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O Secretário de Guerra e os Fariseus.

Como Pete Hegseth transformou o púlpito do Pentágono em teologia de combate contra a imprensa.

O Secretário de Guerra e os Fariseus.

Foto: Wikipédia.

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Pete Hegseth terminou seu briefing de guerra desta manhã sem análise estratégica, sem números de baixas, sem avaliação do impasse no Estreito de Ormuz. Terminou com um sermão.


E não metaforicamente.


O secretário de Defesa dos Estados Unidos — que já chegou a se referir ao próprio Departamento de Defesa como “Departamento de Guerra” — contou aos jornalistas presentes no Pentágono que, no domingo anterior, estava sentado na igreja com a família quando o pastor pregou a partir do capítulo 3 do Evangelho de Marcos. Jesus entra numa sinagoga. Cura um homem. Os fariseus observam, tomam notas, buscam o erro.


“Eu me sentei na igreja e pensei — nossa imprensa é exatamente como esses fariseus.”


O responsável pelo maior aparato militar do planeta acaba de comparar jornalistas americanos — que cobrem uma guerra não declarada, mortes de soldados e decisões estratégicas opacas — aos antagonistas teológicos de Jesus Cristo.



A anatomia do sermão


O discurso de Hegseth merece leitura clínica. É um documento político de rara densidade retórica.


Começa com uma ameaça direta ao Irã — tom de comando, vocabulário de autoridade. Passa por um elogio ritual ao presidente. E então chega ao ponto de maior intensidade: o ataque à imprensa.


“Às vezes é difícil perceber de que lado alguns de vocês estão. É incrivelmente antipatriótico.”


O enquadramento é calculado. Cobrir a guerra criticamente torna-se antipatriótico. No vocabulário da guerra, o que deixa de ser interlocutor passa a ser tratado como alvo. Hegseth aplicou o mesmo raciocínio semanas atrás ao criticar a cobertura de mortes de soldados americanos no contexto da escalada com o Irã, sugerindo que noticiar baixas funcionaria como tentativa deliberada de “fazer o presidente parecer mal”. A morte do soldado convertida em instrumento narrativo — essa é a lógica que sustenta o argumento. O registro do custo humano da guerra reclassificado como má-fé política.


Em seguida, a escalada. A Bíblia não aparece como referência — aparece como ferramenta.


“Os fariseus […] estavam lá para testemunhar, para escrever tudo, para reportar. Mas seus corações estavam endurecidos. Mesmo testemunhando um milagre, não importava.”


E a conclusão:


“Os corações endurecidos da nossa imprensa estão calibrados apenas para difamar.”



O que esse movimento faz, exatamente


Comparar a imprensa a fariseus é uma operação retórica em três movimentos.


I. Sacraliza o poder.

Se os jornalistas ocupam o papel dos fariseus, a estrutura narrativa sugere, por implicação, quem ocupa o lugar do agente do milagre. Trump já publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece com vestes sacerdotais, cercado por figuras em adoração. Ao ser criticado, atribuiu a controvérsia à “fake news”. O terreno estava preparado; Hegseth apenas entrou nele.


II. Transforma o escrutínio em falha de caráter.

O debate sai do plano dos fatos e se desloca para o campo da virtude. Questionar operações militares, decisões estratégicas ou o custo humano da guerra passa a ser interpretado como incapacidade moral de reconhecer o bem. A crítica deixa de ser analisada; passa a ser julgada. A apresentação de evidências reforça, nesse enquadramento, a própria acusação de cegueira.


III. Ativa uma tradição interpretativa historicamente carregada.

Durante séculos, a leitura dos fariseus como figuras de hipocrisia alimentou hostilidades que ultrapassaram o debate teológico. A Nostra Aetate, documento do Concílio Vaticano II de 1965, representou um esforço deliberado para corrigir essa distorção — reconhecendo que interpretações simplificadas dos textos do Novo Testamento haviam servido para sustentar preconceitos contra judeus. Mobilizar essa imagem hoje como insulto moral significa, no mínimo, ignorar o peso histórico que ela carrega.



Um Pentágono que prega


O discurso não surge no vazio.


Hegseth pertence ao Communion of Reformed Evangelical Churches, denominação frequentemente associada a correntes do Reconstrucionismo Cristão — visão que defende a aplicação de princípios bíblicos a múltiplas esferas da vida pública e privada.


Quando essa linguagem chega ao Pentágono, o efeito é direto: decisões estratégicas passam a ser narradas como expressões de alinhamento moral. Em culto realizado no próprio Pentágono, segundo relatos públicos, Hegseth orou para que Deus concedesse às tropas “violência avassaladora de ação contra aqueles que não merecem misericórdia.” Em Nashville, declarou políticas de imigração como “não políticas, mas bíblicas” e encerrou com “Cristo é rei.” O Departamento de Defesa sob seu comando chegou a produzir vídeos com referências bíblicas sobrepostas a imagens de tanques e mísseis. Hegseth tatuou símbolos associados a imaginários cruzadistas, incluindo “Deus Vult” — o grito de guerra da Primeira Cruzada — e publicou American Crusade.


A pergunta que emerge é direta: quando a linguagem usada para descrever jornalistas se aproxima daquela aplicada a inimigos de guerra, onde termina a metáfora?



