A Arte da Guerra que Trump não leu.
Sun Tzu, Maquiavel e Clausewitz descreveram o que separa a força do poder. A guerra contra o Irã testa — e frequentemente viola — cada um desses princípios.

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Análise complementar — “O limite que já foi ultrapassado”
Toda grande teoria da guerra parte de uma premissa comum: a força sem propósito não é poder — é desperdício. O que os clássicos ensinam sobre o conflito atual não é apenas que ele pode fracassar. É por que ele já fracassa, enquanto ainda ocorre.
Há algo revelador no fato de que a estratégia de guerra de Donald Trump seja simultaneamente comparada a Sun Tzu e descrita como sua antítese. A contradição não é acidental. Ela aponta para o modo como o poder opera quando desacompanhado de doutrina coerente: toma emprestado o vocabulário dos clássicos sem absorver sua lógica.
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Sun Tzu escreveu A Arte da Guerra no século V antes de Cristo não como manual de combate, mas como tratado sobre a inutilidade da guerra. Sua tese central é precisa: a vitória suprema é vencer sem lutar. A força deve ser instrumento de última instância — e, quando empregada, deve ser tão precisa, tão preparada e tão breve que o inimigo não tenha tempo de adaptar-se.
Há elementos superficialmente compatíveis com essa lógica na condução americana da guerra contra o Irã. A desinformação intencional, a oscilação entre ameaça e negociação, a opacidade dos objetivos reais — tudo isso pode ser lido como aplicação do princípio de que toda guerra é baseada em engano.
A desordem pode ser tática ou pode ser incapacidade. A diferença está nos resultados — e nos custos que ficam para trás.
Mas Sun Tzu exige algo que a estratégia trumpiana não demonstra: autoconhecimento rigoroso. “Se conheces o inimigo e a ti mesmo, não precisas temer cem batalhas.” A guerra contra o Irã foi iniciada enquanto negociações estavam em curso, sem objetivos políticos claramente definidos, com declarações contraditórias entre o presidente e seu secretário de Defesa. Isso não é engano calculado. É improvisação sistêmica.
Sun Tzu também é explícito quanto ao custo da guerra prolongada: nenhum país se beneficia dela. As consequências já apontam nessa direção: em poucas semanas, os custos entraram na casa das dezenas de bilhões de dólares, com impacto direto sobre energia, inflação e cadeias globais de suprimento.
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Maquiavel oferece uma lente diferente — e, neste caso, mais precisa.
Em O Príncipe, escrito em 1513, Maquiavel não prescreve virtude: prescreve eficácia. O governante deve ser ao mesmo tempo leão e raposa — capaz de força bruta e de astúcia. Deve projetar virtude enquanto se prepara para agir com dureza quando necessário. A inconsistência declarada, a ameaça que precede a negociação, o uso da imprevisibilidade como instrumento de poder — tudo isso tem genealogia maquiavélica.
Mas Maquiavel impõe uma condição frequentemente ignorada: a crueldade deve ser usada de uma só vez. Crueldade contínua enfraquece o príncipe. Ameaças que não se cumprem corroem a credibilidade — e um governante sem credibilidade não governa: apenas ocupa o cargo.
Maquiavel sabia que o poder percebido e o poder real precisam convergir. Quando divergem por tempo demais, o príncipe perde ambos.
A oscilação entre declarações de encerramento da guerra e promessas de escalada, no mesmo intervalo de horas, não é imprevisibilidade estratégica. É erosão de autoridade. O inimigo que não sabe o que temer aprende, com o tempo, que talvez não precise temer nada.
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É com Clausewitz, no entanto, que a ruptura é mais profunda.
Carl von Clausewitz definiu a guerra como a continuação da política por outros meios. Isso implica uma hierarquia clara: a ação militar deve servir a um objetivo político definido. A força é instrumento — não fim.
A lógica se inverte na prática recente. A força passa a ocupar o lugar da política. Os objetivos se acumulam — destruir capacidades militares, conter influência regional, impedir avanços estratégicos — mas a pergunta central permanece sem resposta: para que tipo de equilíbrio político se caminha depois?
Clausewitz alertou que guerras sem objetivo político claro tendem a se prolongar indefinidamente, porque não há critério para definir vitória. O conflito atual se aproxima perigosamente desse padrão.
