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A Universidade que Disse Não:

O Que Está em Jogo na Recusa de Harvard ao Governo Trump.

A Universidade que Disse Não:

A decisão de Harvard de enfrentar a administração Trump representa mais do que uma crise institucional. É um marco no embate entre autonomia universitária e o avanço de políticas autoritárias que ameaçam a liberdade acadêmica nos Estados Unidos — e além.

No segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, a relação entre o governo federal e universidades de ponta atingiu níveis inéditos de tensão. Harvard, detentora de um endowment superior a US$ 50 bilhões, decidiu não ceder às exigências da Casa Branca — o que resultou no congelamento de cerca de US$ 2,3 bilhões em repasses federais, especialmente para projetos de pesquisa científica.

Mas afinal, o que o governo Trump está exigindo? E o que está em jogo?



O que Harvard se recusa a aceitar

As exigências do governo incluem:
• Encerramento de programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) em toda a estrutura administrativa e acadêmica;
• Reformulação dos critérios de admissão, proibindo qualquer consideração sobre raça, nacionalidade ou histórico socioeconômico;
• Repressão a manifestações estudantis, especialmente em apoio à causa palestina, com sanções disciplinares previstas para os participantes;
• Proibição do uso de máscaras sanitárias nos campi, mesmo sob justificativas de saúde pública;
• Compartilhamento de dados com o ICE (agência federal de imigração) sobre estudantes estrangeiros;
• Revisão dos currículos e dos centros de pesquisa, exigindo alinhamento com os chamados “valores patrióticos” da atual administração.

Essas medidas configuram uma tentativa clara de controle político sobre as instituições de ensino, colocando em risco a liberdade de expressão, de pensamento e de organização — garantidas pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.



A resposta de Harvard

Sob a liderança do presidente interino Alan Garber, Harvard decidiu não negociar sua autonomia. Para isso, contratou advogados experientes como Robert Hur e William Burck, e está preparando uma estratégia jurídica de enfrentamento.

A universidade também vem recebendo apoio de ex-presidentes americanos, intelectuais e organizações acadêmicas, que veem nessa resistência um gesto crucial para a defesa da democracia institucional.



O impacto sobre outras universidades

Harvard não é a única a ser pressionada. Outras instituições de prestígio também enfrentam retaliações:
• A Columbia University teve US$ 400 milhões em repasses congelados, e está sendo instada a reprimir protestos e alterar sua governança;
• Princeton e Cornell sofrem ameaças de auditorias e cortes, além de campanhas públicas promovidas por figuras ligadas ao governo;
• A University of Pennsylvania está sendo investigada por supostas falhas no controle de manifestações.

Contudo, ao contrário de Harvard, muitas dessas instituições vêm adotando estratégias de autocensura e recuo, temendo o impacto financeiro da retaliação federal.



Um pacto possível: fundo de resistência universitária

A pergunta é inevitável: se Harvard consegue resistir graças à sua independência financeira, por que não criar um fundo interinstitucional que permita que outras universidades façam o mesmo?

A defesa da liberdade acadêmica não pode depender apenas de fundos bilionários individuais. É preciso um pacto de solidariedade entre instituições, que garanta proteção mútua em tempos de autoritarismo.



O silêncio das escolas de jornalismo

Um ponto sensível é o papel das universidades que formam jornalistas. Se instituições como a Columbia Journalism School, uma das mais respeitadas do mundo, não se posicionam diante de ataques à liberdade de expressão, que tipo de profissionais da informação estão formando?

E, mais profundamente: como podemos esperar resistência democrática de uma sociedade onde o pensamento crítico é disciplinado em vez de incentivado?



Conclusão

Harvard recusou-se a negociar sua autonomia. Preferiu enfrentar o governo a renunciar seus princípios. Isso é raro. É necessário. É um ato de coragem institucional.

Mas a luta não pode ser isolada. O que está em jogo é mais do que o financiamento de uma universidade — é o próprio conceito de liberdade em ambientes de formação cidadã.

Porque se a liberdade acadêmica não estiver segura em Harvard, não estará segura em lugar algum.

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Inglês:
The University That Said No: What Harvard’s Defiance of the Trump Administration Reveals About the Future of Academic Freedom

Harvard’s decision to push back against the Trump administration is more than an institutional dispute. It marks a critical moment in the defense of academic freedom and democratic values within higher education.

In the United States of 2025, as Donald Trump’s second term advances, the relationship between the federal government and elite universities has reached unprecedented tension. Harvard, with an endowment exceeding $50 billion, has chosen to stand its ground, refusing a series of demands from the White House. In retaliation, the federal government has frozen approximately $2.3 billion in research funding allocated to the university.

But what exactly is the Trump administration demanding — and what is at stake?



What Harvard Refuses to Comply With

The list of demands includes:
• Dismantling all Diversity, Equity and Inclusion (DEI) programs across its administration and academic departments;
• Restructuring admissions criteria to ban any consideration of race, nationality, or socioeconomic background;
• Suppressing pro-Palestinian protests on campus, with disciplinary actions against students;
• Banning the use of sanitary face masks, even for health-related reasons;
• Sharing information with immigration authorities (ICE) about international students;
• Revising curricula and academic research centers to reflect so-called “patriotic values” promoted by the current administration.

These demands represent a direct attempt to politicize higher education, violating First Amendment protections of freedom of speech, thought, and peaceful assembly.



Harvard’s Response

Under interim president Alan Garber, Harvard has taken a firm stand. It has hired prominent attorneys, including Robert Hur and William Burck, and is preparing a legal strategy to challenge the government in court.

The university’s resistance has gained public support from former U.S. presidents, intellectuals, and academic organizations, who view Harvard’s stance as a critical line of defense for democratic integrity.



The Domino Effect on Other Universities

Harvard is not alone in facing pressure. Other top-tier institutions are also experiencing backlash:
• Columbia University had $400 million in federal funding frozen, and has been instructed to suppress protests and overhaul its governance;
• Princeton and Cornell face audit threats and public smear campaigns driven by government allies;
• The University of Pennsylvania is under federal investigation, allegedly due to how it handled campus demonstrations.

However, many of these institutions have chosen self-censorship or compromise to preserve federal contracts and research grants.



A Necessary Proposal: A University Resistance Fund

If Harvard can resist because of its financial independence, what about the rest?

This moment calls for more than symbolic support. A joint resistance fund among universities could ensure that institutional autonomy is not reserved only for those with billion-dollar endowments. It’s time for a collective pact, not just isolated acts of courage.



What About Journalism Schools?

A critical question remains:
If world-renowned journalism schools like Columbia’s remain silent in the face of attacks on free expression, what kind of journalists are they training?

And what does that say about the future of democracy, if spaces meant to foster critical thinking begin to enforce ideological conformity?



Conclusion

Harvard refused to trade its freedom for federal funding. It chose principle over convenience — and that is rare, necessary, and inspiring.

But this battle cannot be fought alone. If academic freedom is at risk at Harvard, it is not safe anywhere.

What happens in the U.S. will echo globally. And if the academic world doesn’t stand together now, it may soon find itself unable to stand at all.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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