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Depois da festa, o expediente.

Por Valéria Monteiro

Depois da festa, o expediente.
Imagem gerada por IA.

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Lula venceu nas urnas.

Agora precisa vencer a contestação, um Congresso que não escolheu e um mercado que apostou em outro resultado.


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Ontem fui para a rua. Os reencontros e os abraços estão nas fotos que publiquei. Hoje o país acordou com três questões que nenhuma festa resolve, e é delas que trata este texto, que marca também a volta ao trabalho de sempre por aqui.

Primeiro, o placar. Com 99,99% das urnas apuradas, Lula teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Flávio havia ficado à frente, com 47,03% contra 45,16%. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, que o segundo colocado no primeiro turno venceu a eleição presidencial.


A contestação

Por volta das 22h40 de domingo, Flávio Bolsonaro declarou que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição. O argumento central é a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que prorrogou a votação até as 19h em todo o país. Para o senador, a medida quebrou a igualdade entre eleitores. Ele também questionou a retirada de fiscais do PL da sala-cofre.

Vale reconstituir como a prorrogação aconteceu. A coligação de Lula acionou o STF relatando falta de ônibus em Salvador, Lauro de Freitas e Feira de Santana, e alegou descumprimento de uma decisão do próprio Supremo, de 2023, que obriga o poder público a oferecer transporte coletivo gratuito, em frequência de dia útil, nos dias de eleição. Zanin estendeu a medida a todas as seções do país. A campanha de Flávio, por sua vez, também havia pedido ao Tribunal Superior Eleitoral duas horas a mais de votação, mas apenas em São Paulo, Paraná e Santa Catarina, por causa de temporais.

Há aqui uma discussão que merece ser levada a sério: um ministro do STF, numa reclamação, alterar o horário de uma eleição nacional, por cima da Justiça Eleitoral, é algo que juristas de diferentes linhas vão debater por muito tempo. Questionar o rito é legítimo.

Mas pedir a anulação do resultado é outra coisa, e o raciocínio precisa fechar. A prorrogação valeu para todo o Brasil, inclusive para os três estados em que o próprio PL queria mais duas horas. Se a prorrogação tivesse saído apenas onde a campanha de Flávio pediu, a isonomia estaria mais protegida ou menos? E, para anular uma eleição decidida por cerca de 3,5 pontos percentuais, seria preciso mostrar que a regra alterou o resultado. No pronunciamento, Flávio não indicou quais argumentos técnicos vai usar nem em que tribunal. Ele próprio afirmou que é impossível saber quantos votos teriam deixado de ser computados. Uma dúvida que não se pode medir dificilmente sustenta a anulação de mais de 124 milhões de votos.

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceram a vitória de Lula.

O Congresso

No discurso da vitória, Lula enfrentou o tema de frente: "Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar e aprovar as coisas." É uma frase correta. O problema é a aritmética.

Pelo levantamento do Poder360, a Câmara que toma posse em fevereiro terá 276 deputados de partidos mais à direita, 124 mais à esquerda e 113 ao centro. No Senado, 49 dos 81 senadores pertencem a partidos alinhados à direita. O PL terá 121 deputados e, pela projeção, 28 senadores, a maior bancada de um único partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.

Uma coincidência numérica ajuda a medir o desafio: 49 é exatamente o número de votos necessários no Senado para aprovar uma emenda constitucional. Partido não é bloco disciplinado, e o centro brasileiro historicamente negocia com qualquer governo. Mas Lula começa o quarto mandato precisando de muito mais que a própria base para qualquer coisa além do ordinário.

O mesmo discurso trouxe duas promessas que merecem atenção. A primeira: "Nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões", com a comunicação digital ganhando espaço no governo. Participação popular é bem-vinda, mas não substitui o voto no plenário; ela pode, no máximo, aumentar o custo político de quem vota contra. A segunda me toca como jornalista: Lula disse que vai falar diretamente com a população, várias vezes por dia, e que não vai permitir ser interpretado por jornalistas. Falar direto é um direito de qualquer governante. A mediação crítica da imprensa, porém, não é um obstáculo entre o presidente e o povo; é uma das formas de o povo saber o que o presidente faz.