O problema dos milagres que não se investigam


Hegseth pediu que a imprensa “abrisse os olhos para a bondade” e enumerou sucessos: resgates de pilotos, números de recrutamento, vitórias operacionais. Para alguns desses eventos, usou a palavra “milagre”.


A escolha importa. Milagres se contemplam. A investigação parte de uma posição considerada indevida. Quando resultados militares são apresentados sob essa moldura, o escrutínio deixa de ser apenas indesejado e passa a ser tratado como suspeito.


Guerras custam vidas humanas, consomem recursos públicos e são decididas por pessoas com histórico, interesses e responsabilidade. Tudo é passível de apuração. Os fariseus tomavam notas para destruir. Jornalistas tomam notas porque democracias exigem registro. Essa distinção tem consequências concretas — nenhuma delas é teológica.


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🇺🇲English


The War Secretary and the Pharisees.


How Pete Hegseth turned the Pentagon podium into a pulpit — and the press into scripture’s villains.


Pete Hegseth ended his war briefing this morning without strategy, without casualty figures, without a clear assessment of the Strait of Hormuz standoff.


He ended with a sermon.


Not metaphorically.


The U.S. Secretary of Defense — who has at times referred to the Department of Defense itself as the “War Department” — told reporters that the previous Sunday he had been in church with his family, listening to a sermon on Mark, chapter 3. Jesus enters a synagogue. He heals a man. The Pharisees watch, take notes, look for fault.


“I sat there in church and thought — our press are just like these Pharisees.”


The man overseeing the world’s most powerful military had just compared American journalists — covering an undeclared war, troop deaths, and opaque strategic decisions — to the theological antagonists of Jesus Christ.


The anatomy of a sermon


Hegseth’s remarks reward close reading. This is not improvisation. It is structure.


He opens with a direct threat to Iran — the cadence of command, the language of authority. He moves through ritual praise of the president. Then comes the point of highest intensity: the press.


“Sometimes it’s hard to figure out what side some of you are on. It’s incredibly unpatriotic.”


The framing is deliberate. Critical coverage becomes unpatriotic. In the grammar of war, what is no longer an interlocutor becomes something else entirely. Hegseth applied the same reasoning weeks earlier when criticizing coverage of American troop deaths in the context of escalating tensions with Iran, suggesting that reporting casualties functioned as an attempt to “make the president look bad.” The soldier’s death reframed as narrative instrument — that is the logic underpinning the argument. The human cost of war recast as political bad faith.


Then comes escalation. The Bible is not invoked as reference — it is deployed.


“The Pharisees […] were there to witness, to write everything down, to report. But their hearts were hardened. Even though they witnessed a literal miracle, it didn’t matter.”


And the conclusion:


“The hardened hearts of our press are calibrated only to impugn.”


What this move actually does


This is a rhetorical operation in three movements.


I. It sacralizes power.

If journalists occupy the role of the Pharisees, the narrative structure implies who occupies the role of the miracle worker. Trump recently posted an AI-generated image depicting himself in sacred robes, surrounded by adoring figures. When criticized, he attributed the controversy to the press. The ground was prepared; Hegseth stepped into it.


II. It reframes scrutiny as a character defect.

The argument moves from facts to virtue. Questioning military operations, strategic decisions, or human costs becomes a sign of moral incapacity. Criticism is no longer evaluated; it is judged. Evidence, within this frame, reinforces the accusation.


III. It draws on a historically loaded interpretive tradition.

For centuries, portrayals of the Pharisees as hypocritical figures fueled hostilities that extended beyond theology. Nostra Aetate, issued in 1965, sought to correct that distortion by acknowledging how such readings had contributed to antisemitism. To mobilize this image today as a moral insult is, at minimum, to disregard its historical weight.


A Pentagon that preaches


This language does not emerge in isolation.


Hegseth belongs to the Communion of Reformed Evangelical Churches, a denomination often associated with strands of Christian Reconstructionism — a worldview that advocates the application of biblical principles across public and private life.


Once inside the Pentagon, this language produces a specific effect: strategic decisions are framed as expressions of moral alignment. In a worship service held within the Pentagon, according to public accounts, Hegseth prayed for “overwhelming violence of action” against those deemed undeserving of mercy. In Nashville, he described immigration policy as “not political — biblical” and concluded with “Christ is king.” The Defense Department under his leadership has produced materials overlaying biblical references onto military imagery. Hegseth has tattooed symbols associated with crusader imagery, including “Deus Vult,” and published a book titled American Crusade.


The question is direct: when the language used to describe journalists begins to resemble the language used for battlefield enemies, where does metaphor end?


The problem with miracles that cannot be examined


Hegseth urged the press to “open its eyes to the goodness” and listed successes: rescues, recruitment numbers, battlefield achievements. Some he described as miracles.


The word matters. Miracles are witnessed. Investigation begins from a position already deemed suspect. Once military outcomes are framed this way, scrutiny is no longer merely unwelcome — it becomes structurally discredited.


Wars involve lives, public resources, and decisions made by accountable individuals. All of it demands scrutiny. The Pharisees took notes to condemn. Journalists take notes because democracies require a record. That distinction carries consequences — none of them theological.


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Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

16 de abr. de 2026

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