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Bastilha em Manhattan.

Por Valéria Monteiro.

Bastilha em Manhattan.

Imagem gerada por IA.

Enquanto Nova York brinda a Revolução Francesa com champanhe e croissants, uma antiga pergunta sobre privilégios continua desafiando as democracias modernas.


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No segundo domingo de julho, Madison Avenue deixa de parecer Manhattan.


Por algumas horas, transforma-se em Paris.


Barracas oferecem baguetes ainda quentes, macarons coloridos, queijos, vinhos, crepes, chocolates artesanais e pâtisseries. Restaurantes franceses preparam menus especiais. Músicos tocam canções francesas. Automóveis Citroën antigos dividem espaço com artistas de rua, oficinas de dança e milhares de visitantes que caminham entre bandeiras azul, branca e vermelha. Mais de cinquenta mil pessoas passaram pela celebração no ano passado, considerada a maior festa da Bastilha fora da França. (⁠Forbes)


É uma cena curiosa.


Os Estados Unidos nasceram antes da Revolução Francesa.


Mas poucas cidades celebram o 14 de Julho com tanto entusiasmo quanto Nova York.


À primeira vista, parece apenas uma festa gastronômica.


Na verdade, é muito mais do que isso.


Porque a Bastilha nunca foi apenas uma fortaleza.


Foi uma ideia.


O que exatamente está sendo celebrado?


É comum imaginar que o dia 14 de julho comemore a tomada de uma prisão.


Não é isso.


O que a França transformou em feriado nacional foi o nascimento de um princípio.


A ideia de que nenhum indivíduo deveria ocupar uma posição privilegiada perante o Estado apenas por seu nascimento, por seu título ou por pertencer a determinada família.


A Revolução Francesa não pretendia eliminar a riqueza.


Nem condenava o sucesso econômico.


Seu alvo era outro.


Os privilégios.


Privilégios fiscais.


Privilégios políticos.


Privilégios jurídicos.


Privilégios que colocavam determinados grupos acima das regras aplicadas aos demais.


Foi essa ruptura que alterou profundamente a história política do Ocidente.


Da aristocracia ao cidadão


Antes de 1789, a sociedade francesa estava organizada em ordens.


Clero.


Nobreza.


Terceiro Estado.


Cada grupo vivia sob direitos e deveres diferentes.


A igualdade perante a lei praticamente não existia.


A Revolução substituiu essa lógica por outra.


Não haveria mais súditos.


Haveria cidadãos.


Parece uma simples troca de palavras.


Na realidade, foi uma mudança de civilização.


A partir dali, a legitimidade do Estado passou, ao menos em teoria, a depender da igualdade jurídica entre aqueles que o compõem.


É um ideal que permanece incompleto.


Mas continua sendo um dos fundamentos das democracias constitucionais.


As Bastilhas mudam de forma


A fortaleza desapareceu.


As perguntas permaneceram.


Toda geração acaba construindo suas próprias Bastilhas.


Nem sempre elas são edifícios.


Às vezes são instituições.


Às vezes privilégios econômicos.


Às vezes relações excessivamente próximas entre poder político e interesses privados.


É justamente nesse ponto que a comemoração francesa encontra o debate americano contemporâneo.


Enquanto milhares de pessoas brindam, nas ruas de Manhattan, o fim dos privilégios aristocráticos do século XVIII, os Estados Unidos discutem uma questão que também diz respeito à igualdade republicana.


Até que ponto quem exerce o poder pode continuar ampliando seus interesses privados sem comprometer a confiança pública?


Essa pergunta não nasceu com Donald Trump.


Nem terminará com ele.


Mas ganhou nova intensidade durante seu segundo mandato.


O debate americano


Donald Trump retornou à Casa Branca preservando um império empresarial sem precedentes na história recente da Presidência americana.


Ao longo do mandato, estimativas independentes apontaram um crescimento expressivo de seu patrimônio, impulsionado principalmente pela valorização de participações empresariais e ativos ligados ao mercado de criptomoedas. Ao mesmo tempo, especialistas em ética pública, parlamentares e organizações de fiscalização passaram a discutir se a coexistência entre decisões presidenciais e interesses econômicos privados cria riscos de conflito de interesses, ainda que nem toda valorização patrimonial represente, por si só, uma irregularidade comprovada. (⁠Forbes)


Os defensores do presidente afirmam que sua fortuna decorre de investimentos legítimos e de sua habilidade empresarial.


Os críticos sustentam que a própria Presidência amplia o valor econômico da marca Trump e cria situações que desafiam o princípio da impessoalidade republicana.


São interpretações diferentes.


Mas ambas convergem para uma mesma pergunta.


Onde termina o mérito empresarial e onde começa o privilégio decorrente da proximidade com o poder?


É exatamente esse tipo de pergunta que a Revolução Francesa legou às democracias modernas.


Não para condenar previamente indivíduos.


Mas para exigir que as instituições sejam capazes de separar, de maneira transparente, o interesse público do interesse privado.


Uma festa sobre princípios

Talvez seja essa a maior ironia da Madison Avenue.

As pessoas chegam atraídas pelo champanhe.

Pelos croissants.

Pelos vinhos.

Pela música francesa.

Mas, sem perceber, caminham sobre a memória de uma das maiores transformações políticas da história.

A Bastilha caiu há mais de dois séculos.

As pedras desapareceram.