Há ainda uma tensão interna no discurso. Lula afirmou que, ganha a eleição, não tem mais adversário e precisa governar para 215 milhões. Minutos antes, chamou o oponente de "representante genuíno do milicianismo". As duas coisas não cabem na mesma frase, e governar com um Congresso dominado pelo partido desse oponente vai exigir que a segunda dê lugar à primeira.


O mercado

Às 9h57 desta segunda-feira, ainda no leilão de abertura, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo automático que suspende os negócios por 30 minutos quando o Ibovespa cai 10%. Segundo analistas, foi a primeira vez que isso aconteceu por causa de um resultado eleitoral. Em 2022, depois da eleição de Lula, a bolsa chegou a cair durante o pregão, mas fechou em alta.


O tamanho da queda tem uma explicação que vai além da opinião do mercado sobre Lula. Parte das pesquisas apontava vantagem de Flávio no segundo turno, e o mercado havia se posicionado para esse desfecho. Analistas do JP Morgan classificaram o resultado como inesperado e previram uma reavaliação dos ativos. Parte do tombo é a desmontagem dessas apostas. Nem todos leram o momento do mesmo modo: a consultoria Gavekal Research chegou a recomendar compra de ativos brasileiros.

O mercado não vota, mas cobra. Os três pontos que o próprio JP Morgan listou para acompanhar coincidem com as três frentes deste texto: a postura da oposição diante do resultado, a composição do novo governo e a reação dos preços. Lula disse que terá dois meses para discutir o governo com empresários, educadores e cientistas antes da posse, marcada para 5 de janeiro. Os nomes da equipe econômica vão dizer mais que qualquer discurso.


Bora pra frente

Celebrei na rua como cidadã. Aqui, volto ao ofício. A pergunta deixou de ser quem ganhou. Passou a ser se o país vai funcionar a partir deste resultado, e isso depende de três atitudes: quem perdeu levar suas dúvidas aos tribunais sem alimentar a desconfiança nas urnas; quem ganhou negociar com o Congresso que existe, não com o que gostaria de ter; e todos nós continuarmos prestando atenção.

Continuaremos a acompanhar cada uma dessas frentes: o pedido de anulação, a formação da base no Congresso, a transição. E o site volta ao seu ritmo, com ciência, cultura, viagens e temas que nos interessam. A eleição acabou. O trabalho, não.


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After the Party, the Paperwork.


Lula won the vote. Now he has to get past a challenge to the result, a Congress he didn't choose, and a market that bet the other way.


I spent Sunday night in the street, celebrating among old friends and total strangers. This morning Brazil woke up to three problems no party can fix. This piece is about them, and it also marks this site's return to its usual work: facts, sourced, with the conclusions left to you.

The numbers first. With 99.99% of ballots counted, President Luiz Inácio Lula da Silva took 51.79% of valid votes to Senator Flávio Bolsonaro's 48.21%. Three weeks earlier, Flávio had won the first round, 47.03% to 45.16%. Since Brazil's return to democracy, no candidate who finished second in a first round had ever come back to win the presidency.

The challenge

Around 10:40 p.m. on Sunday, Flávio, the eldest son of former president Jair Bolsonaro, said he does not recognize the result and will ask the courts to annul the election. His case rests on a ruling by Supreme Court Justice Cristiano Zanin, who extended voting nationwide by two hours, to 7 p.m. Flávio argues the move broke equal treatment among voters. He has also questioned why his party's poll watchers were removed from the secure room where the count is held.

How the extension came about matters. Lula's coalition went to the Supreme Court over a shortage of buses in three cities in the state of Bahia: Salvador, Lauro de Freitas and Feira de Santana. It cited a 2023 Supreme Court ruling that requires free public transit, at weekday frequency, on election days. Zanin applied the extension to every polling station in the country. Flávio's own campaign had also asked the Superior Electoral Court for two extra hours, but only in São Paulo, Paraná and Santa Catarina, where storms were flooding streets.

