top of page

De Ormuz aos carros elétricos.

O acordo reduziu a tensão em Ormuz, mas não eliminou a vulnerabilidade que a crise expôs.

De Ormuz aos carros elétricos.
Imagem gerada por IA.

Por trás da reação da indústria automobilística à renovação da cota de importação para veículos eletrificados existe uma discussão muito maior do que a simples concorrência entre fabricantes nacionais e estrangeiros.


Scroll down for English


A medida, anunciada pelo governo federal como parte da estratégia de transição da indústria automotiva brasileira, foi recebida com críticas por setores que temem a ampliação da dependência de componentes e tecnologias produzidos no exterior. Para as montadoras instaladas no país, o desafio é garantir que a eletrificação da frota venha acompanhada do fortalecimento da produção nacional.


A preocupação é legítima.


Mas o contexto internacional ajuda a compreender por que esse debate ganhou uma dimensão ainda mais estratégica.


Embora não exista indicação de que a decisão brasileira tenha sido motivada pela recente crise no Oriente Médio, ela ganha nova relevância num momento em que a segurança energética volta ao centro das preocupações globais.


Nas últimas semanas, o mundo acompanhou com apreensão as tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do planeta para o transporte de petróleo. O risco de interrupções na navegação reacendeu temores sobre os impactos que um gargalo energético pode produzir na economia global.


A assinatura de um memorando de entendimento entre os governos dos Estados Unidos e do Irã ajudou a reduzir a tensão imediata. O acordo abriu espaço para a retomada do diálogo e diminuiu o risco de interrupções no tráfego marítimo da região.


Os mercados reagiram positivamente.


Mas a principal consequência do episódio talvez não esteja no preço do petróleo.


Está na lembrança de uma vulnerabilidade que nunca desapareceu.


A crise mostrou que uma única passagem marítima continua capaz de influenciar inflação, cadeias produtivas, custos logísticos e decisões econômicas em praticamente todos os continentes.


Durante décadas, a transição energética foi apresentada principalmente como uma resposta às mudanças climáticas. Reduzir emissões, limitar o aquecimento global e ampliar o uso de fontes renováveis eram os principais argumentos.


Eles continuam sendo.


Mas já não são os únicos.


A guerra na Ucrânia, os ataques a rotas comerciais estratégicas, as disputas geopolíticas por minerais críticos e as recentes tensões em Ormuz ampliaram o debate.


Hoje, a transição energética também é vista como uma política de redução de vulnerabilidades.


Veículos elétricos, energias renováveis, biocombustíveis, baterias e novas tecnologias de armazenamento passaram a integrar estratégias nacionais de segurança econômica e competitividade.


Países menos dependentes dos combustíveis fósseis tendem a ser menos vulneráveis aos choques diretos provocados pelas oscilações do mercado internacional de petróleo.


O Brasil ocupa uma posição singular nesse cenário.


O país é um importante produtor e exportador de petróleo, mas também possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo entre as grandes economias. A discussão brasileira, portanto, não está relacionada à escassez de energia.


A questão é outra.


Qual será o papel do Brasil na transformação tecnológica que está redesenhando a indústria automotiva global?


O país participará da produção de baterias, software, pesquisa, engenharia e inovação? Ou limitar-se-á a consumir tecnologias desenvolvidas em outros mercados?


Essa é a preocupação que está por trás da reação da indústria nacional.


A transição energética faz sentido sob a perspectiva ambiental.


Faz sentido sob a perspectiva econômica.


E faz sentido sob a perspectiva estratégica.


O desafio consiste em evitar que a dependência dos combustíveis fósseis seja substituída por uma nova dependência tecnológica.


O memorando entre Estados Unidos e Irã reduziu a tensão imediata em Ormuz.


Mas não eliminou a fragilidade que a crise revelou.


A decisão brasileira sobre veículos eletrificados não nasceu desse episódio. Ainda assim, ele ajuda a compreender por que energia limpa deixou de ser apenas uma pauta ambiental.


