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BRICS e a encruzilhada brasileira:

Autonomia ou contradição?

BRICS e a encruzilhada brasileira:

Enquanto o Brasil sediava, no Rio de Janeiro, uma cúpula estratégica dos BRICS — marcada por avanços institucionais e pela ausência física de Xi Jinping e Vladimir Putin — o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conseguiu sequestrar parte da atenção global com duas postagens em sua própria rede, a Truth Social. Nelas, ameaçou aumentar em 10% as tarifas para qualquer país que aderisse ao bloco e ainda comentou sobre Jair Bolsonaro, afirmando que “deixem-no em paz”.

Lula respondeu com firmeza retórica:

“Este país tem dono. E o dono é o povo brasileiro.”
“Não queremos imperadores.”

A frase reverberou — mas não bastou para conter o desvio da atenção pública. O gesto de Trump revelou como a velha lógica imperial, agora travestida de populismo digital, ainda domina o campo simbólico da política internacional. Num mundo onde uma ameaça em rede social vale mais que um tratado assinado, os BRICS enfrentam um desafio maior do que o econômico: precisam disputar também a narrativa.



Avanços reais — e incômodos inevitáveis

Não há como negar que os BRICS oferecem vantagens concretas ao Brasil:
• Autonomia financeira, com o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que oferece crédito com menos condicionalidades que o FMI ou Banco Mundial.
• Diversificação comercial e geopolítica, reduzindo a dependência de mercados ocidentais e ampliando laços com o Sul Global.
• Protagonismo ambiental, especialmente com a COP30 no horizonte e a Amazônia no centro do debate climático.

Esses ganhos recolocam o Brasil como ator relevante em uma nova ordem internacional. Mas nenhum avanço diplomático resiste à contradição interna não enfrentada.



A floresta que ficou de fora

Durante toda a cúpula, Lula falou de justiça climática, da responsabilidade histórica dos países ricos e da necessidade de reequilibrar o multilateralismo. Mas não disse uma palavra sobre o plano de exploração de petróleo na Margem Equatorial da Amazônia, justamente quando o Brasil tenta se afirmar como líder da transição energética.

Como liderar um futuro verde autorizando a perfuração na foz do Amazonas?
Como exigir compromissos ambientais globais se ignoramos os alertas da ciência nacional e os pareceres técnicos do IBAMA?

Esse silêncio compromete a autoridade moral do Brasil no debate climático. E desmonta a credibilidade que o país tenta construir para a COP30.



Democracia em suspensão

Ao ser questionado sobre como conciliar os valores de paz e democracia com a presença de Rússia, Irã, China e Arábia Saudita no bloco, Lula respondeu:

“Ninguém exige atestado de democracia para fazer parte da ONU, do FMI ou do G7.”

A frase é tecnicamente correta — mas politicamente insuficiente.
Se os BRICS querem ser diferentes dos blocos tradicionais, não podem repetir seus vícios. O Brasil não precisa ser o tutor moral do mundo. Mas tampouco pode se calar diante de violações sistemáticas de direitos humanos por parceiros estratégicos.



Trump e Lula: coerência sob medida

A ironia deste momento é que, embora em lados opostos do espectro político, Trump e Lula compartilham uma mesma prática: a coerência seletiva.

Trump, que se apresenta como guardião da democracia ocidental, ataca os BRICS, mas defende Bolsonaro, mesmo após os ataques às instituições brasileiras. Ignora o próprio 6 de janeiro e apoia líderes autoritários desde que alinhem-se a sua pauta.

Lula, por sua vez, fala em nome da paz e da justiça climática, mas evita criticar Putin, o Irã ou a Arábia Saudita — e se cala sobre a perfuração de petróleo na Amazônia.

Trump grita onde lhe convém.
Lula se cala onde lhe é desconfortável.
Ambos transformam valores universais em instrumentos táticos.

A diferença é que Lula ainda tem capital político e moral para corrigir esse curso — se quiser. Mas isso exige mais do que frases de efeito: exige coragem para romper alianças, desagradar setores e, principalmente, sair do palanque.



Coragem ou cálculo?

Enfrentar Trump não é simples. O Brasil ainda é beneficiado por uma das menores tarifas de exportação para os EUA. A proposta de comercialização em moedas alternativas ao dólar, embora simbolicamente importante, ainda é um esboço em fase inicial.

Reagir com bravatas pode ser interpretado como coragem — ou como imprudência.

Mas é exatamente por isso que o que se espera de um líder como Lula não é heroísmo nem submissão, e sim clareza e coerência.
Se calar diante dos EUA por cálculo geopolítico pode ser compreensível.
O que fragiliza o discurso é calar diante de aliados autoritários pelos mesmos motivos.

O Brasil precisa parar de confundir pragmatismo com cumplicidade.



A escolha diante da encruzilhada

Lula fala como quem ainda está em campanha.
Mas governa como quem evita enfrentar os desconfortos do poder.

Não basta denunciar o imperialismo do dólar.
O Brasil precisa também escolher com coragem seus compromissos internos — especialmente quando se trata da Amazônia, da democracia e da ética diplomática.

Estar nos BRICS é uma oportunidade. Mas não pode ser um álibi.
Soberania se exerce para fora.
Mas se prova — aqui dentro.



Valéria Monteiro
Jornalista, defensora de uma política externa soberana, ambientalmente comprometida e democrática sem concessões.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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