Os princípios permaneceram.

É por isso que o 14 de Julho continua sendo celebrado muito além das fronteiras da França.

Não porque tenha marcado a vitória de um povo sobre um rei.

Mas porque inaugurou uma pergunta que nenhuma democracia conseguiu abandonar.

Quem exerce o poder está submetido às mesmas regras que todos os demais?

Durante séculos, essa pergunta foi dirigida a reis.

Depois, a imperadores.

Mais tarde, a ditadores.

Hoje, ela alcança presidentes, primeiros-ministros, congressistas, juízes, empresários e qualquer pessoa cuja influência possa aproximar interesses privados do interesse público.

A resposta nunca é simples.

Nem deveria ser.

A democracia não exige que seus governantes sejam pobres.

Nem pune o sucesso econômico.

O que ela exige é algo mais difícil.

Que riqueza, influência e poder político convivam sob regras claras, transparentes e iguais para todos.

Essa talvez seja a verdadeira herança da Revolução Francesa.

Não a derrubada de uma fortaleza.

Mas a derrubada da ideia de que alguém possa ocupar uma posição acima das instituições.

Toda geração encontra sua própria Bastilha.

Algumas são feitas de pedra.

Outras de privilégios.

Outras de relações pouco transparentes entre poder e riqueza.

E talvez seja exatamente por isso que milhares de pessoas continuem brindando o 14 de Julho em Nova York.

Nem todas saibam.

Mas celebram uma ideia que continua desafiando o mundo.


Leia também 14 de Julho de 1789:


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Scroll down for English


Bastille in Manhattan.


As New York celebrates the French Revolution with champagne and croissants, one of its founding principles continues to challenge modern democracies.


Every July, a stretch of Madison Avenue briefly stops looking like Manhattan.

For a few hours, it becomes Paris.

Fresh baguettes, macarons, cheeses, wine, crêpes and pâtisseries fill the sidewalks. French restaurants offer special menus. Musicians perform chansons. Vintage Citroëns share the avenue with dancers, artists and tens of thousands of visitors celebrating Bastille Day.

It is a joyful festival.

But beneath the food and festivities lies a remarkable historical irony.

The United States—whose own Revolution helped inspire France—enthusiastically celebrates an event that forever transformed the political vocabulary of the modern world.

Because the Bastille was never simply a prison.

It became an idea.

What is really being celebrated?

The French national holiday does not commemorate the capture of a fortress.

It commemorates the birth of a principle.

The belief that no individual should enjoy political privilege merely because of birth, title or inherited status.

The French Revolution did not declare war on wealth.

Nor did it condemn commercial success.

Its target was privilege.

Political privilege.

Fiscal privilege.

Legal privilege.

The privilege of standing above the rules that governed everyone else.

That principle would become one of the foundations of constitutional democracy.

Every generation builds its own Bastille

The fortress disappeared.

The questions survived.

Every era constructs new Bastilles.

Some are institutions.

Some are economic structures.

Some emerge whenever political power and private interests become difficult to separate.

That is precisely where Bastille Day meets contemporary America.

As thousands celebrate the fall of aristocratic privilege in eighteenth-century France, the United States continues to debate an equally enduring republican question.

How should democracies manage the relationship between public office and private wealth?

The American debate

Donald Trump returned to the White House while maintaining a business empire unlike that of any recent American president.

Independent estimates indicate that his personal wealth has grown substantially during his current term, driven largely by the appreciation of business holdings and cryptocurrency-related assets. At the same time, ethics experts, lawmakers and watchdog organizations continue to debate whether the coexistence of presidential authority and extensive private financial interests creates conflicts that deserve closer public scrutiny.

Supporters argue that his fortune reflects legitimate business success.

Critics contend that the presidency itself may enhance the economic value of the Trump brand and blur the distinction between public responsibility and private gain.

Reasonable people disagree about those conclusions.

Yet both sides ultimately confront the same underlying question.

Where does entrepreneurial success end, and where does privilege associated with political power begin?

That question did not begin with Donald Trump.

Nor will it end with him.

It is, in many ways, the very question the French Revolution bequeathed to modern democracies.

A celebration of principles

Perhaps that is the greatest irony of Bastille Day in Manhattan.

People arrive for the champagne.

The croissants.

The music.

The atmosphere.

Without realizing it, they are celebrating one of history’s most enduring democratic ideas.

The Bastille fell more than two centuries ago.

Its stones vanished.

Its principles did not.

That is why July 14 continues to resonate far beyond France.

Not because it commemorates the victory of one people over one king.

But because it asks a question that every democracy must answer again and again.

Are those who govern subject to the same rules as everyone else?

For centuries that question confronted monarchs.

Later it challenged emperors.

Then dictators.

Today it reaches presidents, prime ministers, legislators, judges, billionaires and anyone whose public authority intersects with private interests.

Democracy does not demand that its leaders be poor.

Nor does it punish legitimate prosperity.

It asks something far more demanding.

That wealth, influence and political power remain accountable to transparent institutions and equal rules.

That is the true legacy of the French Revolution.

Not the destruction of a fortress.

But the rejection of the idea that anyone should stand above the institutions that govern us all.

Every generation finds its own Bastille.

Some are built of stone.

Others are built of privilege.

And perhaps that is why, every July, Manhattan continues to raise a glass to Paris.


Read also 14 de Julho de 1789:

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

14 de jul. de 2026

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