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Trump e Zelensky em Washington:
Resultados ou apenas adiamento?

Sem Putin à mesa, Europa tenta sustentar Kiev enquanto Trump volta a ventilar “troca de territórios” e diz que a solução está nas mãos de Zelensky.
Donald Trump recebe hoje Volodymyr Zelensky em Washington, acompanhado por líderes europeus — um movimento coordenado para reforçar o presidente ucraniano logo após a cúpula de Trump com Vladimir Putin no Alasca, que terminou sem cessar-fogo e sem respostas a perguntas da imprensa.  
O que (de fato) saiu do Alasca.
A reunião em Anchorage durou quase três horas e não produziu interrupção dos ataques russos. Em seguida, Trump afirmou que a Ucrânia “tem que fazer um acordo”, insistindo que “a Rússia é uma grande potência — e a Ucrânia não é”, e deixando claro que vê Zelensky como o agente decisivo do desfecho. São declarações que, somadas, recolocam a ênfase na aceitação de um arranjo por Kiev — não na contenção prévia de Moscou.
Em paralelo, assessores de Washington e Moscou discutiram segurança para a Ucrânia como parte de um pacote mais amplo (um “Artigo 5-like”), mas sem compromisso russo com cessar-fogo antes de um acordo — ponto que a Europa e Kiev contestam.
“Troca de territórios”: por que a expressão é enganosa.
Após o encontro, Trump voltou a ventilar um arranjo territorial, e fontes descrevem que Putin pediu o controle integral de Donetsk em troca de “congelar” a frente. Na prática, não há reciprocidade: a “troca” significaria apenas a Ucrânia ceder áreas soberanas sob ataque. Zelensky rejeitou a proposta.
Sinais, símbolos — e duplo padrão.
A encenação pública também pesou. Na coletiva do Alasca, Trump dirigiu-se a Sergey Lavrov dizendo que ele era “quase tão famoso quanto o chefe” — frase que, no mínimo, transmite deferência ao círculo de Putin. Pouco antes, Lavrov havia exibido um moletom “CCCP” na chegada à cúpula, gesto lido como provocação histórica. Ambos os episódios ampliaram críticas de que o presidente americano tolera símbolos russos enquanto pressiona Kiev por concessões.
Por que a Europa desconfia de Putin — e como pretende agir hoje.
A memória europeia é recente e concreta: Crimeia (2014), Donbass, violações a corredores humanitários e a invasão de 2022 após negativas públicas de intenção bélica. Para as capitais europeias, negociar sob fogo perpetua o padrão de Moscou: usar a mesa para ganhar tempo e consolidar avanços. É por isso que líderes do Reino Unido, França e Alemanha viajam (ou se articulam) com Zelensky e defendem garantias de segurança robustas e nada de concessões territoriais enquanto a Rússia segue atacando.  
O contexto doméstico de Zelensky em Washington.
O retorno de Zelensky à Casa Branca ocorre após o tenso encontro de fevereiro, quando ele foi destratado e deixou o prédio às pressas; relatos registraram inclusive a preparação de almoço que não ocorreu depois do embate no Salão Oval. O episódio deixou cicatriz política e ajuda a explicar a estratégia atual de vir acompanhado por líderes europeus.
O que esperar desta segunda-feira
• Cenário 1 — apoio simbólico: comunicados conjuntos, promessa de “trabalhar por paz sustentável”, mas sem cessar-fogo e sem cronograma de garantias. Resultado: adiamento.
• Cenário 2 — garantias concretas: desenho de garantias de segurança com cronograma e condicionalidades (sanções automáticas a violações). Exigiria alinhar Washington, europeus e Kiev. 
• Cenário 3 — trilateral à vista: anúncio de reunião Trump-Putin-Zelensky. Pode soar como avanço, mas, sem cessar-fogo prévio e sem travas a ataques, tende a ser postergação sob fogo. (Zelensky disse apoiar a ideia; o Kremlin afirmou que não discutiu o formato.)
A peça-chave: a ambiguidade europeia diante de Trump.
