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A cidade símbolo do capitalismo global pode estar prestes a eleger seu primeiro prefeito anticapitalista.
Por Valéria Monteiro.

Quando Nova York deixa de ser vitrine do capital e se propõe a redistribuí-lo.
Com a surpreendente vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas, a cidade mais rica — e mais simbólica — dos Estados Unidos ensaia um novo papel: o de laboratório de justiça social.
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Nova York nunca foi apenas uma cidade. Foi (e ainda é) uma linguagem global: estética, política e econômica. Tudo o que acontece ali reverbera: na moda, na arquitetura, na mídia e na política de dezenas de outras metrópoles ocidentais. Se o capitalismo teve uma capital cultural, foi ela.
Mas agora, essa mesma cidade sinaliza uma reviravolta inesperada.
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Quem é Zohran Mamdani?
Filho de imigrantes, criado no Queens, muçulmano, rapper ocasional e organizador comunitário, Zohran Mamdani tem 33 anos e atua como deputado estadual por Astoria desde 2021.
Membro do DSA (Democratic Socialists of America), defende abertamente políticas de redistribuição de riqueza, moradia acessível, transporte público gratuito e um novo pacto urbano. E não esconde sua posição:
“Não. Tenho muitas críticas ao capitalismo. Nas palavras de Martin Luther King: ‘Chame de democracia ou chame de socialismo democrático; deve haver uma melhor distribuição da riqueza para todos os filhos de Deus neste país.’”
Essa resposta, dada à CNN ao vivo, não só rompe com décadas de prudência retórica dentro do Partido Democrata, como marca o início de algo inédito: um discurso anticapitalista com real chance de governo institucional nos EUA.
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A ruptura que vem sendo preparada
A emergência de Mamdani não é um raio em céu azul. É o fruto de um desgaste contínuo, iniciado com Bernie Sanders, nas prévias presidenciais de 2016 e 2020, e depois institucionalizado por Alexandria Ocasio-Cortez, eleita ao Congresso aos 28 anos.
Sanders quebrou o tabu. AOC construiu a ponte. Mamdani agora tenta atravessá-la como gestor — não mais como exceção, mas como alternativa.
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A cidade que espalhou a gentrificação ensaia a redistribuição
Durante décadas, Nova York exportou a gentrificação como ideologia. A cidade virou referência de “revitalização”, “modernização” e “valorização” — quase sempre à custa de expulsões, vigilância e precarização dos que a sustentavam.
Com Trump — promotor imobiliário antes de tudo — essa estética virou política federal. E hoje, vemos essa mesma lógica sendo encenada em Gaza, onde propostas de reconstrução repetem os eufemismos da gentrificação: segurança, infraestrutura, requalificação — sobre escombros ainda fumegantes.
Nesse contexto, Mamdani propõe o avesso:
Uma cidade onde não se valoriza o metro quadrado, mas a permanência de quem sempre esteve ali.
Uma cidade que não expulsa, mas repara.
Uma cidade onde política urbana deixa de ser instrumento de lucro — e volta a ser forma de cuidado.
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E se for por Nova York que começar a reviravolta?
O que está em jogo não é apenas uma prefeitura. É o fim do silêncio forçado em torno de alternativas ao capital.
Nos EUA, criticar o capitalismo sempre foi tratado como heresia — e mesmo dentro do Partido Democrata, os limites foram claros. Até agora.
Se Zohran Mamdani vencer a prefeitura, será o primeiro grande teste executivo da nova esquerda americana. Mas o sinal já está dado: há respaldo popular, há linguagem articulada, há desejo de mudança.
E talvez, como sempre, se for possível em Nova York… seja possível em qualquer lugar.
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🗽 Nova York nunca foi apenas um espelho do presente.
Talvez esteja, agora, se tornando um prenúncio de futuro.
It’s up to you, New York.
Agora é com você.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
19 de jan. de 2026

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