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Poder Protegido, Dano Exposto.

Por Valéria Monteiro.

Poder Protegido, Dano Exposto.

Foto: Reprodução/Redes sociais/ND.

A nova leva de documentos do caso Epstein não é apenas um repositório de escândalos. Ela funciona como um espelho incômodo de como o poder ainda opera — e de como sabe se proteger.

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Nos arquivos, repete-se um padrão conhecido. Figuras poderosas aparecem diluídas por cautela jurídica, eufemismos ou silêncio, enquanto as vítimas são expostas em detalhes perturbadores. Idades, fragilidades, deslocamentos e histórias íntimas surgem com nitidez. Essa assimetria não é acidental. É estrutural.

Nesse contexto, a decisão do primeiro-ministro Keir Starmer de nomear Peter Mandelson para um posto diplomático de alto nível — apesar de sua conhecida associação com Jeffrey Epstein — ultrapassa o campo do erro individual. Documentos recentemente divulgados relatam comunicações que podem indicar o compartilhamento de informações sensíveis ou não públicas. Se confirmadas, tais trocas levantariam graves questões éticas, sobretudo diante do alcance financeiro de Epstein e de seu histórico de abusos.

Não há acusações criminais formalizadas. Isso importa. Mas não esgota a noção de responsabilidade.

No Reino Unido, a cultura política tradicionalmente distingue o que é legal do que é prudente. Espera-se que líderes não apenas cumpram a lei, mas demonstrem discernimento moral — especialmente ao nomear pessoas para posições de enorme influência. Ao pedir desculpas diretamente às vítimas de Epstein por seu erro de julgamento, Starmer reconheceu algo cada vez mais raro na política contemporânea: a proximidade com o poder abusivo não é moralmente neutra.

Esse gesto contrasta fortemente com o discurso predominante nos Estados Unidos, onde o debate público frequentemente se encerra na frase “não há provas de irregularidade”, mesmo diante de vasta documentação sobre vínculos, facilitação ou omissão. Ali, a responsabilização costuma ser adiada até a existência de uma denúncia formal — um patamar que riqueza, tempo e aparato jurídico conseguem postergar indefinidamente.

O que torna os arquivos de Epstein especialmente corrosivos não é apenas o que eles sugerem, mas a forma como distribuem o risco. As vítimas permanecem expostas — social, emocional e reputacionalmente — enquanto supostos perpetradores se beneficiam do anonimato, da cautela institucional e da inércia do sistema. A exposição torna-se uma segunda punição. A proteção segue para cima.

O pedido de desculpas de Starmer não corrige essa distorção. Não repara o dano nem garante escolhas melhores no futuro. Isoladamente, é insuficiente.

Ainda assim, pode representar algo raro e relevante: o reconhecimento de que o julgamento moral ainda deve ter lugar na vida pública, mesmo quando a lei não se pronunciou. Se esse reconhecimento se repetir — e implicar custo político real — talvez seja possível reequilibrar uma cultura que se tornou excessivamente protetora do poder e negligente com aqueles que ele fere.

A esperança, aqui, é necessariamente provisória. Mas num tempo em que a responsabilidade pública é cada vez mais definida pelo que não pode ser provado, até uma admissão parcial de falha ética pode sinalizar o início de um padrão mais elevado — no qual pessoas poderosas, em posições poderosas, deixem de estar blindadas contra as consequências de suas escolhas.

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Inglês:
Power Protected, Harm Exposed.

The latest release of the Epstein files is not merely an archive of scandal. It is a mirror held up to how power still functions — and how carefully it protects itself.

Across the documents, a familiar imbalance appears. Powerful figures are obscured by legal caution, euphemism, or silence, while victims are rendered with unsettling clarity. Their ages, vulnerabilities, movements, and private histories are laid bare. The asymmetry is not accidental. It is structural.

Within this context, Prime Minister Keir Starmer’s decision to appoint Peter Mandelson to a senior diplomatic post — despite his known association with Jeffrey Epstein — raises questions that go far beyond individual judgment. Newly released materials reportedly include communications that may suggest the sharing of non-public or sensitive information. If substantiated, such exchanges would raise serious ethical concerns, particularly given Epstein’s financial reach and record of abuse.

No criminal charges have been filed. That matters. But legality alone does not exhaust responsibility.

In the United Kingdom, political culture has long recognised a distinction between what is lawful and what is wise. Leaders are expected not only to avoid criminality, but to exercise moral discernment — especially when appointing individuals to positions of extraordinary influence. By apologising directly to Epstein’s victims for his lapse in judgment, Starmer acknowledged something increasingly rare in contemporary politics: that proximity to abusive power is not morally neutral.

This contrasts sharply with the prevailing narrative in the United States, where public scrutiny often ends with the refrain “no evidence of wrongdoing,” even amid extensive documentation of association and facilitation. There, accountability is routinely postponed until indictment — a threshold wealth, time, and legal firepower can indefinitely delay.

What makes the Epstein files uniquely corrosive is not only what they allege, but how they allocate risk. Victims remain exposed — socially, emotionally, reputationally — while alleged perpetrators benefit from anonymity, procedural caution, and institutional inertia. Exposure itself becomes a second punishment. Protection flows upward.

Starmer’s apology does not resolve this imbalance. It does not undo harm, nor does it guarantee better decisions ahead. On its own, it is insufficient.

Yet it may signal something fragile but important: an acknowledgment that moral judgment still belongs in public life, even when the law has not spoken. If such recognition becomes consistent — if it carries real political cost — it could begin to recalibrate a culture that has grown reflexively protective of power and careless with those it harms.

Hope, here, must remain provisional. But in an era where accountability is increasingly defined by what cannot be proven, even a partial admission of ethical failure may mark the first step toward a higher standard — one in which powerful people in powerful places are no longer insulated from the consequences of their choices.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

6 de fev. de 2026

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