Custos crescem. Objetivos permanecem difusos. Clausewitz não precisaria de muito mais.
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Há ainda uma quarta tradição — menos citada, mas igualmente relevante.
A Doutrina Powell, formulada a partir das lições do Vietnã, estabelece que a força deve ser usada como último recurso, com objetivos claros, apoio público e estratégia de saída definida. É uma tradução moderna de Clausewitz.
Aqui também há ruptura. A ambiguidade vira método. A saída não é planejada — é improvisada. O apoio público não antecede a ação — tenta-se construí-lo depois.
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É neste ponto que todas as tradições convergem — e onde a estratégia atual se afasta delas.
O que une Sun Tzu, Maquiavel, Clausewitz e Powell é uma convicção comum: a guerra é o instrumento mais caro que existe, e só se justifica quando o objetivo é claro, a preparação é rigorosa e a saída está pensada antes do primeiro disparo.
Nada disso está plenamente presente no conflito atual.
O que os teóricos chamam de doutrina, chama-se instinto. O que chamam de objetivo político, chama-se sensação. O que chamam de estratégia de saída, chama-se flexibilidade.
O problema não é ignorar os clássicos.
É que eles continuam valendo.
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A guerra contra o Irã é, nesse sentido, um experimento involuntário: o que acontece quando o poder é exercido sem doutrina coerente.
Os clássicos não desaparecem.
Eles se confirmam — pelo negativo.
A Arte da Guerra que Trump nunca leu está sendo escrita, agora, nos resultados que ele produz.
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🇺🇸 ENGLISH
Complementary analysis — “The line that has already been crossed”
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Every major theory of war begins from a shared premise: force without purpose is not power — it is waste. What the classics reveal about the current conflict is not merely that it may fail, but why it is already failing while still unfolding.
There is something revealing in the fact that Donald Trump’s strategy is both compared to Sun Tzu and described as its opposite. The contradiction is not accidental. It reflects what happens when power operates without coherent doctrine: it borrows the language of the classics without absorbing their logic.
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Sun Tzu wrote The Art of War not as a manual of combat, but as a reflection on the futility of war. His core insight is precise: the supreme victory is to win without fighting.
There are superficial echoes of this logic in the conduct of the current conflict — disinformation, oscillation between threat and negotiation, opacity of objectives. But Sun Tzu demands something deeper: rigorous self-knowledge.
What we see instead is systemic improvisation.
Disorder can be a tactic — or it can be incapacity. The difference lies in outcomes, and in the costs left behind.
Sun Tzu also warned against prolonged war. The warning feels contemporary: costs escalate rapidly, and consequences extend far beyond the battlefield.
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Machiavelli offers a sharper lens.
In The Prince, effectiveness matters more than virtue. Power requires both force and cunning. But Machiavelli imposes a crucial limit: cruelty must be swift and contained.
When it becomes continuous — or inconsistent — it erodes authority.
Perceived power and real power must converge. When they do not, both are lost.
Inconsistent signals are not strategic unpredictability. They are a slow dismantling of credibility.
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With Clausewitz, the rupture becomes structural.
War, he argued, is the continuation of politics by other means. Military action must serve a defined political objective.
When that objective is unclear, war loses its anchor. It expands without direction.
The current conflict shows signs of precisely that dynamic.
Costs rise. Objectives blur. Clausewitz would not be surprised.
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The Powell Doctrine reinforces this principle in modern terms: use force only as a last resort, with clear goals, public support, and an exit strategy.
Here again, the gap is evident.
Ambiguity becomes method. Exit becomes improvisation. Support becomes an afterthought.
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This is where all traditions converge — and where current strategy diverges.
Sun Tzu, Machiavelli, Clausewitz, and Powell share a common conviction: war is the most expensive instrument available, and its cost is justified only when objectives are clear, preparation is rigorous, and the exit is defined in advance.
Those conditions are not fully present here.
What theorists call doctrine is replaced by instinct.
What they call political objective becomes intuition.
What they call exit strategy becomes flexibility.
The problem is not that the classics are ignored.
It is that they still apply.
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The war against Iran becomes, in this sense, an unintended experiment in power without doctrine.
The classics do not disappear.
They reassert themselves — in the negative.
The Art of War Trump never read is being written now, in the outcomes he produces.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
16 de abr. de 2026

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