A herança em disputa.
Por Valéria Monteiro

Imagem criada por IA.
Quase 60 milhões de votos em Flávio Bolsonaro mostram que o movimento sobreviveu ao afastamento de seu fundador. Resta saber o que une esse eleitorado, e que papel o confronto e o ressentimento têm nessa lealdade.
O bolsonarismo acabou? A derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno de outubro convida à pergunta, mas os números a desautorizam. Flávio recebeu 59.826.041 votos, 48,21% dos válidos, contra 51,79% de Lula, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Um movimento capaz de levar um candidato a essa marca, com o fundador condenado pelo STF e inelegível, não perdeu relevância eleitoral.
O número, porém, não revela uma identidade uniforme. Há quem tenha votado por lealdade à família Bolsonaro, quem tenha priorizado pautas específicas e quem tenha escolhido o candidato sobretudo contra o PT. Essas motivações convivem no mesmo voto, e é da combinação entre elas que depende o futuro do campo.
A pergunta mais útil, então, não é quem ocupará o lugar de Jair Bolsonaro. É o que esse lugar representa para quem votou, e quais de seus elementos continuarão mobilizando milhões.
Um campo, vários herdeiros
O bolsonarismo reúne conservadorismo nos costumes, defesa de uma segurança pública rigorosa, liberalismo econômico em parte de sua base, antipetismo e desconfiança das instituições. Nem todo apoiador compartilha todas essas posições, e nenhuma delas, sozinha, define o movimento. Uma corrente política pode preservar símbolos, valores e adversários enquanto troca de representantes e de linguagem.
É nesse espaço que lideranças diferentes disputam o mesmo eleitorado. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Marcel van Hattem e Deltan Dallagnol têm trajetórias próprias, e seria injusto reuni-los sob um rótulo único ou supor que todos os seus eleitores se vejam como bolsonaristas. Mas a ideia de uma direita inteiramente desvinculada do bolsonarismo também precisa passar pelos fatos. Pavanato, por exemplo, aponta Jair Bolsonaro como uma de suas três referências políticas, ao lado de Fernando Holiday e Nikolas Ferreira.
Trocar o nome no cartaz não comprova ruptura. Ruptura se mede em outro lugar: na relação com as instituições democráticas, na aceitação da divergência, na defesa de direitos individuais e no modo de exercer o poder.
Tarcísio e a identidade negociada
Tarcísio de Freitas é o caso mais instrutivo dessa disputa, porque tenta combinar alinhamento e identidade própria. Em agosto, o governador declarou que se identifica com o bolsonarismo, mas que rechaça o que não faz sentido. Definiu-se como cristão, conservador e liberal, defensor de um Estado mais enxuto e do empreendedorismo. E deu um exemplo concreto do que descarta: a resistência à vacinação.
A declaração mostra que uma identidade política pode ser negociada. Tarcísio não precisa reproduzir o estilo de Jair Bolsonaro para disputar eleitores que reconhecem valores comuns. Ao mesmo tempo, seu alinhamento declarado impede que essa relação seja tratada como inexistente.
O exemplo da vacina é revelador justamente por ter sido escolhido. Indica o que, na avaliação de um herdeiro possível, pode ser abandonado sem romper o vínculo. Resta saber se a base concorda com essa triagem.
Michelle e a disputa dentro de casa
A herança também se disputa em família. Michelle Bolsonaro, que pesquisas chegaram a apontar como o nome mais competitivo do clã, estreou nas urnas em outubro e se elegeu senadora pelo Distrito Federal, com 854.495 votos, 28,99% do total.
O caminho até lá passou por uma crise pública com o enteado. Em junho, ela publicou um vídeo de quase 30 minutos em que relata ter sido desrespeitada e maltratada por Flávio. Ele pediu desculpas e tratou o episódio como página virada; ela deixou a presidência do PL Mulher. Os dois só reapareceram juntos em agosto, e no dia do segundo turno Michelle declarou apoio ao enteado.
Ainda durante a campanha, analistas como o colunista Fernando Molica observaram que uma derrota de Flávio abriria caminho para Michelle se tornar a principal representante da família no Congresso. Com Flávio nos Estados Unidos e Jair condenado, ela chega ao Senado em posição de disputar essa liderança. O sobrenome continua no centro do campo. Muda quem o carrega, e com que discurso.
