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Irã nuclear,

Netanyahu encurralado e o teatro onde ninguém é inocente.

Irã nuclear,

Uma guerra declarada como contenção, conduzida como sobrevivência e legitimada como prevenção.

Benjamin Netanyahu prometeu uma guerra com hora para acabar: duas semanas de bombardeios, dissuasão restaurada, vitória estratégica. Mas a realidade que emergiu dos primeiros dias de conflito com o Irã desmontou o plano narrativo. Mísseis iranianos caíram sobre Tel Aviv, atingindo edifícios residenciais, uma estação de energia, e deixando civis feridos. O Irã respondeu com precisão e velocidade, substituindo líderes militares mortos nos primeiros ataques e sinalizando que não seria apenas um alvo — mas um ator central e resiliente.
Diferente de Gaza ou das guerras assimétricas recentes, este confronto assume contornos mais estatais, frontais e estratégicos. Mas seu cerne não está na superfície do confronto militar: está na tentativa de impedir que o Irã complete seu programa nuclear — e no uso dessa ameaça como justificativa para um novo ciclo de violência.
O fantasma do Irã nuclear
A ideia de um Irã teocrático e armado nuclearmente sempre foi a linha vermelha para Israel. Para além do discurso oficial, essa é a obsessão geopolítica que estrutura toda a política de segurança israelense: impedir que Teerã atinja o “ponto sem retorno”.
Essa ameaça — real, potencial ou politicamente útil — também serve como moeda de convencimento no cenário internacional. Mesmo países que criticam o método de Netanyahu reconhecem o temor de uma potência nuclear fora do eixo ocidental, governada por um regime religioso e hostil à presença americana na região. A retórica da contenção ganha, assim, ares de missão civilizatória.
Mas se o argumento é antigo, o momento político é novo. O avanço do programa nuclear iraniano, a fragilidade interna do governo de Netanyahu e a reeleição de Donald Trump como presidente dos EUA criam um tripé de tensão e oportunidade. Netanyahu precisa de uma vitória militar para preservar sua base e sufocar seus escândalos internos; Trump prefere uma guerra que não lhe pertença, mas que desestabilize seus adversários e fortaleça sua retórica de autoridade.
Guerra híbrida, retórica dividida
O governo dos Estados Unidos insiste: não está envolvido. Trump, reeleito com um discurso ostensivamente anti-guerra, afirma que os americanos “nada têm a ver com isso”. Mas os fatos contradizem a fala. O compartilhamento de inteligência com Israel, os elogios públicos ao ataque como “bem feito” e a previsão de um “grande conflito” dias antes da ofensiva revelam um grau de envolvimento difícil de disfarçar.
A operação se encaixa num modelo já conhecido: os Estados Unidos influenciam, financiam, armam — mas não sangram. Israel age como ponta de lança. A guerra é local, mas suas causas e efeitos são globais. Nesse contexto, os EUA se beneficiam do prolongamento do conflito, não apenas como forma de contenção ao Irã, mas como instrumento de manutenção de sua hegemonia indireta sobre a região.
A pergunta que se impõe: como um presidente eleito com a promessa de evitar novas guerras pode estar, silenciosamente, instrumentalizando uma? Talvez justamente por isso: o silêncio. Não há tropas americanas envolvidas. Há, em vez disso, uma narrativa pública de recuo e uma prática subterrânea de incentivo. A guerra, negada em palavras, é real em efeitos.
Não o fim, mas a radicalização da guerra por procuração
A princípio, parecia que a guerra entre Israel e Irã encerraria a era das guerras por procuração. Afinal, são dois Estados em confronto direto. Mas a análise mais atenta revela o contrário: essa guerra não supera a lógica da procuração — ela a radicaliza.
O Irã continua operando através de seus aliados: Hezbollah, Houthis, milícias xiitas. Usa seus braços como escudo e como ataque. Israel, por sua vez, atua com suporte estratégico dos Estados Unidos. Ambos os lados recorrem a instrumentos indiretos enquanto simulam confronto aberto.
O que há de novo é o grau de transparência com que essas peças se movem. A guerra por procuração já não se esconde — ela se mistura à guerra direta, transformando o campo de batalha numa rede complexa, onde o inimigo é múltiplo, a retórica é moral e os interesses são calculados.
Todos têm algo a ganhar — e a perder
Essa não é uma guerra apenas de Netanyahu, embora sirva perfeitamente ao seu projeto de sobrevivência política. Também não é uma guerra só de Israel, ainda que ocorra em seu território. É uma guerra útil para os Estados Unidos, que preferem influenciar sem assumir. E é uma guerra existencial para o Irã, que a enfrenta como ameaça à sua soberania e ao seu futuro geopolítico.
Cada ator desempenha seu papel num teatro onde a moral é performática e a estratégia é real. A ameaça nuclear fornece o pano de fundo perfeito: justifica ações extremas, silencia objeções diplomáticas e abre espaço para alianças táticas que ninguém quer admitir.
No teatro geopolítico de 2025, ninguém é inocente. E o relógio atômico — aquele que mede a proximidade simbólica do colapso — não parou. Ele avança, silencioso, sob o som das sirenes.

