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O medo que vota.

Por Valéria Monteiro.

O medo que vota.
Imagem criada por IA.

Em todo ciclo eleitoral, a segurança pública é a maior preocupação do brasileiro — e o tema em que a democracia mais se deixa seduzir por respostas falsas.


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Há um gesto que todo brasileiro adulto reconhece sem precisar nomear.

É o instante em que se cruza uma rua escura e se avalia, sem pensar, a distância até o próximo poste, a presença de um vulto na calçada, o peso do celular no bolso.

É o cálculo silencioso da mãe que ensina a filha a entregar o aparelho sem reagir.

É a mulher que pede um carro de aplicativo para percorrer duas quadras porque escurece cedo.

É o homem que muda de calçada. É o som da chave girada por dentro do quarto, depois de já trancada a porta da rua.

Esse gesto não é episódico.

Ele é geográfico, é horário, é uma segunda natureza adquirida ao longo de décadas.

Aprendemos a navegar nossas próprias cidades como quem lê um mapa de risco — e essa fluência cotidiana, essa habilidade triste, já diz alguma coisa sobre o pacto que falhou.

Diz, sobretudo, que a segurança pública no Brasil deixou de ser uma promessa e virou um problema de gerência pessoal.

Cada cidadão administra o seu medo com os recursos de que dispõe: muros mais altos para quem pode, rotas alternativas para quem não pode, resignação para a maioria.

O que deveria ser função primária do Estado virou serviço terceirizado para a sorte.

E é aqui que entra a estranheza maior.

Esse medo, que se vive em silêncio, é também o medo mais medido, mais pesquisado, mais tabulado da vida nacional.

A cada ciclo eleitoral, segurança pública figura entre as três principais preocupações do eleitorado brasileiro. Em alguns anos, é a primeira. Isso deveria ser o motor de uma política séria — a base sobre a qual programas de governo competentes seriam construídos, debatidos e cobrados.

É exatamente o oposto.

O ano eleitoral, no Brasil, é o momento em que o medo do cidadão é capturado e convertido em sua própria perpetuação.

O candidato que promete dureza vence o candidato que promete método.

A retórica do confronto vende mais do que o vocabulário da inteligência criminal.

O slogan substitui o diagnóstico.

E o resultado, ciclo após ciclo, é um país que vota em segurança a cada quatro anos e segue inseguro a cada manhã.

Convém olhar para esse fenômeno sem ingenuidade.

A insegurança não é um problema apenas de polícia — é uma falha do contrato democrático no seu nível mais elementar.

Quando o cidadão precisa negociar a rota de casa, esconder o celular, dormir com a porta trancada por dentro do quarto, o que ele está dizendo, em silêncio, é que o Estado não cumpriu a parte mais básica do seu lado.

A democracia brasileira tem uma fissura no próprio piso.

E é nessa fissura que a retórica fácil planta as suas raízes.

As soluções vendidas em campanha falham, em geral, pelas mesmas razões.

O encarceramento massivo, sem inteligência sobre quem se prende e para quê, alimenta as facções dentro do sistema prisional em vez de desarticulá-las — o cárcere brasileiro é hoje, em larga medida, uma extensão administrativa do crime organizado, e isso é resultado de quatro décadas de política penal feita no susto.

A polícia de confronto, treinada e premiada para a letalidade, produz números altíssimos de mortes sem correlação demonstrada com queda de criminalidade — e, em muitos territórios, com aumento.

A confusão deliberada entre dureza retórica e eficácia técnica permite que governos sucessivos se vangloriem de operações espetaculares enquanto os indicadores estruturais não se movem, ou pioram. E há, sobre tudo isso, uma omissão federativa travestida de respeito ao pacto: a União, que detém instrumentos decisivos de inteligência, financiamento e coordenação, alterna entre o engajamento e o abandono conforme a conveniência política do momento, e os estados, sozinhos, não dão conta de fenômenos que cruzam fronteiras e oceanos.

A responsabilidade desse fracasso é compartilhada, e é honesto dizê-lo.