A hostilidade como sinal de pertencimento
Há uma dimensão que não aparece na comparação de programas: o modo como a política é comunicada e como o adversário é tratado. A agressividade não é exclusiva do bolsonarismo nem está presente em todos os seus apoiadores. A pesquisa acadêmica, porém, ajuda a examinar como ela ganha espaço.
Priscilla Dibai e Edson D'Almonte, da UFBA, acompanharam durante dois anos uma comunidade bolsonarista no Telegram, em estudo publicado em 2022 na revista Eco-Pós. Concluíram que o movimento constrói uma ampla rede de inimigos, que vai muito além da esquerda. Fazem, contudo, uma ressalva importante: não são os afetos negativos, por si, que tornam o bolsonarismo potencialmente antidemocrático. A raiva é comum a muitos movimentos; o que pesa é contra quem ela se dirige e o que se autoriza fazer em nome dela.
Quando o adversário deixa de ser alguém com outras propostas e passa a encarnar tudo o que o grupo rejeita, a discordância ganha peso moral. Ironias, humilhações e insultos podem então funcionar como provas públicas de lealdade, e ridicularizar o oponente vira forma de afirmar quem se é.
Contundência não é agressão. Criticar com dureza um governo, denunciar uma injustiça, confrontar uma autoridade fazem parte da democracia. A linha é cruzada quando a crítica abandona o argumento e passa a negar dignidade a pessoas. O que merece atenção não é a linguagem combativa, mas o momento em que o desrespeito deixa de ser excesso e passa a ser celebrado como autenticidade.
Um estudo publicado em março de 2026 na Social Media + Society, de Patrícia Rossini, Antonis Kalogeropoulos e Camila Mont'Alverne, acrescenta uma peça. Acompanhando os mesmos eleitores em três momentos da eleição de 2022, os autores verificaram que quem acreditava em alegações falsas de fraude eleitoral ficou mais intolerante com adversários ao longo do período. Quem se informava por aplicativos de mensagens estava mais exposto a essas crenças e, por meio delas, à intolerância. O estudo não diz que todo eleitor de Bolsonaro crê nessas alegações; mostra como desinformação e intolerância podem se alimentar.
Campopiano e a identidade construída contra
A eleição de Eduarda Campopiano oferece outro ângulo. Autointitulada "a maior inimiga das feministas de São Paulo", ela recebeu 1.956.238 votos para a Assembleia Legislativa paulista, a segunda maior votação da história para o cargo no estado. Sua projeção foi construída em boa parte pela oposição ao feminismo: uma liderança que se define menos pelo que propõe do que por quem combate.
É preciso ser justa com ela. Campopiano afirma apoiar o voto feminino e diz que sua crítica se dirige à associação dessa conquista exclusivamente ao feminismo; atribui papel decisivo ao governo Getúlio Vargas. É verdade que o Código Eleitoral de 1932 foi assinado por Vargas. Mas ele veio depois de décadas de mobilização sufragista, em que lideranças feministas como Bertha Lutz tiveram papel central. A caneta foi de Vargas; a pressão que a moveu, não.
A questão, portanto, não é se uma mulher pode discordar do feminismo contemporâneo. Evidentemente pode. É como se constrói uma carreira pública inteira em oposição ao movimento que ajudou a conquistar o direito que tornou essa carreira possível.
A promessa e a viagem
A dimensão da candidatura de Flávio torna relevante examinar a relação entre liderança e responsabilidade. O ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes do senador e o proibiu de deixar o país, num inquérito em que ele e o advogado Willer Tomaz são investigados por suspeita de lavagem de dinheiro. Ambos negam irregularidades, e investigação não é condenação. A decisão veio depois que Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, disse numa transmissão que Flávio deveria deixar o país caso perdesse a eleição.
Em vídeo publicado em suas redes e reproduzido na televisão, Flávio afirmou que não pretendia deixar o Brasil, que entregaria os passaportes e que organizaria a oposição ao governo Lula. O prazo para a entrega terminou na terça-feira, 27 de outubro, sem que ela ocorresse. Naquela noite, segundo a imigração argentina, Flávio atravessou com a família a ponte entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, usando a carteira de identidade, que basta para circular no Mercosul. Quarenta minutos depois, embarcou num jatinho rumo ao Equador, num voo que contornou o espaço aéreo brasileiro, e pousou em Miami na manhã de quarta-feira.
