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Quem pode agir, age:

Quem não pode, observa.

Quem pode agir, age:

Soberania, poder e a política incômoda dos precedentes.


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Este texto não se ocupa da defesa de Nicolás Maduro, nem da relativização do caráter autoritário do regime venezuelano. Esses fatos estão amplamente estabelecidos.


O que está em jogo é mais amplo — e mais consequente: quem decide quando a soberania deixa de valer, com que autoridade e a serviço de quais interesses.



Contexto internacional e fadiga institucional


Os acontecimentos recentes na Venezuela devem ser lidos menos como uma ruptura isolada e mais como expressão de um processo prolongado de fadiga institucional. As normas que estruturaram a ordem internacional no pós-Guerra Fria perderam capacidade de contenção; mecanismos multilaterais foram esvaziados; o consenso cedeu lugar ao cálculo unilateral.


Nesse ambiente, a força retorna não como exceção, mas como recurso disponível. A Venezuela passa, assim, de crise nacional a campo de teste de uma ordem internacional em transição.



Soberania como princípio, não como prêmio político


A remoção forçada de Nicolás Maduro — sem mandato internacional, autorização multilateral ou declaração formal de guerra — não inaugura uma transição. Ela cria um precedente geopolítico.


A soberania nunca foi concebida como recompensa por boa governança. Ela funciona como princípio estabilizador justamente porque se aplica também a regimes que fracassam. Torná-la condicional ao julgamento externo é convertê-la de regra em permissão.



O argumento contrário à soberania absoluta


Ainda assim, tratar a soberania como abstração inviolável pode obscurecer contextos em que o Estado deixou de cumprir funções mínimas. Na Venezuela, a erosão institucional prolongada produziu uma soberania amplamente formal, distante da experiência cotidiana.


Além disso, a recusa à intervenção tampouco é neutra. Em colapsos duradouros, a inação gera efeitos mensuráveis: instabilidade regional, deslocamentos populacionais em massa, expansão de redes ilícitas. Preservar a forma legal pode significar abdicar da substância da autodeterminação.



Legitimidade política, capacidade interna e tutela externa


A alegação de que a oposição carece de força para conduzir uma transição viável costuma ser apresentada como pragmatismo. Ela reflete, em parte, uma realidade funcional: fragmentação política, baixa capacidade administrativa e ausência de coordenação institucional.


O problema emerge quando essa constatação justifica a externalização da legitimidade política. Nesse ponto, a transição deixa de ser política para se tornar administrativa — gerida a partir de fora, mais do que apropriada internamente.



Os limites morais e estratégicos do pragmatismo


Mesmo admitindo o colapso estatal e os custos da inação, permanece uma fronteira crítica. Quando a linguagem da estabilização passa a justificar o controle de recursos estratégicos, o vocabulário da transição se confunde com o da ocupação.


Aqui, o argumento pragmático começa a se desfazer sob o peso dos interesses explícitos.



O precedente geopolítico que permanece


O problema central não é Maduro.

É o método.


Casos políticos são finitos; precedentes não. Eles sobrevivem, adaptam-se e circulam. O que está sendo testado na Venezuela não é apenas a durabilidade de um regime específico, mas a lógica emergente pela qual o poder decide quando a soberania pode ser suspensa — e por quem.



Entre soberania e intervenção: a escolha trágica


Reconhecer o colapso de um regime não legitima automaticamente sua remoção pela força; condenar a repressão interna não autoriza a coerção externa. Entre a soberania como princípio e a intervenção como solução, abre-se o espaço da escolha trágica — aquela que não absolve ninguém e cujas consequências ultrapassam em muito o caso imediato.


Um vídeo divulgado por um dos perfis oficiais da Casa Branca mostra o presidente da Venezuela.


Inglês:

Who Can Act, Acts; Who Cannot, Watches


Sovereignty, power, and the uneasy politics of precedent


Lead

This essay does not seek to defend Nicolás Maduro, nor to minimize the authoritarian character of Venezuela’s regime. Those facts are well established and require no further demonstration.


What is at stake is broader—and more consequential: who decides when sovereignty no longer applies, by what authority, and in whose interest.



International context and institutional fatigue


Recent developments in Venezuela are better understood not as an isolated rupture but as part of a longer process of institutional fatigue. The norms that structured the post–Cold War international order have steadily lost their constraining force. Multilateral mechanisms have weakened, mediation has thinned, and consensus has increasingly given way to unilateral calculation.


In this environment, force returns less as an exception than as an available instrument. Venezuela thus shifts from a national crisis to a testing ground for an international system in which power no longer reliably operates within agreed limits.



Sovereignty as principle, not political reward


The forced removal of Nicolás Maduro—absent an international mandate, multilateral authorization, or formal declaration of war—does not inaugurate a transition. It establishes a geopolitical precedent.


Sovereignty was never designed as a prize for good governance. It functions as a stabilizing principle precisely because it applies even when regimes fail. Once rendered conditional on external judgment, sovereignty ceases to operate as a rule and becomes a discretionary concession.



The case against absolute sovereignty


Still, treating sovereignty as an untouchable abstraction can obscure situations in which the state has ceased to perform its most basic functions. In Venezuela, prolonged institutional erosion has produced a sovereignty that is, for many observers, largely formal—present in law, absent in daily life.


Nor is non-intervention a neutral stance. In contexts of prolonged collapse, inaction generates measurable consequences: regional instability, mass displacement, and the expansion of illicit networks. Preserving legal form may come at the expense of substantive self-determination.



Political legitimacy, capacity, and external tutelage


Claims that Venezuela’s opposition lacks the capacity to manage a viable transition are often framed as pragmatism. They reflect, in part, a functional reality: political fragmentation, limited administrative capacity, and the absence of institutional coordination.


The difficulty emerges when this diagnosis is used to justify the externalization of political legitimacy. At that point, the transition risks becoming administrative rather than political—managed from outside rather than appropriated from within.



The moral and strategic limits of pragmatism


Even if one grants the depth of state collapse and the costs of inaction, a critical boundary remains. When the language of stabilization is invoked to justify control over strategic resources, the vocabulary of transition begins to resemble that of occupation.


Here, the pragmatic argument starts to unravel under the weight of explicit interests.



The geopolitical precedent that endures


The central issue is not Maduro.

It is the method.


Political cases are finite; precedents are not. They persist, adapt, and circulate. What is being tested in Venezuela is not only the durability of a particular regime, but the emerging logic by which power decides when sovereignty may be suspended—and by whom.



Between sovereignty and intervention: the tragic choice


Acknowledging the collapse of a regime does not automatically legitimize its removal by force; condemning internal repression does not authorize external coercion. Between sovereignty as principle and intervention as remedy lies the space of tragic choice—one that absolves no one, and whose consequences extend far beyond the immediate case.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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