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A Nova Rota da Seda:

Poder, cultura e influência global.

A Nova Rota da Seda:

Um mapa do século XXI traçado por estradas, portos, dados e símbolos — e pela ambição da China de reconectar o mundo sob sua órbita econômica e cultural.



I. O renascimento das rotas do mundo

Em 2013, o presidente chinês Xi Jinping anunciou um projeto que viria a redefinir a globalização no século XXI: a Iniciativa do Cinturão e Rota, ou Belt and Road Initiative (BRI).
Inspirada nas antigas rotas comerciais que conectavam a China ao Mediterrâneo, a nova Rota da Seda ultrapassa em muito o simbolismo histórico.
Trata-se de uma estratégia de integração global com três dimensões — econômica, política e cultural — e uma ambição clara: reposicionar a China como eixo central do mundo.



II. O eixo econômico – reconstruindo o comércio global

A dimensão mais visível da BRI é a infraestrutura.
O projeto se divide em dois grandes eixos complementares:
• O Cinturão Econômico da Rota da Seda (Belt): uma rede terrestre de ferrovias, rodovias, gasodutos e oleodutos que atravessa a Ásia Central e chega à Europa;
• A Rota Marítima da Seda (Road): um corredor de portos e rotas navais que liga o Sudeste Asiático, o Oceano Índico, a África e o Mediterrâneo.

Essas obras criam novos corredores logísticos e energéticos, encurtando distâncias e barateando o transporte global.
Mais de 150 países já aderiram à iniciativa, e estima-se que mais de US$ 1 trilhão em financiamentos e investimentos tenham sido mobilizados — principalmente por bancos e fundos estatais chineses.

Além de garantir acesso a mercados e matérias-primas, a BRI também serve para escoar o excedente industrial chinês e empregar suas gigantes de construção civil e engenharia.
É, em essência, um projeto de desenvolvimento econômico — mas também um instrumento de influência geopolítica.



III. O eixo político – influência e dependência

Por trás da retórica de “cooperação ganha-ganha”, há uma clara dimensão estratégica.
Ao financiar obras monumentais em países de renda média ou baixa, a China amplia sua esfera de influência e consolida laços de dependência econômica e diplomática.

Casos como o porto de Hambantota, no Sri Lanka, ilustram esse movimento: diante da incapacidade de pagar a dívida, o governo local cedeu o controle do porto à China por 99 anos.
Episódios semelhantes acenderam o alerta no Ocidente, que acusa Pequim de praticar uma “diplomacia da armadilha da dívida”.

Ao mesmo tempo, a BRI oferece uma alternativa ao modelo de desenvolvimento imposto por instituições como o FMI e o Banco Mundial — que, tradicionalmente, exigem reformas econômicas e políticas em troca de crédito.
A China, em contraste, propõe financiamento sem condicionalidades ideológicas, o que a torna mais atraente para países que rejeitam interferências externas.

Em resumo, a Nova Rota da Seda não é apenas uma rede de infraestrutura, mas uma nova arquitetura de poder internacional, na qual a China se posiciona como centro político e econômico de um sistema multipolar emergente.



IV. O eixo cultural – a rota espiritual e digital

Pouco comentada, mas profundamente estratégica, é a dimensão cultural da Belt and Road Initiative — o que Pequim chama de “Rota da Seda Espiritual”.
Desde o início, o projeto foi concebido também como um instrumento de soft power: o poder de influenciar por meio da cultura, da educação e da narrativa.

1. A narrativa da civilização harmônica

A China procura se apresentar não como potência expansionista, mas como herdeira de uma civilização milenar voltada ao diálogo e à harmonia entre os povos.
Universidades chinesas oferecem bolsas de estudo a estrangeiros; Institutos Confúcio ensinam mandarim e filosofia em dezenas de países; exposições e festivais itinerantes celebram a “amizade sino-mundial”.

Essas ações constroem uma imagem positiva da China, reforçando o discurso de que a cooperação pode substituir o confronto — um contraponto sutil ao modelo ocidental de liderança.

2. A Rota Digital e o novo imaginário global

A cultura também viaja por cabos de fibra óptica.
A chamada “Digital Silk Road” — que inclui redes 5G, satélites, plataformas de e-commerce e inteligência artificial — exporta tecnologia e valores culturais simultaneamente.
Quando um país adota soluções chinesas, adota também formas de pensar, consumir e se comunicar.
A cultura, aqui, é inseparável da infraestrutura tecnológica.

3. Arte, cinema e patrimônio

Museus, universidades e órgãos culturais chineses têm promovido trocas artísticas com países parceiros, revitalizando a memória da antiga Rota da Seda.
Cidades como Xi’an e Dunhuang tornaram-se polos de turismo histórico e espiritual, atraindo visitantes fascinados pela herança cultural da Ásia.
A arte cumpre um papel duplo: celebra o passado e legitima o presente.



V. Entre o diálogo e a disputa

A BRI é apresentada como uma promessa de interconectividade civilizacional — a ideia de que o futuro depende da cooperação entre culturas.
Mas, na prática, também representa uma disputa simbólica: a tentativa de reescrever a narrativa da globalização sob uma ótica oriental.

Enquanto os Estados Unidos e a União Europeia veem o projeto com desconfiança, países em desenvolvimento o encaram como uma oportunidade de inclusão na economia mundial.
No meio desse embate, a cultura emerge como terreno de disputa silenciosa — o espaço onde se define qual visão de mundo prevalecerá no século XXI.