O contraste é verificável. Como quase 60 milhões de eleitores o interpretarão, não. Alguns verão uma decisão pessoal diante de um processo; outros, uma incoerência entre discurso e conduta; outros manterão o apoio sem rever nada. É por isso que a lealdade política merece estudo: quando o vínculo com um líder se torna parte da identidade de alguém, os fatos que o contradizem podem levar à revisão, ou ser relativizados diante de valores julgados maiores.
O que fica quando o líder sai de cena
Não há explicação única para a adesão ao bolsonarismo. Condições econômicas, fé, medo da violência, desconfiança das instituições, rejeição ao PT e a vida nas redes se combinam de modo diferente em cada eleitor. Muitos estão preocupados com o custo de vida, o emprego, a saúde e a segurança da família, e essas preocupações não podem ser reduzidas a emoção ou estratégia de comunicação.
Flávio, Michelle, Tarcísio, Nikolas, Pavanato e Campopiano ocupam posições distintas e devem ser examinados um a um. Continuidade não exige repetir o passado; ruptura precisa ser demonstrada por mudanças concretas, não apenas anunciada.
Quase 60 milhões de votos medem a força de uma candidatura, não a identidade de cada eleitor. O futuro desse campo depende do que seus apoiadores decidirem preservar: as ideias, os valores, a comunidade, o estilo de confronto ou a figura que os reuniu. Quando um líder sai de cena, é essa escolha que revela o que, afinal, sustentava o movimento.
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Who Inherits Bolsonarismo?
Nearly 60 million Brazilians voted for Flávio Bolsonaro. His defeat settles who governs. It does not settle what that vote was for, or how much of it rests on loyalty, grievance and the pleasure of the fight.
Is Bolsonarismo finished? Flávio Bolsonaro's loss in the October runoff invites the question; the numbers answer it. The senator, eldest son of former president Jair Bolsonaro, who has been convicted by the Supreme Court and barred from running, won 59,826,041 votes, 48.21% of the valid total, against 51.79% for Luiz Inácio Lula da Silva, according to Brazil's electoral court. A movement that can carry a stand-in that far is not a spent force.
But a vote count is not an identity. Some voted out of loyalty to the family, some for specific causes, many mainly against Lula's Workers' Party. Those motives share the same ballot, and the future of Brazil's right depends on how they combine.
One movement, many claimants
Bolsonarismo bundles social conservatism, hard-line public security, a pro-market streak in part of its base, hostility to the Workers' Party and deep suspicion of institutions. Few supporters hold all of it; none of it alone defines the movement.
That leaves room for rivals to court the same voters. Congressman Nikolas Ferreira; Lucas Pavanato, just elected to Congress with a record vote in São Paulo; Marcel van Hattem; and former Car Wash prosecutor Deltan Dallagnol each have their own record, and lumping them under one label would be lazy. Yet the idea of a right with no ties to Bolsonaro does not survive their own words: Pavanato names Jair Bolsonaro as one of his three political models.
Changing the face on the poster proves nothing. A real break would show in how a leader treats democratic institutions, dissent and individual rights.
Tarcísio's negotiated loyalty
São Paulo governor Tarcísio de Freitas, re-elected this month, shows how that negotiation works. In August he said he identifies with Bolsonarismo but rejects "what doesn't make sense," and offered vaccine resistance as his example. He calls himself Christian, conservative and liberal, a champion of a leaner state and private enterprise.
The example matters because he chose it. It marks what one plausible heir believes the movement can shed without losing its voters. Whether the base agrees is another matter.
The feud at home
The inheritance is also contested inside the family. Michelle Bolsonaro, the former first lady, whom polls at one point rated the family's most competitive name, ran for office for the first time this October and won a Senate seat for the Federal District, with 854,495 votes, 28.99% of the total.
She got there through a very public rift with her stepson. In June she posted a video nearly half an hour long saying Flávio had disrespected and mistreated her. He apologized and called the matter closed; she stepped down as head of the party's women's wing. The two did not appear together again until August, and on runoff day Michelle declared her support for him.
