top of page

Trabalhar não pode significar sumir.

Por Valéria Monteiro.

Trabalhar não pode significar sumir.

Créditos: Lula Marques/Agência Brasil.

O debate sobre o 6x1 expôs uma exaustão real. Mas o problema do trabalho no Brasil já ultrapassou a escala e passou a atingir tempo, renda, subjetividade e futuro.


Scroll Down for English


O debate sobre o 6x1 tocou num nervo real do Brasil porque nomeou uma exaustão que já vinha se espalhando havia tempo — a de quem trabalha demais, descansa de menos e vai perdendo, aos poucos, a parte da vida que não deveria ser devorada pelo expediente.


É um debate importante — e, com a comissão especial instalada na Câmara e a votação prevista para as próximas semanas, tornou-se urgente.


Mas talvez já não seja suficiente.


Porque o problema do trabalho no Brasil deixou de caber dentro da escala. Espalhou-se pela renda curta, pela informalidade persistente, pelo tempo confiscado, pelo deslocamento que prolonga o cansaço, pela tecnologia que avança sem transição organizada — e pela sensação difusa de que, para milhões de pessoas, viver virou atividade secundária diante do esforço de continuar funcionando.


Talvez seja essa uma das marcas mais profundas do nosso tempo: trabalhar deixou de ser uma parte da vida e passou a disputar a vida inteira.


Há um tipo de desaparecimento que não faz barulho. Não acontece de uma vez — vai se instalando. Primeiro no cansaço permanente. Depois na dificuldade de dormir sem pensar no dia seguinte. Na irritação que passa a parecer traço de personalidade. No abandono silencioso do convívio, da leitura, do ócio — daquilo que não produz renda, mas produz pessoa.


A rotina engole. E, quando engole por tempo demais, a sociedade começa a tratar como normal uma deformação grave: a ideia de que existir exausto é o preço natural de ser economicamente útil.


Não é.


Uma sociedade pode precisar de trabalho intenso. O que ela não deveria aceitar é um modelo que esvazia progressivamente a experiência humana de quem trabalha.


Por isso, reduzir essa discussão a uma disputa estreita sobre escala já ficou pequeno. O debate precisa incluir jornada, claro — mas também renda, qualificação contínua, adaptação tecnológica, proteção social, mobilidade urbana, previsibilidade mínima e o direito de não ter a subjetividade inteira sequestrada pela sobrevivência.


O trabalho mudou. O mercado mudou. A tecnologia está mudando de novo. E o Brasil continua se comportando, muitas vezes, como se bastasse administrar a fadiga com remendos.


Não basta.


O país precisa começar a discutir o trabalho não apenas como emprego, mas como arquitetura de vida. Como distribuição de tempo. Como acesso a futuro. Como medida de dignidade.


Há uma diferença decisiva entre trabalhar para viver e viver para continuar trabalhando. O que inquieta no Brasil de hoje é perceber quantas pessoas já não conseguem distinguir uma coisa da outra.


Quando isso acontece em escala, o problema deixa de ser econômico. Torna-se moral, político, civilizatório.


Um país que não protege tempo, descanso, horizonte e capacidade de reconstrução interior de quem trabalha produz muito mais do que cansaço. Produz estreitamento humano. Forma uma sociedade mais irritada, mais pobre de imaginação, mais vulnerável à brutalização — e menos capaz de sustentar laços, pensamento e vida pública com alguma generosidade.


Exaustão em massa não é detalhe do sistema. É sintoma do sistema.


Talvez o 6x1 tenha mobilizado o país exatamente por isso: porque, por um instante, o fez encostar numa pergunta maior.


Que tipo de trabalho estamos aceitando? E que tipo de vida ele está deixando de permitir?


Essa é a conversa que precisa continuar — dentro e fora do Congresso.


Porque trabalhar não pode significar sumir.



Scroll Down for English


To Work Should Not Mean to Vanish.


The debate over Brazil’s six-on, one-off workweek exposed a real exhaustion. But the problem of work in Brazil has already outgrown the schedule and begun to affect time, income, subjectivity, and future itself.


The debate over Brazil’s six-on, one-off workweek struck a real nerve because it named an exhaustion that had been spreading for some time — the exhaustion of those who work too much, rest too little, and slowly lose the part of life that the job was never meant to consume.


It is an important debate — and, with a special committee now installed in the Chamber and a vote expected in the coming weeks, it has become urgent.


But it may no longer be enough.


Because the problem of work in Brazil no longer fits inside the schedule. It has spread into low wages, persistent informality, confiscated time, commutes that extend fatigue, technology advancing without any organized transition — and the diffuse sense that, for millions, living has become a secondary activity behind the effort of staying functional.


This may be one of the deepest marks of our time: work has stopped being one part of life and begun to compete with the whole of it.


There is a kind of disappearance that makes no noise. It does not happen all at once — it settles in. First as a permanent tiredness. Then as the difficulty of falling asleep without thinking about tomorrow. As the irritation that begins to pass for personality. As the silent abandonment of company, of reading, of idleness — of everything that produces no income but produces a person.


The routine swallows. And when it swallows for too long, a society starts to treat a serious deformation as ordinary: the idea that existing in a state of exhaustion is the natural price of being economically useful.


It is not.


A society may need intense work. What it should not accept is a model that progressively empties the human experience of those who work.


That is why narrowing this conversation to a dispute over the schedule already feels too small. The debate has to include hours, of course — but also wages, ongoing training, technological adaptation, social protection, urban mobility, a minimum of predictability, and the right not to have one’s entire inner life seized by survival.


Work has changed. The market has changed. Technology is changing again. And Brazil keeps behaving, much of the time, as though fatigue could be managed with patchwork.


It cannot.


The country has to begin discussing work not only as employment, but as the architecture of a life. As the distribution of time. As access to a future. As a measure of dignity.


There is a decisive difference between working in order to live and living in order to keep working. What unsettles about Brazil today is seeing how many people can no longer tell the two apart.


When this happens at scale, the problem stops being economic. It becomes moral, political, civilizational.


A country that fails to protect the time, the rest, the horizon, and the capacity for inner recovery of those who work produces far more than tiredness. It produces a narrowing of the human. It shapes a society that is more irritable, poorer in imagination, more vulnerable to brutalization — and less able to hold together bonds, thought, and public life with any generosity.


Mass exhaustion is not a detail of the system. It is a symptom of the system.


Perhaps the six-on, one-off debate mobilized the country for precisely this reason: because, for a moment, it pressed Brazil up against a larger question.


What kind of work are we accepting? And what kind of life is it ceasing to allow?


That is the conversation that has to continue — inside Congress and beyond it.


Because to work should not mean to vanish.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

1 de mai. de 2026

Leia Também

O Secretário de Guerra e os Fariseus.

Como Pete Hegseth transformou o púlpito do Pentágono em teologia de combate contra a imprensa.

A arquitetura invisível do início da vida.

O que a ciência revela — e a cultura ainda resiste em reconhecer.

Comentários
Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicionar avaliação
Compartilhe sua opiniãoSeja o primeiro a escrever um comentário.
bottom of page