O potencial ambíguo do dia começa na postura europeia: precisam defender Zelensky e, ao mesmo tempo, manter Trump engajado — o que abre margem para gestos de deferência ao presidente americano que não podem se confundir com licença para pressionar Kiev a ceder território. O equilíbrio que Bruxelas, Paris, Londres e Berlim encontrarem hoje influenciará imediatamente o poder de barganha da Ucrânia nas próximas semanas.
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Conclusão.
O pós-Alasca deixou três fatos verificáveis: (1) não houve cessar-fogo; (2) Trump passou a enfatizar que “a Ucrânia tem que fazer um acordo” e voltou a ensaiar arranjos territoriais; (3) europeus se organizam para amarrar garantias e travas ao expansionismo russo. Se a reunião de hoje terminar com uma trilateral “a anunciar” e nada mais, o saldo será adiamento com custos — e custos, no campo, contam. Para que haja avanço real, será preciso segurança primeiro, cessar-fogo verificável e linha vermelha clara contra novas anexações. Sem isso, qualquer “paz sustentável” vira outro nome para congelar ganhos para o Kremlin.
Linha do tempo essencial (para entender a segunda-feira).
2014–2015 — Minsk I/II
Tentativas de cessar-fogo e passos políticos (troca de prisioneiros, retirada de armamento pesado). Viraram “congelamento com tiro gotejante”: Moscou manteve pressão e preparou terreno.
2022 — Invasão em larga escala
A ruptura do pós-Minsk: a guerra aberta transforma “concessões” em moeda de chantagem territorial. (Contexto e leituras críticas sobre por que Minsk falhou.)
15 ago 2025 — Cúpula do Alasca (Trump–Putin)
Quase três horas de conversa, sem cessar-fogo; depois, Trump diz que “a Ucrânia tem que fazer um acordo” e que Zelensky “tem que fechar”. Fontes relatam exigência russa por todo o Donetsk em troca de congelar linhas. Zelensky rejeita. 
Simbolismo e duplo padrão
Na coletiva, Trump se dirige a Sergey Lavrov: “quase tão famoso quanto o chefe”; o chanceler havia circulado com moletom “CCCP” ao chegar ao Alasca. Ambos os gestos foram lidos como deferência indevida ao Kremlin. 
17–18 ago 2025 — Rumo a Washington
Trump recebe Zelensky com líderes europeus para tentar “paz sustentável”. Pressão pública dos EUA por um acordo rápido; europeus se alinham a Kiev e falam em garantias de segurança.
O ponto em disputa (agora)
Discussão de “garantias tipo Artigo 5” para a Ucrânia sem cessar-fogo prévio e com exigências territoriais no horizonte — algo que europeus e Kiev contestam.
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Quadro-síntese: o que está na mesa (e como ler)
Tema
O que se ventila
Como ler (risco/opção)
Cessar-fogo imediato
Não saiu no Alasca; não há sinal concreto de vir antes de um acordo maior.
Risco: negociar sob fogo favorece Moscou; Opção: exigir verificação e gatilhos de sanção automáticos.
“Troca de territórios”
Retomada por Trump como “atalho” para a paz.
Enganoso: não há reciprocidade; na prática, só Kiev cede — inclusive áreas não totalmente ocupadas. Precedente perigoso.
Garantias de segurança (“Artigo 5-like”)
Modelo EUA/Europa para dissuasão sem OTAN formal.
Útil se: tiver cronograma, verificações e punição a violações; Inócuo se vier sem cessar-fogo verificável.
Trilateral futura (Trump–Putin–Zelensky)
Pode ser anunciada hoje como “próximo passo”.
Pode ser só adiamento: sem cessar-fogo e sem travas a ataques, congela ganhos russos e normaliza chantagem.
Postura europeia
Acompanhar Zelensky em DC para amarrar garantias e conter concessões.
Vetor decisivo: firmeza europeia + recusa a bajulações vazias definem poder de barganha de Kiev nesta rodada.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
19 de jan. de 2026

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