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A Política Inoculada:

Submarinos nucleares, coerção tarifária e o projeto global de Donald Trump.

A Política Inoculada:

▍O blefe nuclear e os alertas do presente.

Donald Trump movimenta dois submarinos nucleares após uma escalada verbal com Dmitry Medvedev — e acende alertas. Não apenas pelo gesto militar, mas pela articulação repentina de movimentos que, até então, pareciam dispersos.

A negociação, para Trump, é teatro. Diplomacia cede espaço à performance. Provocação, força e espetáculo se fundem em uma estratégia onde as aparências de poder têm peso real.

Acostumei-me a observar os conflitos internacionais com as lentes herdadas da Segunda Guerra Mundial. Mas o que se impõe hoje exige outro enquadramento: uma nova guerra híbrida, em que mísseis e memes, tarifas e testosterona se combinam para reconfigurar a ordem global.

▍Testosterona e propaganda: um sintoma programado

Na mesma semana do blefe nuclear, a CNN repercutia a fala de um blogueiro MAGA: “A política precisa de testosterona.” A frase, nascida nas redes e amplificada por algoritmos e noticiários, ecoa uma retórica cuidadosamente cultivada: a que associa força bruta à legitimidade política.

Esse tipo de discurso inocula na sociedade a rejeição instintiva à diplomacia, à ciência, à dúvida. Age como uma vacina ideológica: cria resistência a qualquer alternativa que não se alinhe à lógica da força e da submissão.

Trump domina esse campo simbólico. Seu projeto se ampara em um vocabulário de virilidade, nacionalismo e desconfiança sistemática — uma engenharia discursiva que exclui o contraditório e consagra o líder como instância única de verdade e segurança.

▍Uma estratégia que agora se revela

Antes dispersos, os gestos de Trump — o interesse pela Groenlândia, as tarifas contra a China, a pressão sobre países que se aproximam dos BRICS, as ameaças veladas ao Brasil — passam a se alinhar sob uma mesma lógica: restaurar a hegemonia americana por meio da intimidação econômica e simbólica.

O deslocamento dos submarinos não inicia esse processo — apenas o revela.

▍China, Rússia, BRICS: os alvos estratégicos

Trump não esconde sua intenção de conter o avanço da China, tratada como ameaça econômica e civilizatória. Seu método: tarifas punitivas, chantagens comerciais e exclusão de aliados vacilantes.

Com a Rússia, a tensão se concentra no Ártico e no bloco BRICS. A guerra na Ucrânia, neste cenário, serve também ao objetivo de isolar Moscou — e, com isso, minar a consolidação de uma nova ordem multipolar.

▍A Groenlândia como peça geopolítica

A proposta feita por Trump em 2019 para comprar a Groenlândia foi tratada como piada — mas não era. Hoje, com o derretimento das calotas polares e a crescente disputa por influência no Ártico, a ideia ressurge com outra densidade.

A ilha oferece posição estratégica para bases militares, acesso a rotas marítimas emergentes e reservas minerais cruciais.

Enfraquecer a Rússia é, nesse contexto, um passo para tornar a Groenlândia mais acessível — política e geopoliticamente.

▍Brasil sob pressão: coerção por alinhamento

O Brasil não é o centro da disputa, mas é alvo dela. A pressão para que rompa relações com a Rússia e se afaste dos BRICS insere o país num jogo de alinhamento forçado, onde a soberania cede espaço à lógica binária do “ou conosco, ou contra nós”.

Submeter-se a essa chantagem seria renunciar à tradição diplomática de autonomia — e aceitar uma nova forma de vassalagem disfarçada de parceria.

▍O “Big Beautiful Tariff Bill”: coerção como doutrina

Entre as peças mais explícitas desse projeto está o Big Beautiful Tariff Bill — com o qual Trump propõe impor tarifas mínimas de 15% a todas as importações e até 60% a produtos chineses.

Não é apenas política econômica.
É a institucionalização da chantagem comercial como ferramenta de poder.

Com isso, o comércio global deixa de ser arena de cooperação e passa a funcionar como mecanismo de obediência ideológica:
• Tarifa como punição,
• Submissão como acesso,
• Multilateralismo como ameaça à hegemonia.

🧭 Conclusão: sintomas de uma guerra não declarada

A movimentação dos submarinos nucleares não é apenas militar. É sintoma de uma engrenagem maior, em que tarifas, propaganda e coerção simbólica operam juntas como instrumentos de poder.

A guerra que se arma não é só contra China ou Rússia.
É contra a possibilidade de uma ordem internacional descentralizada e soberana.