VI. O novo mapa da globalização

Mais do que uma rede de estradas e portos, a Nova Rota da Seda é um mapa do futuro.
Um mapa em que fluxos comerciais, tecnológicos e culturais convergem para o Oriente, redesenhando a geopolítica e a própria ideia de globalização.

A história, que um dia partiu de Xi’an rumo a Veneza, parece agora refazer o caminho inverso: do Ocidente de volta ao Oriente.
E o mundo, mais uma vez, se encontra no cruzamento dessas rotas — onde economia, poder e cultura se entrelaçam, definindo o destino comum das nações.





🌏 The New Silk Road: Power, Culture, and Global Influence

A 21st-century map drawn by roads, ports, data, and symbols — and by China’s ambition to reconnect the world under its economic and cultural orbit.



I. The Rebirth of the World’s Routes

In 2013, Chinese President Xi Jinping announced a project that would redefine globalization in the 21st century: the Belt and Road Initiative (BRI).
Inspired by the ancient trade routes connecting China to the Mediterranean, this new Silk Road goes far beyond historical symbolism.
It is a global integration strategy with three intertwined dimensions — economic, political, and cultural — and one clear ambition: to reposition China as the world’s central axis.



II. The Economic Axis – Rebuilding Global Trade

The most visible dimension of the BRI is infrastructure.
The project is divided into two complementary fronts:
• The Silk Road Economic Belt: a land network of railways, highways, gas pipelines, and oil pipelines stretching through Central Asia into Europe;
• The Maritime Silk Road: a sea corridor connecting Southeast Asia, the Indian Ocean, Africa, and the Mediterranean.

These infrastructures create new logistical and energy corridors, shortening distances and lowering global transport costs.
More than 150 countries have already joined the initiative, with over US$ 1 trillion in investments mobilized — mostly from Chinese state-owned banks and funds.

Beyond opening markets and securing resources, the BRI serves to absorb China’s industrial surplus and employ its massive construction and engineering conglomerates.
In essence, it is an economic development plan — but also a tool of geopolitical influence.



III. The Political Axis – Influence and Dependence

Behind the rhetoric of “win-win cooperation,” there lies a clear strategic dimension.
By financing monumental projects in middle- and low-income nations, China expands its sphere of influence and cements economic and diplomatic dependency.

Examples such as the Hambantota Port in Sri Lanka illustrate this pattern: unable to repay its loans, the Sri Lankan government handed control of the port to China for 99 years.
Similar cases have raised alarms in the West, which accuses Beijing of practicing “debt-trap diplomacy.”

At the same time, the BRI offers an alternative to the development model imposed by institutions like the IMF and the World Bank, which traditionally tie credit to economic or political reforms.
China, in contrast, provides funding without ideological conditionalities, making it attractive to nations that reject external interference.

In short, the New Silk Road is not merely an infrastructure network but a new architecture of global power, positioning China as the political and economic center of an emerging multipolar world.



IV. The Cultural Axis – The Spiritual and Digital Road

Less discussed but deeply strategic is the cultural dimension of the Belt and Road Initiative — what Beijing calls the “Spiritual Silk Road.”
From the start, it was designed as an instrument of soft power: the ability to influence through culture, education, and narrative.

1. The Narrative of a Harmonious Civilization

China seeks to portray itself not as an expansionist power but as the heir to a millennia-old civilization devoted to dialogue and harmony among nations.
Chinese universities offer scholarships to foreign students; Confucius Institutes teach Mandarin and philosophy around the globe; traveling exhibitions and film festivals celebrate “Sino-global friendship.”

These actions craft a positive image of China, reinforcing the notion that cooperation can replace confrontation — a subtle counterpoint to Western leadership models.

2. The Digital Silk Road and a New Global Imagination

Culture also travels through fiber-optic cables.
The so-called “Digital Silk Road” — encompassing 5G networks, satellites, e-commerce platforms, and AI systems — exports technology and cultural values simultaneously.
When a country adopts Chinese tech solutions, it often adopts Chinese ways of thinking, consuming, and communicating.
Here, culture is inseparable from technological infrastructure.

3. Art, Cinema, and Heritage

Chinese museums, universities, and cultural agencies have promoted artistic collaborations with partner nations, reviving the memory of the ancient Silk Road.
Cities like Xi’an and Dunhuang have become hubs of historical and spiritual tourism, attracting visitors captivated by Asia’s cultural legacy.
Art plays a dual role: it celebrates the past and legitimizes the present.



V. Between Dialogue and Dispute

The BRI is presented as a promise of civilizational interconnectedness — the belief that the future depends on cultural cooperation.
Yet in practice, it also represents a symbolic contest: the effort to rewrite the story of globalization from an Eastern perspective.

While the United States and the European Union approach the project with skepticism, many developing nations see it as a path toward inclusion in the global economy.
Amid this clash of narratives, culture becomes the quiet battleground — where competing visions of the 21st century take shape.



VI. The New Map of Globalization

More than a network of roads and ports, the New Silk Road is a map of the future.
A map where trade, technology, and culture converge eastward, redrawing both geopolitics and globalization itself.

History, which once flowed from Xi’an to Venice, now seems to be reversing course: from the West back to the East.
And once again, the world finds itself at the crossroads — where economy, power, and culture intertwine, shaping the shared destiny of nations.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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