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Etiqueta e Poder:

A Graciosidade Britânica e o Desajeito Americano.

Etiqueta e Poder:

A diplomacia é um jogo de sutilezas, e poucos a dominam tão bem quanto os britânicos. O recente encontro entre o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Keir Starmer, e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky — apenas um dia após o ex-presidente Donald Trump e sua linha dura republicana o terem virtualmente descartado — foi um verdadeiro tapa de luva de pelica. Uma demonstração de savoir-faire, graciosidade e refinamento que contrapõe a etiqueta monárquica britânica ao estilo frequentemente brusco e desajeitado dos Estados Unidos na política externa.

Os britânicos, herdeiros de uma tradição secular de cortesias e nuances palacianas, entendem que a elegância não está apenas nas palavras, mas também nas atitudes. O primeiro-ministro britânico poderia ter mantido distância ou evitado a proximidade com Zelensky, mas optou por um gesto que ecoa uma longa história de alianças e simbolismos. Starmer exaltou a importância da Ucrânia e dos ucranianos, reforçando a aliança com o país e destacando a necessidade de uma paz permanente. No tabuleiro do poder, os gestos valem tanto quanto as palavras, e a imagem do estadista britânico acolhendo o líder ucraniano foi um claro recado ao mundo: a diplomacia britânica ainda preserva seu toque de classe.

Por outro lado, os Estados Unidos, com sua abordagem direta e muitas vezes ruidosa, carecem desse refinamento histórico. Trump, em particular, sempre desprezou a sutileza em favor do impacto imediato, um estilo que muitas vezes transborda para a diplomacia norte-americana como um todo. A decisão de se afastar de Zelensky, por mais pragmática que fosse, transmitiu uma imagem de descaso que os britânicos souberam capitalizar com habilidade.

Mais do que isso, a brutalidade que caracteriza este governo Trump, guiado por negociações baseadas na intimidação e em interesses puramente econômicos, pode levar a um risco muito maior do que o republicano acusa Zelensky de representar. Ao descartar a diplomacia e agir com arrogância no tabuleiro global, Trump faz uma aposta arriscada que pode, de fato, levar a um conflito expandido de proporções mundiais.

A diferença fundamental entre essas posturas não é apenas uma questão de estilo, mas de cultura política. Enquanto os EUA adotam uma abordagem pragmática e utilitarista, onde alianças podem ser descartadas ao sabor dos ventos eleitorais, o Reino Unido ainda se ancora em um código de tradição, onde a diplomacia carrega nuances que vão além do imediato.

No final das contas, esse episódio revela uma grande verdade: a política internacional não é apenas sobre força, mas também sobre forma. E se os Estados Unidos querem realmente dominar esse jogo, talvez precisem aprender uma lição com a velha coroa britânica sobre o poder da etiqueta.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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