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A Humilhação de Zelensky:

O Teatro de Gangsters na Política Global.

A Humilhação de Zelensky:

Opinião | Valéria Monteiro.

A reunião entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump revelou-se um espetáculo grotesco de desrespeito e hipocrisia, disfarçado sob um verniz diplomático. Desde ontem, a imprensa internacional tem coberto o encontro com um cuidado excessivo, como se buscasse justificar o que mais se assemelhou a um ato de intimidação coletiva contra o presidente ucraniano. O código de vestimenta foi o primeiro ataque, vindo de fora da roda principal de conversa, mas que assinalou a mudança de tom que estava por vir.

Foi uma verdadeira matilha de gângsters cobrando de Zelensky um traje formal, algo que jamais foi exigido de figuras como Elon Musk, que circula pelos bastidores do poder norte-americano sempre vestido de maneira casual, até mesmo em reuniões de gabinete. No entanto, as regras parecem mudar quando se trata de um líder de um país devastado pela guerra, lutando para manter sua nação de pé contra a invasão russa.

A cena remete a uma lição de biosociologia: apenas os chimpanzés imitam os humanos ao atacar um indivíduo em bando. A postura de Trump e seus aliados seguiu essa lógica de humilhação pública, uma tentativa de impor poder por meio da coerção simbólica. Esse comportamento, mais típico de oligarcas mafiosos do que de estadistas, não deveria surpreender vindo de figuras como Trump e Putin, ambos notórios por seu desprezo pelas normas democráticas e pela instrumentalização do Estado para seus próprios interesses.

Além da lamentável falta de cortesia – que deveria ser um requisito básico para qualquer anfitrião, especialmente em uma nação que valoriza tanto as regras de etiqueta –, o episódio levanta uma questão mais profunda: o que essa postura dos EUA significa para suas alianças globais? Se a relação transatlântica, forjada nos escombros da Segunda Guerra Mundial e consolidada pela OTAN, começar a ruir sob o peso de gestos como esse, o mundo estará presenciando uma mudança de eixo na geopolítica internacional.

Agora, resta saber como os países europeus reagirão. Esse episódio acende um alerta sobre a fragilidade dos valores comuns que historicamente uniram os EUA e a Europa. Se essa nova dinâmica for um prenúncio do que está por vir, talvez estejamos diante de um realinhamento global, no qual o respeito mútuo e os compromissos históricos serão substituídos pela lógica da força bruta e da humilhação pública. Um cenário perigoso, em que os verdadeiros perdedores serão aqueles que ainda acreditam na força das democracias.

Inglês:

The Humiliation of Zelensky: The Gangster Theater in Global Politics.

Opinion | Valéria Monteiro.

The meeting between Volodymyr Zelensky and Donald Trump turned out to be a grotesque spectacle of disrespect and hypocrisy, disguised under a diplomatic veneer. Since yesterday, the international press has been covering the event with excessive caution, as if trying to justify what most resembled an act of collective intimidation against the Ukrainian president. The dress code was the first attack, coming from outside the main circle of conversation, but it signaled the change of tone that was to come.

It was a veritable pack of gangsters demanding that Zelensky wear formal attire—something that has never been required of figures like Elon Musk, who moves through the corridors of American power always dressed casually, even in cabinet meetings. However, the rules seem to change when it comes to the leader of a war-torn country, fighting to keep his nation standing against the Russian invasion.

The scene recalls a lesson in biosociology: only chimpanzees mimic humans when they gang up to attack a single individual. Trump and his allies followed this logic of public humiliation, an attempt to impose power through symbolic coercion. This behavior, more typical of mafia oligarchs than statesmen, should not come as a surprise from figures like Trump and Putin, both notorious for their disregard for democratic norms and their instrumentalization of the state for their own interests.

Beyond the regrettable lack of courtesy—which should be a basic requirement for any host, especially in a nation that places such value on etiquette—this episode raises a deeper question: What does this stance by the U.S. mean for its global alliances? If the transatlantic relationship, forged in the aftermath of World War II and consolidated through NATO, begins to crumble under the weight of gestures like this, the world will be witnessing a shift in the global geopolitical axis.

Now, it remains to be seen how European countries will react. This episode raises an alarm about the fragility of the common values that have historically united the U.S. and Europe. If this new dynamic is a harbinger of what is to come, we may be facing a global realignment in which mutual respect and historical commitments are replaced by the logic of brute force and public humiliation. A dangerous scenario, where the true losers will be those who still believe in the strength of democracies.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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