During the campaign, columnist Fernando Molica was among the analysts who noted that a Flávio defeat would clear Michelle's path to becoming the family's leading figure in Congress. With Flávio in the United States and Jair convicted, she now arrives in the Senate positioned to claim that role. The surname stays at the center of the movement. What changes is who carries it, and in what voice.
Hostility as a badge of belonging
Some of what binds the movement never appears in a platform. Aggression is not unique to the Brazilian right, nor shared by all its voters, but research helps explain how it spreads.
Over two years, Priscilla Dibai and Edson D'Almonte of the Federal University of Bahia followed a pro-Bolsonaro community on Telegram. Their 2022 study in the journal Eco-Pós found a sprawling roster of enemies reaching far beyond the left. They were careful, though, to argue that negative emotion is not in itself what makes the movement potentially anti-democratic. Anger is common currency in politics; what counts is whom it targets and what it is used to justify.
When an opponent stops being someone with different ideas and becomes the embodiment of everything the group rejects, disagreement turns moral. Mockery and humiliation can then serve as public proof of loyalty. Tough criticism of a government is democracy at work; stripping people of dignity is something else. The warning sign is not combative language but the moment contempt is applauded as authenticity.
A March 2026 study in Social Media + Society by Patrícia Rossini, Antonis Kalogeropoulos and Camila Mont'Alverne adds a piece. Tracking the same voters through three waves of the 2022 election, they found that people who believed false claims of electoral fraud grew less tolerant of political opponents over time, and that getting news through messaging apps fed intolerance indirectly, by making those beliefs more likely. The study does not show that every Bolsonaro voter holds such beliefs. It shows how misinformation and intolerance can feed each other.
Defined by the enemy
Eduarda Campopiano, 23, offers another angle. Calling herself "the greatest enemy of feminists in São Paulo," she won 1,956,238 votes for the state legislature, the second-highest tally ever for that office in the state. Her brand rests less on what she proposes than on whom she opposes.
To be fair to her: she says she supports women's suffrage and objects only to feminism claiming sole credit for it, pointing instead to President Getúlio Vargas. Vargas did sign the 1932 Electoral Code that gave Brazilian women the vote. But he signed it after decades of suffragist pressure in which feminists such as Bertha Lutz were central. The pen was his; the push was not.
Anyone may reject today's feminism. The real question is what it means to build a political career against the movement that helped win the right that made that career possible.
The promise and the plane
Then there is the leader himself. Supreme Court Justice Alexandre de Moraes ordered Flávio to surrender his passports and barred him from leaving the country, in an inquiry into suspected money laundering involving him and his friend, lawyer Willer Tomaz. Both deny wrongdoing, and an investigation is not a verdict. The order followed a livestream in which Flávio's brother Eduardo said Flávio should leave the country if he lost.
In a video posted on his social media and aired on television, Flávio said he did not intend to leave Brazil, that he would hand over his passports and that he would organize the opposition to Lula. The deadline passed on October 27 with no passports surrendered. That night, according to Argentine immigration, he and his family crossed the bridge from Foz do Iguaçu to Puerto Iguazú on his national ID card, which is all a Brazilian needs within Mercosur. Forty minutes later he boarded a private jet for Ecuador on a route that skirted Brazilian airspace, and on Wednesday morning he landed in Miami.
The contrast is a matter of record. How nearly 60 million voters read it is not. Some will see a personal decision under legal pressure; some, a gap between words and deeds; others will revise nothing. That is what makes political loyalty worth studying: when attachment to a leader becomes part of who you are, facts that contradict him can prompt a rethink, or be waved away in the name of larger values.
What survives the leader
No single factor explains the movement's pull. Economics, faith, fear of crime, distrust of institutions, rejection of the Workers' Party and life online combine differently in each voter. The everyday worries of many, about prices, jobs, health and safety, deserve to be taken on their own terms, not dismissed as emotion or manipulation.
Sixty million votes measure a candidacy, not the inner life of each voter. What the right becomes now depends on what its supporters choose to keep: the ideas, the values, the community, the combative style, or the family that gathered them. When the leader leaves the stage, that choice reveals what was holding the movement up all along.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
28/10/26

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