Sob a aparência de ações desconexas, há um projeto estruturado — de reafirmação imperial por outros meios. A doutrina é clara: força no lugar de diálogo, tarifa no lugar de parceria, submissão no lugar de autonomia.

Se não reconhecermos essa estrutura enquanto ainda é tempo, talvez só o façamos quando os portos estiverem fechados, as alianças desfeitas — e os submarinos, já silenciosos, cercarem os mares do mundo.

▍Inglês: 🧬 The Inoculated Politics.

Nuclear submarines, tariff coercion, and Donald Trump’s global project.

By Valéria Monteiro.

▍Nuclear bluff and today’s warning signs

Donald Trump deployed two nuclear submarines following a verbal escalation with Dmitry Medvedev — and raised alarms. Not just because of the military move itself, but because it suddenly aligned a series of actions that had seemed, until then, disconnected.

For Trump, negotiation is theater. Diplomacy gives way to performance. Provocation, power, and spectacle merge into a strategy where the appearance of strength becomes a tool of real influence.

I’ve often viewed global conflict through the lens of World War II. But what’s unfolding today calls for a different framework: a new kind of hybrid warfare, in which missiles and memes, tariffs and testosterone operate together to reshape global order.

▍Testosterone and propaganda: a programmed symptom

That same week, CNN echoed a MAGA blogger who claimed that “politics needs more testosterone.” The phrase, born on social media and amplified by algorithms and news cycles, reflects a carefully cultivated rhetoric — one that links brute strength to political legitimacy.

This type of discourse inoculates society against diplomacy, science, and doubt. It acts as an ideological vaccine, creating resistance to any alternative not aligned with the logic of force and submission.

Trump thrives in this symbolic arena. His project relies on a vocabulary of virility, nationalism, and institutional distrust — a discursive machinery that excludes dissent and enthrones the leader as the sole bearer of truth and security.

▍A strategy that now reveals itself

What once appeared erratic — Trump’s interest in Greenland, tariffs against China, threats toward BRICS-aligned countries, pressure on Brazil — now aligns under a single logic: restoring American hegemony through symbolic and economic coercion.

The deployment of nuclear submarines doesn’t initiate this strategy — it exposes it.

▍China, Russia, BRICS: strategic targets

Trump has made no secret of his desire to contain China’s rise, casting it as both economic and civilizational threat. His approach: punitive tariffs, trade coercion, and isolation of hesitant allies.

With Russia, the tension centers on the Arctic and the BRICS bloc. The war in Ukraine also serves the aim of isolating Moscow and weakening efforts to build a multipolar order.

▍Greenland as a geopolitical prize

Trump’s 2019 proposal to buy Greenland was dismissed as a joke — but it wasn’t. Today, with polar ice melting and Arctic influence becoming a battleground, that idea resurfaces with strategic weight.

The island holds enormous geopolitical value: it offers a base for military presence, access to emerging maritime routes, and critical mineral reserves.

Weakening Russia, in this context, becomes a step toward making Greenland politically and strategically accessible.

▍Brazil under pressure: coerced alignment

Brazil is not at the center of the dispute — but it is a target. The pressure to sever ties with Russia and distance itself from BRICS places the country in a position of forced alignment, where sovereignty gives way to a binary logic: “with us or against us.”

Yielding to this coercion would mean abandoning Brazil’s longstanding diplomatic autonomy — and accepting a new form of vassalage disguised as partnership.

▍The “Big Beautiful Tariff Bill”: coercion as doctrine

One of the clearest elements of Trump’s project is the Big Beautiful Tariff Bill, a proposal to impose minimum tariffs of 10% on all imports, and up to 60% on Chinese goods.

This is not just economic policy.
It is the institutionalization of trade coercion as a tool of power.

Under this logic, global trade is no longer a space for cooperation — it becomes a mechanism of ideological obedience:
• Tariff as punishment,
• Submission as access,
• Multilateralism as a threat to hegemony.

🧭 Conclusion: symptoms of an undeclared war

The deployment of nuclear submarines is not merely a military gesture. It signals a larger machine, in which tariffs, propaganda, and symbolic coercion operate together as instruments of control.

The war taking shape is not only against China or Russia.
It’s against the possibility of a decentralized and sovereign international order.

What may appear as disconnected actions reveals, in fact, a coherent project — a strategy of imperial reaffirmation by other means. The doctrine is clear: power replaces dialogue, tariffs replace partnership, submission replaces autonomy.

If we fail to recognize this while there is still time, we may only do so when ports are closed, alliances undone — and the submarines, already silent, are circling the waters of the world.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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