanced toward a security checkpoint outside the ballroom and was stopped before reaching the main event area. One agent was struck in the vest. No one else was injured.


Minutes later, back under protection, Trump addressed the press. And it was there, in front of a room filled with journalists, that he offered his calculus of professional risk. He mentioned Formula 1 drivers, referenced bullfighters, and concluded that being President of the United States is, in his view, the most dangerous job there is. Four American presidents have been assassinated, he noted — roughly 5%. He said he couldn’t think of any profession more dangerous.


The remark was delivered to a room full of reporters.


There is a kind of irony so subtle it almost slips by. Trump looked out at an audience composed largely of journalists — professionals who, in the past year alone, have lost well over a hundred colleagues in Gaza, under constant threat in Mexico, and in prisons across authoritarian regimes — and informed them, with the gravity of someone revealing a hard truth, that his job carries the greatest risk.


Four U.S. presidents have been assassinated in over two centuries. It is a tragic number. But the comparison Trump draws is not historical — it is selective. He measures himself against professions of spectacle. Drivers. Bullfighters. Occupations performed before an audience, where danger is part of the script. It is a statistic of the arena, not of the profession.


The people in the room were not part of that calculation.


But fine. Trump cannot imagine a more dangerous job.


He said this minutes after journalists had dropped to the floor of a hotel ballroom.

The same journalists who, by his arithmetic, were presumably safe.


Accounts from inside the room sharpen the contrast. Wolf Blitzer reported live that he was just steps away from the gunman when the shots were fired. A reporter — not a security agent. In that moment, proximity to danger did not follow institutional hierarchy.


There is, however, one sense in which Trump may be right — though not for the reason he suggests. The American presidency is dangerous. But the most relevant risk today is not only historical. It exists within a political climate that has deteriorated in recent years — one in which the relationship between power and the press has become increasingly strained.


Trump did not invent conflict with the media. But he turned it into a central political language. He has called the press “the enemy of the people,” accused outlets of fabricating reality, and made the delegitimization of journalism a recurring feature of his public communication. That rhetoric does not operate in a vacuum. It reshapes the environment in which journalism exists — and influences how the public decides who deserves to be trusted.


The correspondents’ dinner exists to celebrate the opposite principle. It rests on the First Amendment — the idea that a free press and political power must coexist in constant, necessary tension. It is a rare ritual: criticism and authority sharing the same room under shared rules.


That was the room where the shots were heard.


When public discourse casts journalism as a structural adversary, risk becomes environmental. It is not a simple cause-and-effect relationship. But neither is it irrelevant. Language shapes the climate in which actions become possible.


Trump, who helped shape that climate, now finds himself exposed to it.


Empathy is not a scarce resource. It can — and should — be extended to anyone under threat, including him. What should not be extended is amnesia.


The journalists in that ballroom — many of the same people he has publicly attacked — did what they always do: they documented, transmitted, and wrote. Their profession recorded the event. Their profession made sense of it. Their profession told the world what happened.


Including the part where the president, protected by one of the most sophisticated security systems in the world, reappeared minutes later to explain to the press that the press does not understand risk.


There may be a 5% chance, as Trump suggests, that a U.S. president will be killed in office.

There is no single statistic that captures the risk journalists face. It varies by country, by conflict, by regime. But there is a simpler metric — one that repeats itself year after year: names.


And those names rarely appear in presidential speeches.


Perhaps that is why discomfort with Trump extends beyond the United States. It resonates across democracies that are watching closely how the relationship between power and truth is being tested. This is not just about a political figure, but about a governing style that shifts boundaries — between criticism and attack, between disagreement and delegitimization.


Saturday’s events do not resolve that tension. But they illuminate it.


Because when the risk became real, everyone in the room reacted the same way.

What happened after is what matters.


He speaks in percentages.

They work with names.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

27 de abr. de 2026

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