Augusto Cury:
Um pé no futuro e outro no passado.

Imagem Instagram Augusto Cury.
O que acontece quando o escritor que ensinou o Brasil a administrar as emoções precisa administrar um país?
Como tantos eleitores que se cansaram da briga permanente entre os dois polos que vêm dominando a política brasileira, passei a prestar atenção no crescimento de Augusto Cury.
Quem era esse candidato que começava a crescer tão rapidamente? O que ele estava dizendo que encontrava eco em uma parcela do eleitorado? E, principalmente: poderia ser uma possibilidade de voto?
Foi com essas perguntas que assisti à entrevista de Cury na CNN.
Eu sabia quem era o escritor — o nome por trás de O Vendedor de Sonhos, de Ansiedade, de Gestão da Emoção, de Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, best-sellers que praticamente todo brasileiro já ouviu citar. Sabia, por reputação, que seu pensamento gira em torno de algumas ideias muito fortes: consciência, autocontrole, empatia, superação, autonomia e a necessidade de não sermos simplesmente conduzidos pelos nossos pensamentos e pelas circunstâncias.
Mas eu não conhecia suficientemente o candidato.
E resolvi fazer uma coisa bastante simples: comparar o Cury que a opinião pública conhece com o Cury das propostas.
Logo topei com perguntas que não consigo ignorar.
Porque há uma coerência evidente entre algumas de suas ideias e seu discurso político.
O homem que passou décadas falando sobre a necessidade de administrar emoções agora fala em pacificar uma sociedade exausta da polarização.
O autor que insiste em que devemos ser protagonistas da própria história fala em empreendedorismo e autonomia econômica.
O educador que defende uma formação que vá muito além da transmissão de conteúdo fala em tecnologia e inteligência artificial.
Até aqui, a continuidade é clara.
Mas a política começa justamente onde a filosofia individual termina.
O que significa transformar “gestão da emoção” em gestão de um país?
O que significa pedir que milhões de pessoas sejam “autoras da própria história” quando as condições econômicas, tecnológicas e sociais que determinam suas possibilidades são tão desiguais?
E o que significa falar em inteligência artificial sem enfrentar até o fim a transformação que ela pode provocar justamente naquilo que Cury sempre colocou no centro de sua obra: a mente humana, o trabalho, a educação e as relações sociais?
Colocar a imagem do autor lado a lado com o programa de governo revela algo interessante.
Em O Vendedor de Sonhos, segundo a sinopse oficial da obra, um personagem que perdeu tudo abandona a lógica da riqueza e do status e passa a questionar uma sociedade que considera adoecida — um enredo construído em torno de perdas, conquistas, superação e crítica à vida aprisionada pela rotina.
Já o candidato fala em produtividade, empreendedorismo, expansão econômica, tecnologia, exploração de recursos naturais e atração de centros de dados.
Não há necessariamente uma contradição entre desenvolvimento econômico e uma sociedade mais humana.
Mas há uma pergunta que precisa ser feita:
onde está, no projeto econômico, a crítica à sociedade que o escritor passou décadas questionando em seus livros?
Ansiedade, um de seus títulos mais conhecidos, trata de uma sociedade submetida a excesso de estímulos, informação e velocidade — tema que também aparece, segundo material de divulgação de seus cursos, na defesa recorrente de consciência, autocontrole, relações saudáveis e capacidade de fazer escolhas.
Quando esse mesmo autor fala de inteligência artificial como uma das grandes ferramentas do futuro, eu gostaria de ouvi-lo ir além da tecnologia.
Porque a IA não vai apenas fazer o Estado funcionar mais rapidamente.
Ela vai mudar a relação entre seres humanos e trabalho.
Vai alterar profissões, salários, educação, produtividade, concentração de renda e poder.
E pode produzir exatamente aquilo que Cury costuma diagnosticar: uma sociedade submetida a uma aceleração ainda maior.
A pergunta, portanto, não é apenas como usar a IA.
É: como impedir que a sociedade humana seja obrigada a se adaptar à velocidade das máquinas?
Essa talvez seja a grande pergunta que um candidato conhecido por décadas de reflexão sobre a mente humana deveria colocar no centro de seu projeto.
