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Borgen:

Borgen:

Política, território e o custo silencioso do poder.

Há séries que funcionam como passatempo. Outras operam como lentes. Borgen pertence à segunda categoria.

Num momento em que a Groenlândia volta ao centro do debate geopolítico — impulsionada por novas declarações de Donald Trump e por uma tensão crescente entre Estados Unidos e Europa — a série dinamarquesa reaparece com uma atualidade quase desconcertante. Não porque antecipe manchetes, mas porque entende a lógica profunda do poder quando territórios, recursos e soberania entram em disputa.

Ambientada nos bastidores da política de um pequeno país, Borgen desmonta a ilusão de que apenas grandes potências importam. Mostra como nações aparentemente periféricas se tornam estratégicas e como decisões tomadas longe dos holofotes repercutem no cotidiano, na democracia e na própria ideia de Estado. Energia, diplomacia, alianças instáveis e comunicação política aparecem como forças concretas, cheias de ambiguidade e consequência.

O mérito da série está na recusa do maniqueísmo. Não há personagens idealizados nem antagonistas simplificados. O poder surge como um campo de fricção constante entre ética e pragmatismo, convicção e sobrevivência institucional. Governa-se sob pressão — externa e interna — e quase sempre pagando um preço pessoal.

Há também uma reflexão fina sobre a imprensa e a narrativa pública. Em Borgen, a mídia não orbita o poder: ela o integra. Sustenta, tensiona, expõe. O jogo político é, ao mesmo tempo, um jogo de versões.

Talvez por isso a série tenha envelhecido tão bem. Em vez de datada, parece cada vez mais alinhada a um mundo em que a disputa por territórios estratégicos voltou a ser explícita, e em que democracias precisam negociar seus próprios limites para continuar existindo.

Assistir a Borgen hoje é menos um gesto de escapismo e mais um exercício de leitura do presente.
Uma maratona que não se dissipa com os créditos finais.


🎬 Ficha Técnica

Título original: Borgen
Criação: Adam Price
País: Dinamarca
Gênero: Drama político
Elenco principal: Sidse Babett Knudsen, Birgitte Hjort Sørensen, Pilou Asbæk, Søren Malling
Temporadas:
– 3 temporadas originais (2010–2013)
– Continuação: Borgen – O Reino, o Poder e a Glória (2022)
Duração média: cerca de 55 minutos por episódio
Idioma original: dinamarquês (com legendas)


📺 Onde assistir

No Brasil, todas as temporadas de Borgen, incluindo O Reino, o Poder e a Glória, estão disponíveis na Netflix.



Inglês:

Borgen:

Power, territory and the quiet price of governing.

Some series are meant to entertain. Others help us make sense of the world. Borgen clearly belongs to the latter.

As Greenland returns to the geopolitical spotlight — driven by renewed remarks from Donald Trump and rising tension between the United States and Europe — this Danish series feels uncannily timely. Not because it mirrors current events, but because it captures how power behaves when land, resources and sovereignty are at stake.

Set within the political machinery of a small nation, Borgen dismantles the idea that only superpowers shape history. It reveals how so-called peripheral countries become strategically central, and how decisions made away from public view ripple through democracy, daily life and the very meaning of statehood. Energy policy, diplomacy, fragile coalitions and political messaging are treated as lived forces, not abstractions.

What sets Borgen apart is its resistance to moral shortcuts. There are no spotless heroes or neatly defined villains. Power is shown as a permanent negotiation between ethics and pragmatism, personal belief and institutional endurance. Leadership, here, is exercised under relentless pressure — and rarely without personal cost.

The series also offers a sharp meditation on media and narrative. In Borgen, journalism does not merely observe power; it participates in it. Governments rise and fall not only through decisions, but through the stories told about them.

This may explain why Borgen has aged so well. Rather than feeling anchored to a specific moment, it feels increasingly attuned to a world where strategic territories are openly contested again, and democracies are forced to renegotiate their boundaries in real time.

Watching Borgen today is less about escapism and more about orientation.
A binge that lingers long after the final credits roll.


🎬 Technical Details

Original title: Borgen
Creator: Adam Price
Country: Denmark
Genre: Political drama
Main cast: Sidse Babett Knudsen, Birgitte Hjort Sørensen, Pilou Asbæk, Søren Malling
Seasons:
– 3 original seasons (2010–2013)
– Sequel: Borgen – Power & Glory (2022)
Average runtime: approx. 55 minutes per episode
Original language: Danish (subtitles available)


📺 Where to watch

All seasons of Borgen, including Power & Glory, are available for streaming on Netflix.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
28 de jan. de 2026

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