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A Ceia e a Diarreia:
Reflexões espírito-escatológicas.

Por José Antonio Pinotti é Psicólogo, Homeopata e Engenheiro de Computadores.

30 de dez. de 2025

“O alimento é merda em estado latente.”
— Anthony Bourdain



Final da manhã de sexta-feira, 26 de dezembro, meditando na privada. Depois de tantas vidas passadas na Índia, é sempre maravilhoso ter uma privada privativa à disposição. Cansaço e diarreia são os saldos das festas religiosas mais importantes do Brasil. Mas poderia ser pior: após um ano de cuidados e disciplina corporal, a recuperação física chega logo, sem sequelas.

O silêncio inspirador traz reflexões sobre a realidade. Que bom ver a casa vazia e em paz, a volta para uma rotina relaxada ao lado dos cachorros. Até a obrigação de alimentá-los e levá-los para passear na praia duas vezes por dia parece leve.

Olhando para trás, surge a pergunta: os últimos três dias valeram a pena?
Para que conviver com pessoas sem afinidade, em respeito a tradições do passado? Para que aumentar o consumo de alimentos e bebidas — em especial dos menos usuais — e chamar isso de comemoração?

Será que comemorar é uma tentativa de inverter estados de escassez e carência? E quem disse que quilos de pistaches, cerejas, doces, chocolates belgas, bacalhau e champagne são símbolos de abundância?

Historicamente, a privação vem sempre seguida por momentos de extrapolação, como um ritual para que ela não se repita no futuro. Para que romantizar tanto um ato natural de recarga de energia? Talvez pelo medo de que ela não esteja sempre disponível.

E você, já ligou para a Enel hoje para agradecer pela eletricidade? Já acendeu uma vela em frente ao posto de gasolina, em homenagem aos dinossauros que contribuíram para sua formação?

E para que compartilhar essa pretensa abundância com pessoas que você não faz questão de encontrar mais de uma vez por ano, e que chegam apenas para desfrutar todo o trabalho de obtenção e preparo desses itens, sem agregar nada?

Sim, é bom ser afortunado e ter o que compartilhar — ainda mais itens que aprecio e desfruto semanalmente. O curioso é ver produtos gourmet, carregados de valor simbólico e cultural, escolhidos a dedo e preparados com esmero, servindo como base de empanturramento para quem não tem relação alguma com isso. Que a vida traga sempre mais — o problema não é a fartura.

O irônico é encontrar, um ano depois, as mesmas pessoas vivendo os mesmos hábitos, apenas um ano mais velhas, todas parecidas entre si e com as que já se foram. Envelhecer não melhora ninguém: apenas exacerba características assumidas como identidade.

Identidades acompanhadas por deformidades. Fisioterapeutas chamam isso de compensações: a dor no joelho que faz mancar, forçando a coluna, tensionando os ombros, até formar a corcunda. Um seriado filmado em Notre-Dame, com um clã de Quasímodos saindo de uma linha de produção.

O livro que era novidade vira série interminável. A história nunca foi tão interessante — apenas repetida. Falta criatividade aos roteiristas, e sobram personagens iguais.

Talvez o processo de individuação e autoquestionamento seja estranho à maioria. Poucos investem tempo e recursos em terapias psíquicas e corporais para desligar o piloto automático do passado. Para muitos, o futuro é previsível: consequência direta das posturas cristalizadas no presente.

Mesmo doloroso, isso soa seguro. E confortável.

Assim nasce a compulsão à repetição — o disco riscado. Por isso as pessoas morrem: porque não se reinventam. Estruturas patológicas se cristalizam, doenças surgem, a existência se estreita, até que partir se torne a única alternativa possível.

No fundo, são seres esperando a morte, comemorando pontualmente com barulhos e empanturramentos para esquecer, ainda que por instantes, o vazio de sentido. Some-se a isso a herança cultural da alegria artificial engarrafada em álcool.

Ninguém tem prazer real nesse processo. Os mais velhos resmungam, estressam-se, mas insistem que é alegria reencontrar conhecidos. Será?

Conhecidos e familiares seriam expressões da carência? Uma repetição tolerada de vínculos que nunca foram grandes coisas, sustentada pelo medo da ausência ou da novidade?

Quando o mundo real se torna desagradável, a fuga é virtual. Jogos baixados em sequência, maratonas de séries, despertar depois das onze. Tudo repetido mecanicamente, como as mastigações no banquete.

Felizmente, pouco papo. Comunicação exige conteúdo — novidade relevante. Sem isso, não é diálogo: é cacarejo.

Agora, sentado na privada, contemplo a diarreia como purificação. Gratidão ao organismo que eliminou excessos. Ao silêncio que revela como a vida é mais leve sem convívios forçados. Ao cachorro cochilando ao lado, sem agitação.

Todo esse movimento termina aqui. Ou na sepultura, para quem não percebe a poesia do momento.

Se tudo acaba no peristaltismo, por que glamurizar tanto os processos? Festividades vêm acompanhadas de feriados — pausas artificiais para simular descanso. Mas será que descansamos?

