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O populismo do quase como técnica de poder.

Por Valéria Monteiro.

O populismo do quase como técnica de poder.

Se Donald Trump tivesse um brasão, nele estaria gravada a frase: Give me two weeks.
É seu latim de guerra. Seu feitiço. Sua forma preferida de exercer o poder sem, de fato, exercê-lo. Tudo está sempre prestes a acontecer — só não agora. Sempre em duas semanas.

O bordão se transformou em método. Para qualquer questão delicada — planos de saúde, alianças internacionais, escolha de vice, processos judiciais, paz no Oriente Médio, apoio à Ucrânia — a resposta é sempre a mesma: “aguardem duas semanas”. E, invariavelmente, nada acontece no prazo prometido.

Esse adiamento constante não é amadorismo, nem hesitação. É cálculo.
Trump não posterga porque não sabe. Ele posterga porque sabe exatamente o efeito que o vácuo produz.

Ao manter tudo em estado de suspensão, Trump mantém também o controle da narrativa. Enquanto não se decide, ninguém pode criticá-lo por decisões erradas. O adiamento desarma o tempo presente. Tudo o que resta é a expectativa. O agora vira sala de espera.

Essa estratégia é mais poderosa do que parece.
Ela retira do debate político o chão da urgência. O presente vira apenas um corredor estreito entre o que se promete e o que se insinua. E o eleitorado — imprensa, aliados, opositores — entra nesse jogo como refém do tempo do outro. Quem espera por uma decisão que nunca chega não age. Apenas assiste.

Mas do lado de fora desse teatro de adiamentos, o mundo não para.
Em duas semanas, uma guerra se reinventa. Em duas semanas, cidades desaparecem sob fogo, água, ou mapas redesenhados. Em duas semanas, um tratado pode se romper — ou uma faísca se transformar em conflito aberto. O tempo, na política internacional, não é um luxo: é um campo de batalha.

Enquanto Trump diz que “está quase”, bombardeiros B-2 americanos — os únicos capazes de carregar ogivas que destruiriam instalações nucleares subterrâneas no Irã — foram enviados para Guam, no Pacífico. E não tão discretamente assim. Essa movimentação, visível e pensada para ser notada, envia um recado claro a Teerã, a Moscou, a Pequim. A linguagem da dissuasão se faz com imagens, não promessas.

Ou seja: enquanto a promessa de decisão é adiada, o braço militar já age como se a decisão tivesse sido tomada. A política do “em breve” protege o real que já está em curso. O tempo prometido encobre o tempo operacional.

E aqui se revela o cerne da técnica:
Trump quase nunca cumpre o que promete no tempo que promete — mas quase sempre alcança o que quer; se manter no poder cada mais absoluto. Ele não abandona objetivos. Apenas os empurra até que pareçam inevitáveis. A demora constrói a narrativa. O quase se transforma em vitória, não apesar do adiamento, mas graças a ele.

Adiar, nesse caso, não é hesitar.
É dominar.
É vencer no tempo próprio, enquanto os outros esperam no tempo errado.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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