There is a fair question here. A single Supreme Court justice, ruling on a complaint, changing the hours of a national election over the head of the electoral court: legal scholars of every persuasion will argue about that for years. Questioning the procedure is legitimate.

Annulling the result is a different claim, and the logic has to hold. The extension covered the whole country, including the three states where Flávio's campaign wanted more time. Would equal treatment have been better served had polls stayed open only where his campaign asked? And overturning an election decided by roughly three and a half points would require showing that the rule change altered the outcome. In his statement, Flávio did not say what technical arguments he will make or in which court. He himself said it is impossible to know how many votes went uncounted. A doubt that cannot be measured is a thin basis for voiding more than 124 million votes.

The leaders of both houses of Congress, Hugo Motta in the Chamber of Deputies and Davi Alcolumbre in the Senate, have recognized Lula's victory.


Congress

In his victory speech, Lula took the issue on directly. He didn't choose Congress, he said; the people did, and that is who he will work with to get things passed. Fair enough. The trouble is arithmetic.

According to Poder360, the Chamber of Deputies sworn in next February will hold 276 members of right-leaning parties, 124 from the left and 113 from the center. In the Senate, 49 of 81 seats belong to right-aligned parties. Flávio's Liberal Party alone will have 121 deputies and, by current projections, 28 senators, the largest single-party bloc at the start of a legislature since the 1988 Constitution.

One number puts this in perspective: 49 is exactly the Senate vote needed to amend the Constitution. Brazilian parties don't vote in lockstep, and the country's sprawling center has historically done business with any government. Still, Lula begins his fourth term needing far more than his own base for anything beyond the routine.

Two promises in the speech deserve a closer look. Lula said he will bring people more directly into government decisions and lean heavily on digital communication. Public participation is welcome, but it casts no votes on the floor; at most, it raises the political price of voting no. The second promise I take personally, as a journalist. He said he will talk to Brazilians directly, several times a day, and will not let himself be "interpreted by journalists." Any leader is free to speak directly. But a critical press is not a wall between a president and the people. It is one of the ways the people find out what the president is doing.

There is also a tension inside the speech. Lula said that once an election is won, there are no more opponents, and he must govern for all 215 million Brazilians. Minutes earlier, he had called his rival a genuine representative of militia politics, a reference to the criminal militias that control parts of Brazilian cities. Those two ideas can't share a sentence, and governing alongside a Congress dominated by that rival's party will require the second to give way to the first.


The market

At 9:57 this morning, still in the opening auction, São Paulo's B3 exchange tripped its circuit breaker, an automatic 30-minute halt that kicks in when the Ibovespa index falls 10%. Analysts say it is the first time an election result has set it off. After Lula's 2022 win, by contrast, stocks dipped during the session and closed higher.

The size of the drop reflects more than investors' view of Lula. Several polls had shown Flávio ahead in the runoff, and the market had positioned for that outcome. JP Morgan analysts called the result unexpected and anticipated a broad repricing of Brazilian assets. Part of the plunge is those bets being unwound. Not everyone reads the moment the same way: Gavekal Research went as far as recommending Brazilian assets.

Markets don't vote, but they keep score. The three things JP Morgan flagged to watch line up with the three fronts in this piece: how the opposition handles the result, who joins the new government, and how prices respond. Lula says he will use the two months before his January 5 inauguration to meet business leaders, educators and scientists. The names on his economic team will say more than any speech.


Onward

On Sunday night I celebrated as a citizen. Here, I'm back at my job. The question is no longer who won. It is whether the country can function from here, and that depends on three things: the losing side taking its doubts to court without feeding distrust in the ballot box; the winning side negotiating with the Congress that exists, not the one it wishes it had; and the rest of us paying attention.

I will follow each of these fronts: the annulment request, coalition-building in Congress, the transition. And the site returns to its usual rhythm of science, culture, travel and the relevant issues we talk about. The election is over. The work isn't.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

26/10/26
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