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Antes do mundo acabar.

Paulo Baía.
Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.

21 de jun. de 2026

Já estava dormindo há tempos, em paz com os anjos e com a prestação do cartão, quando o celular começou a fazer um barulho que eu nunca tinha ouvido na vida. Não era toque, não era mensagem, não era chamada de filho pedindo dinheiro. Era uma coisa apocalíptica. Um negócio que parecia aviso de invasão alienígena.


Abri um olho. Era a Defesa Civil.


Naquele susto, pensei logo no pior. Pronto. Acabou-se. Ao amanhecer não haveria mais Parque do Flamengo, nem os velhos caminhando, nem os namorados deitados na grama, nem os ciclistas brigando com os patinadores. O Rio de Janeiro finalmente tinha sido recolhido para manutenção.


Levantei da cama com a elegância de um pinguim assustado. Fui até a janela para ver os últimos momentos da humanidade.


Mas lá estava o Cristo.


Iluminado. Calmo. Com aquela serenidade de quem já viu enchente, ressaca, inflação, Sarney, impeachment, sete a um e governador sendo preso. E, abraçando tudo aquilo, estava também a velha Floresta da Tijuca, silenciosa e majestosa, como quem conhece os segredos do Rio desde antes de os cariocas inventarem a mania de reclamar do tempo. Se o Cristo e a Floresta da Tijuca não estavam preocupados, não seria eu quem iria entrar em pânico.


Pensei então em futebol.


Como o jogo do Brasil com o Haiti já tinha acabado, descartei a hipótese de uma goleada haitiana. Porque, convenhamos, uma derrota dessas exigiria alerta máximo, pronunciamento em rede nacional e psicólogos de plantão nas esquinas.


Também não era Carnaval. Mas, no Rio, isso nunca quer dizer muita coisa. Vai que a Portela resolveu ensaiar um desfile extraordinário às duas da manhã e o impacto dos surdos fez tremer o planeta? Nessas horas é melhor não contrariar Paulinho da Viola. Foi um rio que passou em minha vida e no coração de muito sambista continua passando.


Cheguei até a cogitar outra hipótese. Talvez aquele barulho infernal do celular fosse um aviso antecipado do estrondo que será o lançamento do livro de Nísia Trindade. Mas logo me lembrei que isso está marcado para a próxima segunda-feira. Não haveria razão para a Defesa Civil se antecipar na madrugada de sexta-feira para sábado. Cada acontecimento tem a sua hora. Até os grandes estrondos culturais merecem pontualidade.


Li a mensagem direito.


Era um aviso preventivo.


A Defesa Civil é mais ou menos como aquela tia cuidadosa que insiste para a gente levar guarda-chuva, mesmo quando o céu está azul. E, no fim das contas, quase sempre ela tem razão. Melhor obedecer à tia do que ir discutir meteorologia com São Pedro.


Olhei outra vez pela janela.


O Cristo continuava no mesmo lugar. A Floresta da Tijuca seguia em seu posto de guardiã da cidade. O Parque do Flamengo aparentemente não tinha pedido demissão. E a Portela permanecia firme em Madureira, aguardando a hora certa de fazer o mundo acabar, mas de alegria.


Voltei para a cama.


Afinal, temos um sábado inteiro pela frente. Um sábado que promete ser bonito e barulhento como uma águia azul e branca entrando na avenida.


Preciso ir a Madureira antes que o mundo acabe.


Porque, francamente, perder uma boa feijoada na quadra da Portela seria uma tragédia que nem a Defesa Civil teria coragem de anunciar.


Paulo Baía, em 20 de junho de 2026, na cidade do Rio de Janeiro.

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