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O império dos segredos:
Trump, Epstein e o colapso de um estilo de poder.

Em julho de 2025, uma carta até então desconhecida reapareceu como um artefato explosivo da história recente dos Estados Unidos. Publicada pelo Wall Street Journal, o bilhete de aniversário enviado por Donald Trump a Jeffrey Epstein em 2003 foi incluído em um álbum comemorativo organizado por Ghislaine Maxwell — cúmplice de Epstein, hoje condenada por tráfico sexual de menores. Além de um desenho de uma mulher nua, onde Trump assinou sob a genitália da figura, a mensagem continha três frases reveladoras:
“A pal is a wonderful thing. Happy Birthday—and may every day be another wonderful secret.”
“Um amigo é algo maravilhoso. Feliz aniversário — e que cada dia seja outro segredo maravilhoso.”
“My best to you and your family — from one showman to another.”
“O melhor para você e sua família — de um showman para outro.”
“May you have everything you want and more.”
“Que você tenha tudo o que deseja e mais.”
Trump negou ter escrito a carta, acusou o WSJ e Rupert Murdoch de difamação e abriu um processo de US$ 20 bilhões. Mas a carta reacendeu algo maior que uma disputa judicial: um movimento de ruptura dentro do próprio ecossistema que sustentou sua ascensão — agora corroído por dentro.
A publicação veio cerca de um mês após um rompimento público com Elon Musk, que anteriormente havia sido nomeado por Trump como conselheiro de inovação no Departamento de Justiça. Em resposta às pressões, Trump recorreu ao DOJ para solicitar a liberação de documentos “procedentes” do caso Epstein. Mas a opinião pública — e parte da base trumpista — exige mais. Quer tudo. Não apenas o que for conveniente.
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O glamour como fachada
A ligação entre Trump e Epstein é antiga, documentada e cercada por contradições. Frequentaram os mesmos círculos em Palm Beach e Manhattan. Estiveram lado a lado em festas e eventos sociais. Em entrevista de 2002 à New York Magazine, Trump declarou:
“I’ve known Jeff for fifteen years. Terrific guy. He’s a lot of fun to be with. It is even said that he likes beautiful women as much as I do, and many of them are on the younger side.”
“Conheço Jeff há quinze anos. Cara sensacional. É muito divertido estar com ele. Até dizem que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu — e muitas delas são bem jovens.”
À época, soava irreverente. Hoje, parece um sinal de alerta ignorado. Trump afirma ter cortado relações com Epstein em 2004, mas nunca explicou publicamente os motivos. O advogado Brad Edwards, que representou diversas vítimas, afirmou que Epstein teria assediado a filha de um funcionário do clube Mar-a-Lago. Trump nunca confirmou. E o afastamento coincide com o ano seguinte ao da carta agora revelada.
Além da amizade, havia sinergias de estilo de vida. Trump era dono de concursos de beleza — incluindo o Miss Universo — e próximo de executivos da Elite Models, agência citada em investigações sobre recrutamento de jovens para o circuito de luxo. Epstein, por sua vez, se apresentava como consultor de grandes fortunas, mas operava uma rede internacional de exploração sexual travestida de exclusividade e requinte. Ambos viam no glamour um palco e uma proteção.
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O elo entre poder e chantagem
Jeffrey Epstein já era conhecido do FBI por seu comportamento predatório muito antes da primeira prisão, em 2008. Acordos judiciais controversos — como o firmado com o promotor Alexander Acosta (que viria a ser secretário do Trabalho de Trump) — o blindaram por anos. Quando finalmente foi detido novamente, em 2019, morreu sob circunstâncias ainda nebulosas.
Câmeras desligadas. Guardas ausentes. Fraturas no pescoço apontadas por peritos independentes como mais compatíveis com estrangulamento do que com enforcamento. Oficialmente, suicídio. Mas ninguém realmente acredita.
Segundo registros, Epstein mantinha câmeras ocultas em várias de suas propriedades, e há indícios de que usava gravações comprometedoras como forma de chantagem — um modelo que se assemelha ao de Roy Cohn, o advogado mafioso que ensinou Trump a nunca recuar, sempre atacar e manter seus inimigos sob controle psicológico.
📝 Roy Cohn foi conselheiro do senador Joseph McCarthy durante o macarthismo nos anos 1950, responsável por perseguições ideológicas na Guerra Fria. Nos anos 70 e 80, atuou como advogado de mafiosos e mentor informal de Trump, com quem cultivava uma relação baseada em lealdade, intimidação e impunidade. Seu legado está impresso em “The Art of the Deal” (1987), livro que moldou a persona pública de Trump um ano após a morte de Cohn.
Dizer que Epstein substituiu Cohn seria precipitado. Mas os métodos têm paralelos. Se Cohn era o arquiteto da chantagem política, Epstein foi o encenador do charme perverso — e do controle por meio da sedução e do segredo.
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Quando a máscara cai
A morte de Epstein teve consequências. O príncipe Andrew perdeu suas funções reais. A separação de Bill e Melinda Gates teria sido catalisada por encontros entre Gates e Epstein — negados por um, mas registrados por testemunhas. Harvey Weinstein, embora não ligado diretamente a Epstein, acabou simbolizando a cultura de abuso revelada pelo #MeToo, movimento que se espalhou como reação ao sistema que protegia homens influentes. Agora, Sean “Diddy” Combs, também ícone dos anos 90, está preso por múltiplas acusações de abuso sexual e tráfico humano.
Não seriam todos episódios isolados, mas partes de uma engrenagem. Um ecossistema onde poder político, mídia, finanças e entretenimento construíram um “estilo de vida” que naturalizava o acesso a corpos, à impunidade e ao silêncio.
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A implosão do que se pretendia inabalável
Com o rompimento com Musk e a exposição pública da carta, o que era implícito se tornou gritante. A base do movimento MAGA, que construiu Trump como justiceiro das elites corruptas, começa a se deparar com contradições insustentáveis. O próprio Trump os chamou de “idiotas” por insistirem em respostas que ele prefere não dar.
Trump já sobreviveu a uma gravação onde dizia que, por ser famoso, podia “grab them by the pussy”. Sobreviveu a uma condenação civil por estupro. Mas o caso Epstein, agora reacendido, tem um componente diferente: o risco de que mais nomes venham à tona, inclusive o dele, em meio a provas e testemunhos que ainda estão sob sigilo — protegidos por um grande júri (grand jury, nos EUA, é um painel de cidadãos convocados para decidir se há elementos suficientes para levar um caso a julgamento).
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E se tudo for mesmo revelado?
A maioria dos americanos deseja transparência total. E não apenas o que Trump pediu ao DOJ, pressionado pela repercussão. Se vierem à luz os registros integrais — vídeos, listas de convidados, mensagens privadas — o impacto pode ir além da política.
Trump sempre soube que o segredo era uma arma. Mas também pode ser o pavio.
Resta uma pergunta:
Quantos impérios ruirão se o caso Epstein for totalmente revelado?

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
19 de jan. de 2026

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