A ressaca do cansaço chama-se preguiça. O cansaço revela déficit: gastou-se mais energia do que se recebeu.

Pensei em jejuar alguns dias. Nada usual para quem estudou na Le Cordon Bleu. Mas agradeço a chance de um jejum humano — percebendo que, assim como sou seletivo com alimentos, devo ser com pessoas.

Conviver apenas onde há troca e propósito. Um gourmet do silêncio desdenha da carência.

Compartilho este texto como manifesto da anti-carência — livre da necessidade de agradar, provocar aceitação ou justificar escolhas. Talvez encontre ressonância. Talvez soe herético. Os comentários dirão — e pouco importam.

Certeza mesmo é que amanhã estarei na mesma privada. Talvez, daqui a um ano, em outra ceia — com as mesmas pessoas ou com outras. Que talvez não leiam, ou não entendam. Tudo bem.

Se provocar novas reflexões em mim, já cumpriu sua função. Assim como foi construtivo cortar vínculos ao longo do ano.

Ficar preso à busca do prazer e à fuga das aversões limita a existência. Viver experiências com consciência as torna toleráveis, enquanto houver sentido. E, com desapego, perceber que se não se repetirem, está tudo certo.

Que venha o novo.



ENGLISH VERSION

The Feast and the Diarrhea

Spiritual–Scatological Reflections

by José Antonio Pinotti

“Food is shit in a latent state.”
— Anthony Bourdain



Late morning, Friday, December 26th, meditating on the toilet. After so many past lives in India, having a private toilet is always a blessing. Fatigue and diarrhea are the final balance of Brazil’s most important religious festivities. It could be worse: after a year of bodily discipline, recovery comes quickly and without consequences.

Silence invites reflection. The empty house is peaceful. Returning to a relaxed routine alongside the dogs feels light. Even feeding them and walking them on the beach twice a day seems effortless.

Looking back, one question arises: were the last three days worth it?
Why coexist with people without affinity, out of respect for traditions of the past? Why increase food and drink consumption — especially the unusual ones — and call it celebration?

Is celebration an attempt to reverse scarcity and lack? And who decided that pistachios, cherries, Belgian chocolates, codfish and champagne symbolize abundance?

Historically, deprivation is followed by excess, as if ritualistically ensuring it won’t return. Why romanticize a basic act of energy replenishment? Perhaps from fear it won’t always be available.

Have you thanked the power company today for electricity? Lit a candle at a gas station to honor the dinosaurs who made fuel possible?

Why share this supposed abundance with people you barely wish to see once a year — people who arrive only to consume the labor involved, adding nothing?

Yes, sharing is a privilege. But it’s ironic to see gourmet items, rich in symbolic and cultural value, carefully chosen and prepared, reduced to mere overindulgence by those with no connection to them.

A year later, the same people appear — same habits, one year older, indistinguishable from one another and from those already gone. Aging improves no one; it only amplifies existing traits.

These identities carry deformities. Compensations, physiotherapists call them. A knee pain becomes a limp, strains the spine, tightens the shoulders — a hunchback lineage straight out of Notre-Dame.

A book becomes an endless series. The story was never that interesting — only repeated. Characters multiply, all identical.

Individuation and self-questioning seem foreign to most. Few invest seriously in psychological and bodily therapies to turn off autopilot. The future becomes predictable, painfully safe.

Thus begins repetition compulsion — the scratched record. People die because they fail to reinvent themselves. Pathologies crystallize, illness emerges, life narrows, until leaving becomes the only option.

At heart, they wait for death, punctuating time with noise and overeating to forget meaninglessness. Add to this the cultural inheritance of bottled artificial joy: alcohol.

No one truly enjoys this. Elders complain, yet insist it’s about joy and reunion. Is it?

Perhaps family and acquaintances merely soothe scarcity — tolerated repetitions of bonds that were never that meaningful.

When reality becomes unbearable, the escape turns virtual. Games, series, late mornings — all repeated mechanically.

Communication requires content. Without novelty, it’s not dialogue — it’s clucking.

Now, seated on the toilet, I contemplate diarrhea as purification. Gratitude to the body for eliminating excess. To silence. To the dog napping nearby.

All movement ends here. Or in the grave, for those who miss the poetry.

If everything ends in peristalsis, why glamorize the process? Holidays simulate rest — but do they deliver it?

Fatigue reveals imbalance. More energy spent than received.

I consider fasting. Unusual for a Le Cordon Bleu alumnus. Yet welcome — reminding me that just as I’m selective with food, I must be with people.

Only exchanges with purpose. A gourmet of silence despises lack.

This is a manifesto against scarcity — free from the need to please or be accepted. Perhaps it resonates. Perhaps it offends. It doesn’t matter.

Tomorrow, I’ll be on the same toilet. Next year, perhaps another feast. Same people, or others. If it sparks reflection, it has served its purpose.

Let go of compulsive pleasure-seeking and aversion-avoidance. Live experiences consciously. And accept that if they don’t repeat, that’s fine.

Let the new arrive.

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