E ela nos leva diretamente ao Bolsa Família.
Cury tem apresentado como proposta uma flexibilização que permitiria a quem consegue emprego formal ou se torna MEI não perder imediatamente o benefício. Mas, segundo apuração da Agência Lupa sobre sua entrevista ao Jornal Nacional, essa possibilidade já existe nas regras atuais do programa: ter renda de outra fonte não impede, por si só, o recebimento do Bolsa Família, desde que a família permaneça dentro dos critérios do Cadastro Único.
A ideia pode ser examinada independentemente do rótulo ideológico — e independentemente de já existir ou não.
Mas o mundo do trabalho está mudando.
Se a inteligência artificial reduzir a necessidade de trabalhadores em determinadas atividades, a velha equação — estude, trabalhe, empreenda e supere a pobreza — pode deixar de ser suficiente.
E então a pergunta deixa de ser individual.
Passa a ser política:
como distribuir os ganhos de produtividade quando a produtividade depende cada vez menos da quantidade de pessoas trabalhando?
É justamente nesse ponto que eu esperaria de um candidato que construiu carreira falando sobre o futuro do ser humano uma reflexão mais profunda sobre o futuro do trabalho.
Porque talvez o maior desafio da IA não seja ensinar as pessoas a utilizá-la.
Talvez seja decidir como a riqueza produzida por ela será distribuída entre as pessoas.
E isso nos leva ao paradoxo que dá título a este artigo.
Cury parece olhar para o futuro com ferramentas tecnológicas extremamente contemporâneas — inteligência artificial, drones, centros de dados, Agricultura 4.0. Seu plano de governo, entregue à Justiça Eleitoral, menciona drones em 19 ocasiões, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, propostos para segurança pública, combate ao feminicídio, monitoramento de fronteiras, agronegócio e prevenção de incêndios.
Mas algumas de suas respostas econômicas continuam ancoradas em categorias muito conhecidas: produzir mais, empreender mais, explorar recursos naturais, aumentar produtividade.
Tecnologia nova não significa necessariamente uma nova visão de sociedade.
Podemos construir um país cheio de inteligência artificial e continuar reproduzindo relações econômicas e sociais do século XX.
É essa a questão que quero entender em Augusto Cury.
Não se ele é de direita ou de esquerda.
Não se ele é a terceira via.
Não se ele é o candidato da pacificação.
Mas se existe, por trás de todas essas palavras, um projeto de país coerente com o pensamento que tornou seu autor conhecido.
Porque talvez a pergunta mais interessante para alguém que construiu carreira ensinando pessoas a pensar seja justamente esta:
o que acontece quando ele precisa pensar não apenas sobre o indivíduo, mas sobre os milhões de indivíduos que formam uma sociedade?
A obra encontra a política nesse ponto exato.
E começo a perceber um Cury com um pé no futuro — e outro no passado.
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Scroll down for English
The Futurist Who Never Left the Past.
Augusto Cury built a career teaching Brazilians to master their minds. Can he now teach a nation to master its future?
Like so many voters exhausted by the endless brawl between Brazil’s two dominant political poles, I started paying attention to Augusto Cury’s rise.
Who was this candidate climbing so fast in the polls? What was he saying that resonated with a slice of the electorate? And, more to the point: could he be a vote worth considering?
Those were the questions I carried into his interview on CNN.
I knew the name. Cury is the author behind The Dream Seller, Anxiety, Emotional Management, Brilliant Parents, Fascinating Teachers — bestsellers practically every Brazilian has heard quoted at some point. By reputation, I knew his thinking circles around a handful of forceful ideas: awareness, self-control, empathy, resilience, autonomy, and the refusal to be simply steered by one’s own thoughts and circumstances.
But I didn’t know the candidate well enough.
So I did something simple: I set the Cury the public knows against the Cury of the campaign platform.
The uncomfortable questions started right there.
Because there is a clear continuity between some of his ideas and his political message.
The man who spent decades writing about managing emotions now talks about pacifying a society exhausted by polarization.
The author who insists we must be protagonists of our own story now talks about entrepreneurship and economic self-reliance.