Inglês:
Nuclear Iran, Netanyahu Cornered, and the Theater Where No One Is Innocent.

A war declared as containment, conducted for survival, and justified as prevention.
Benjamin Netanyahu promised a war with an expiration date: two weeks of bombings, deterrence restored, strategic victory. But reality unraveled the narrative. Iranian missiles struck Tel Aviv, hitting residential buildings and a power station, leaving civilians injured. Iran responded swiftly and precisely, replacing military leaders killed in the first Israeli attacks and signaling it would not just be a target — it would be a central, resilient actor.
Unlike Gaza or recent asymmetric wars, this confrontation takes on the contours of a more direct, strategic, state-level conflict. But its core is not on the surface of military maneuvers: it lies in the effort to prevent Iran from completing its nuclear program — and in the use of that threat as justification for a new cycle of violence.
The specter of a nuclear Iran
The idea of a nuclear-armed, theocratic Iran has always been Israel’s red line. Beyond the official rhetoric, it is the geopolitical obsession that underpins its entire national security doctrine: preventing Tehran from reaching the “point of no return.”
This threat — real, potential, or politically useful — also serves as diplomatic currency. Even countries that criticize Netanyahu’s methods acknowledge the fear of a nuclear power outside the Western axis, governed by a religious regime hostile to American influence in the region. The rhetoric of containment gains a tone of civilizational mission.
But if the argument is old, the political moment is new. The advance of Iran’s nuclear program, Netanyahu’s domestic fragility, and Donald Trump’s re-election as U.S. president create a tripod of tension and opportunity. Netanyahu seeks a military victory to preserve his base and silence his scandals; Trump prefers a war he doesn’t have to fight — one that destabilizes rivals and bolsters his image of strength.
Hybrid warfare, divided rhetoric
The U.S. government insists: it is not involved. Trump, re-elected on an overtly anti-war platform, claims that America “has nothing to do with it.” But facts contradict the speech. Intelligence sharing with Israel, public praise for the Israeli strike as “well done,” and the pre-emptive warning of a “major conflict” reveal a degree of involvement hard to disguise.
The operation follows a familiar script: the United States influences, funds, arms — but does not bleed. Israel acts as the tip of the spear. The war is local, but its causes and consequences are global. In this context, the U.S. benefits from the conflict’s prolongation — not only as a means of containing Iran but as a tool to maintain its indirect dominance in the region.
Which raises the inevitable question: how can a president elected to avoid new wars be silently instrumentalizing one? Perhaps precisely because of that: the silence. No American troops are involved. Instead, there is a public narrative of detachment and a subterranean practice of encouragement. A war denied in words, but real in its effects.
Not the end, but the radicalization of proxy warfare
At first glance, the Israel-Iran war seemed to mark the end of the era of proxy wars. After all, these are two states in direct confrontation. But a closer look reveals the opposite: this war doesn’t transcend the logic of proxy — it deepens it.
Iran still operates through its allies: Hezbollah, the Houthis, Shiite militias. It uses its regional arms both as shield and sword. Israel, meanwhile, acts with U.S. strategic backing. Both sides continue to rely on indirect instruments while staging an open conflict.
What’s new is the transparency with which these pieces now move. Proxy war no longer hides — it merges with direct war, transforming the battlefield into a complex web where the enemy is plural, the rhetoric is moral, and the interests are calculated.
Everyone has something to gain — and to lose
This is not only Netanyahu’s war, although it perfectly serves his political survival. Nor is it just Israel’s war, though it unfolds on its soil. It’s a useful war for the United States, which prefers to influence without taking full responsibility. And it’s an existential war for Iran, which sees it as a threat to its sovereignty and its geopolitical future.
Each actor plays their role in a theater where morality is performative, and strategy is real. The nuclear threat provides the perfect backdrop: it justifies extreme actions, silences diplomatic objections, and enables tactical alliances no one dares to admit.
In the geopolitical theater of 2025, no one is innocent.
And the atomic clock — the one that symbolically measures our proximity to collapse — hasn’t stopped.
It ticks forward, silently, beneath the sound of sirens.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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