top of page
A Alcatraz dos Crocodilos
e a Arquitetura da Crueldade.

Trump, o espetáculo da desumanização e a política que ameaça reescrever o pertencimento.
Donald Trump nunca deixa de assombrar, não apenas pelo que faz, mas pela forma como escolhe fazer. Sua política não se contenta em ser agressiva, ela precisa ser grotesca, espetacular, construída como um ritual público de humilhação e desumanização. Estamos diante de uma liderança que não governa, mas exibe o poder como ameaça, que transforma a crueldade em método e a indiferença em estética.
Sua mais recente investida — a construção de uma prisão de imigrantes em pleno território protegido dos Everglades, cercada por crocodilos, apelidada de “Alcatraz dos Crocodilos” — não é exagero nem metáfora. O projeto é real, enfrenta contestação judicial por grupos ambientalistas e simboliza com perfeição o espírito punitivo do trumpismo. Fez meu corpo reagir com tremores, como quem reconhece o retorno de algo ancestral: o castigo transformado em espetáculo, o sofrimento usado como mensagem política.
E não é um episódio isolado. Trump já deportou famílias inteiras, separou pais e filhos como política deliberada, ergueu centros de detenção improvisados, exibiu imigrantes algemados sendo conduzidos a aviões sob holofotes e câmeras. A mensagem é sempre a mesma: humilhar, encenar, dissuadir.
Em paralelo, voltou a ameaçar um dos pilares da democracia americana: a cidadania por nascimento. Em junho, assinou uma ordem executiva que busca revogar esse direito, garantido pela 14ª Emenda. A Suprema Corte não julgou seu mérito, mas permitiu que a medida entre em vigor em 28 estados, criando um mosaico jurídico caótico e rompendo com séculos de jurisprudência. Não se trata mais de retórica, mas de uma ruptura em curso.
Foi assim também com a Faixa de Gaza: após a destruição, Trump e seus aliados sugeriram abertamente transformá-la em uma espécie de Riviera para investimentos corporativos. Apagar as ruínas, vender o vazio. É o rebranding do genocídio como oportunidade de mercado. Não há sequer o pudor da linguagem. O trauma é reconfigurado como potencial de valorização imobiliária.
Na mesma lógica, os cortes drásticos na USAID — agência americana de ajuda internacional — sinalizam um descompromisso agressivo com a vida fora de suas fronteiras. Trump ridicularizou seu trabalho, cortou verbas, e abriu caminho para o colapso de programas de saúde e nutrição em regiões frágeis do planeta. Especialistas alertam que as consequências podem ser catastróficas, com milhões de vidas em risco até 2030. Trata-se de matar não por bombas, mas por retirada. Por omissão.
Tudo isso já estava esboçado em The Art of the Deal, o livro que lançou Trump como ícone empresarial. Um manual travestido de técnica, mas que na verdade ensina a normalizar o grotesco e invisibilizar a humanidade. Ali, empatia é fraqueza, o outro é obstáculo, e manipular é vencer. A lógica é do predador, não do estadista.
Trump é o porta-voz de uma política que expropria simbolicamente a vida, que transforma seres humanos em ruído, e ameaça reescrever a própria ideia de pertencimento. Não faltam crocodilos. Reais ou metafóricos.
O que assusta em Trump não é só o que ele diz. É o quanto já conseguiu fazer — e o tanto de gente disposta a aplaudir.
⸻
Inglês:
🇺🇸 The Crocodile Alcatraz and the Architecture of Cruelty
Trump, the spectacle of dehumanization, and the politics that threaten to rewrite belonging
Donald Trump never ceases to haunt — not just for what he does, but for how he chooses to do it. His politics are not merely aggressive; they are grotesque, theatrical, designed as public rituals of humiliation and dehumanization. This is not leadership, it is performance — power staged as threat, cruelty crafted into method, and indifference elevated to aesthetic.
His latest move — the construction of a migrant detention facility deep within Florida’s protected Everglades, surrounded by crocodiles and already dubbed “Crocodile Alcatraz” — is no metaphor. The project is real. Environmental groups have filed lawsuits to stop it. And its symbolism is undeniable: a prison designed not just to confine, but to terrify.
My body trembled reading about it, sensing something ancient — the return of punishment as theater, suffering as public spectacle.
And it is not an isolated episode. Trump has already deported entire families, ordered children separated from their parents, built cages, and paraded immigrants in shackles onto planes for the cameras. The message has always been clear: humiliate, display, intimidate.
Now, he has gone further. In June 2025, Trump signed an executive order aiming to revoke birthright citizenship, long guaranteed by the 14th Amendment. While the Supreme Court has yet to rule on its constitutionality, a 6–3 decision has allowed the order to go into effect in 28 states. The result: a fragmented legal map, and a nation where the right to belong depends on geography. This is no longer a rhetorical threat. It is a constitutional unraveling in motion.
The same logic underpins his vision for Gaza, where Trump and his allies openly floated the idea of turning the destroyed strip into a luxury Riviera. Erase the ruins, pave the trauma, sell the silence. This is genocide repackaged as investment opportunity. And they say it out loud. Trauma is reconfigured as real estate potential.
Likewise, the systematic dismantling of USAID — the U.S. Agency for International Development — follows the same script. Trump has mocked its mission, gutted its funding, and jeopardized global health programs that serve millions. Experts warn of catastrophic consequences by 2030. These are not deaths by weapons, but by withdrawal. By absence.
All of this was foreshadowed in The Art of the Deal, the book that launched Trump’s brand. Beneath its dealmaker gloss lies a darker truth: it is a handbook for normalizing the grotesque and erasing the human. In its worldview, empathy is weakness, people are barriers, and winning requires spectacle. It is not a statesman’s logic. It is a predator’s.
Trump is the spokesperson for a politics that symbolically expropriates life, reducing human beings to threats, erasing the right to exist. And for that, crocodiles — literal or metaphorical — are always waiting.
What’s most terrifying about Trump isn’t just what he says. It’s what he’s already done — and how many are still willing to cheer.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
19 de jan. de 2026

Leia também
A política da vida melhor:
Do discurso dos direitos à promessa de prosperidade vivida.

Inovação e bioeconomia:
A nova fronteira da Amazônia na COP 30.
bottom of page