The educator who argues for an education that goes far beyond content delivery now talks about technology and artificial intelligence.
So far, the throughline holds.
But politics begins exactly where individual philosophy ends.
What does it mean to turn “emotional management” into governing a country?
What does it mean to ask millions of people to become “authors of their own story” when the economic, technological, and social conditions shaping their possibilities are so unequal?
And what does it mean to talk about artificial intelligence without fully confronting the disruption it could bring to precisely what Cury has always placed at the center of his work — the human mind, labor, education, and social relationships?
Set his public image next to his government program, and something revealing emerges.
In The Dream Seller — according to the book’s official synopsis — a man who loses everything abandons the logic of wealth and status and begins questioning a society he considers sick, a plot built around loss, achievement, resilience, and a critique of a life imprisoned by routine.
The candidate, meanwhile, talks about productivity, entrepreneurship, economic expansion, technology, natural-resource exploitation, and attracting data centers.
There isn’t necessarily a contradiction between economic development and a more humane society.
But there’s a question worth asking:
where, in this economic project, is the critique of the very society the writer spent decades questioning in his books?
Anxiety, one of his best-known titles, is concerned with a society drowning in stimuli, information, and speed — a theme that, according to promotional material for his courses, also runs through his recurring case for awareness, self-control, healthy relationships, and the capacity to choose.
When that same author talks about artificial intelligence as one of the great tools of the future, I’d like to hear him go beyond the technology itself.
Because AI won’t just make government run faster.
It will change the relationship between human beings and work.
It will reshape professions, wages, education, productivity, and the concentration of income and power.
And it could produce exactly what Cury has diagnosed so often in his books: a society subjected to even greater acceleration.
So the question isn’t just how to use AI.
It’s: how do we keep human society from being forced to adapt to the speed of machines?
That may be the biggest question a candidate known for decades of reflection on the human mind should be putting at the center of his platform.
Which brings us straight to Bolsa Família, Brazil’s cash-transfer program.
Cury has floated, as a proposal, a change that would let people who land a formal job or become a registered microentrepreneur keep the benefit without losing it immediately. But according to fact-checking by Agência Lupa on his interview with Jornal Nacional, that flexibility already exists under the program’s current rules: having income from another source doesn’t, by itself, disqualify a family from receiving Bolsa Família, as long as it still meets the registry’s criteria.
The idea deserves scrutiny on its own merits — regardless of ideological label, and regardless of whether it’s actually new.
But the world of work is changing.
If artificial intelligence reduces the need for workers in certain fields, the old formula — study, work, start a business, escape poverty — may no longer be enough.
And then the question stops being individual.
It becomes political:
how do you distribute productivity gains when productivity depends less and less on the number of people working?
This is exactly where I’d expect a candidate who built a career writing about humanity’s future to offer a deeper reckoning with the future of work.
Because maybe AI’s biggest challenge isn’t teaching people to use it.
Maybe it’s deciding how the wealth it generates gets shared.
Which brings us to the paradox in this piece’s title.
Cury seems to look at the future through thoroughly contemporary tools — artificial intelligence, drones, data centers, precision agriculture. His government plan, filed with Brazil’s electoral court, mentions drones 19 times, according to a Folha de S.Paulo analysis, proposed for public safety, combating femicide, border monitoring, agribusiness, and fire prevention.
But some of his economic answers remain anchored in very familiar categories: produce more, start more businesses, extract more natural resources, boost productivity.
New technology doesn’t automatically mean a new vision of society.
We can build a country saturated with artificial intelligence and still reproduce twentieth-century economic and social relationships.
That’s the question I want to understand about Augusto Cury.
Not whether he’s left or right.
Not whether he’s a third way.
Not whether he’s the candidate of pacification.
But whether, behind all these words, there’s a coherent vision of the country — one that matches the thinking that made its author famous.
Because maybe the most interesting question for someone who built a career teaching people how to think is this one:
what happens when he has to think not just about the individual, but about the millions of individuals who make up a society?
The books meet politics right at that point.
And I start to see a Cury with one foot in the future — and the other still in the past.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
08/09/26

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