Ela se tornou também uma questão de competitividade, autonomia tecnológica e segurança econômica.


No século XXI, reduzir emissões continua sendo essencial.


Mas reduzir dependências pode ser igualmente decisivo.


————-

Scroll down for English


From Hormuz to Electric Vehicles.


The Agreement Reduced Tensions in Hormuz, but It Did Not Eliminate the Vulnerability the Crisis Exposed.


Behind the automotive industry’s reaction to Brazil’s renewed import quota for electrified vehicles lies a debate that extends far beyond competition between domestic and foreign manufacturers.

The measure, presented by the federal government as part of the country’s automotive transition strategy, has drawn criticism from sectors concerned about growing dependence on components and technologies produced abroad. For manufacturers already established in Brazil, the challenge is ensuring that fleet electrification is accompanied by stronger domestic production.

The concern is legitimate.

Yet the international context helps explain why this debate has taken on a broader strategic dimension.

Although there is no indication that Brazil’s decision was motivated by the recent Middle East crisis, it gains new relevance at a moment when energy security has returned to the center of global concerns.

In recent weeks, the world watched tensions surrounding the Strait of Hormuz, one of the most important maritime corridors for global oil transportation. The possibility of disruptions to maritime traffic renewed concerns about the impact an energy bottleneck could have on the global economy.

The signing of a memorandum of understanding between the governments of the United States and Iran helped reduce immediate tensions. The agreement opened the door to renewed dialogue and lowered the risk of disruptions to maritime traffic in the region.

Markets responded positively.

Yet the most important consequence of the episode may not be reflected in oil prices.

It lies in the reminder of a vulnerability that never truly disappeared.

The crisis demonstrated that a single maritime chokepoint can still influence inflation, supply chains, logistics costs and economic decisions across virtually every continent.

For decades, the energy transition was presented primarily as a response to climate change. Reducing emissions, limiting global warming and expanding renewable energy sources were the central arguments.

They still are.

But they are no longer the only ones.

The war in Ukraine, attacks on strategic trade routes, geopolitical competition over critical minerals and the recent tensions around Hormuz have broadened the discussion.

Today, the energy transition is also viewed as a strategy for reducing vulnerabilities.

Electric vehicles, renewable energy, biofuels, batteries and energy-storage technologies have become part of broader efforts to strengthen economic security and competitiveness.

Countries that depend less heavily on fossil fuels tend to be less exposed to the direct effects of oil-price shocks.

Brazil occupies a unique position in this landscape.

The country is both a significant oil producer and exporter and one of the world’s major economies with a predominantly renewable electricity matrix. The Brazilian debate is therefore not about energy scarcity.

It is about positioning.

What role will Brazil play in the technological transformation reshaping the global automotive industry?

Will it participate in the production of batteries, software, engineering and innovation? Or will it simply become a consumer of technologies developed elsewhere?

That is the underlying concern behind the industry’s reaction.

The energy transition makes environmental sense.

It makes economic sense.

And increasingly, it makes strategic sense.

The challenge is ensuring that dependence on fossil fuels is not replaced by a new form of technological dependence.

The memorandum between the United States and Iran reduced immediate tensions in Hormuz.

But it did not eliminate the vulnerability the crisis exposed.

Brazil’s decision regarding electrified vehicles did not originate from that episode. Yet the episode helps explain why clean energy is no longer viewed solely as an environmental issue.

It has become a matter of competitiveness, technological autonomy and economic security.

In the twenty-first century, reducing emissions remains essential.

But reducing dependencies may prove equally decisive.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

24/06/26
Leia também
O Secretário de Guerra e os Fariseus.
Como Pete Hegseth transformou o púlpito do Pentágono em teologia de combate contra a imprensa.
1,19%.
É quanto o Brasil investe em ciência — e patina nisso há décadas.
bottom of page