A esquerda brasileira historicamente teve dificuldade de falar de segurança sem desconforto, como se o tema pertencesse ao adversário, e pagou caro por essa hesitação — abandonou ao outro campo a fluência sobre uma das principais demandas populares.

A direita aprendeu a falar com desenvoltura crescente, mas em registro performático: trocou método por gesto, política por encenação, e converteu a frustração legítima do eleitor em combustível para soluções que não funcionam.

Os dois lados, em registros diferentes, deixaram o cidadão refém de um falso dilema entre o silêncio incômodo e o estrondo ineficaz.

O desconforto da análise honesta é admitir que o que efetivamente reduz crime já é conhecido, e que esse conhecimento não cabe em palanque. As experiências bem-sucedidas — de Bogotá a Medellín, do Pacto pela Vida pernambucano em sua melhor fase a São Paulo nos anos 2000 — convergem para um pequeno conjunto de princípios desinteressantes do ponto de vista retórico. Policiamento de proximidade, com a polícia integrada ao território em vez de operando contra ele. Foco em poucos crimes prioritários, com metas claras e públicas. Inteligência criminal voltada para a logística do crime — receptação, lavagem, fluxo de armas — e não apenas para o varejo da rua. Integração federativa real, com compartilhamento de dados e operações coordenadas.

Redução da letalidade policial como métrica explícita de sucesso, e não como sintoma de fraqueza. E, talvez o mais difícil de tudo, paciência institucional: os resultados consistentes em segurança pública aparecem em ciclos de dez, quinze anos.

Os mandatos duram quatro.

Aí está a tensão central da política brasileira sobre o tema.

O que funciona é técnico, é lento, é federativo, é invisível na manchete.

O que vende é imediato, é espetacular, é territorial, é manchete por definição. Entre os dois, o eleitor é convidado, a cada quatro anos, a escolher o segundo — e depois a conviver com as consequências do primeiro não ter sido feito.

Sair dessa armadilha exige uma operação que não é confortável para nenhum dos lados do espectro.

Exige da esquerda que assuma a segurança como tema próprio, sem o pudor de quem teme parecer punitivista, e que ofereça uma narrativa firme, baseada em evidência, sobre o que protege as pessoas.

Exige da direita que abandone a estética da guerra interna e se disponha a defender programas que não rendem aplauso imediato.

Exige de ambos uma honestidade rara: a de dizer ao eleitor que não há atalho, que o ciclo é longo, que o resultado virá depois do mandato de quem o iniciou.

É uma cobrança alta.

Mas é a única que corresponde ao tamanho do problema.

Volto à mulher que pede o carro para duas quadras, à mãe que treina a filha, ao homem que muda de calçada.

Eles não são figuras de retórica.

São o eleitorado real do país, e a sua segurança é a medida concreta da seriedade da democracia que os representa.

Uma democracia que precisa, a cada ciclo, ser convencida de que a integridade física dos seus cidadãos não é assunto de slogan — essa democracia ainda está, em alguma medida, por se fundar.

O ano eleitoral é a oportunidade recorrente de fazer a pergunta certa, e de recusar a resposta fácil. O medo vai estar lá, como sempre esteve.

A questão é se desta vez ele será capturado por quem oferece encenação, ou se será, finalmente, dirigido a quem se disponha a oferecer método.

A diferença entre as duas coisas não é ideológica.

É a diferença entre seguir administrando o medo, cada um por si, ou começar — devagar, tecnicamente, federativamente — a construir o seu contrário.


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The Fear That Votes.


In every electoral cycle, public safety ranks as the greatest concern of Brazilian voters — and remains the issue on which the country’s democracy is most easily seduced by false answers.


In Brazil, there is a small repertoire of gestures that every adult performs without thinking.

The quick scan of a dark street for the next streetlight, the next moving shape, the next exit.

The weight of the phone in the pocket, calculated against the route home.

The mother teaching her child to hand the device over without resisting.

The woman who takes a ride-share to cover two blocks because the sun has set.

The man who crosses to the other sidewalk.

The key turned from inside the bedroom, after the front door has already been locked.

These are not the gestures of a country in crisis.

They are the gestures of a country that has organized itself, over decades, around a fear so constant that it no longer registers as fear. It registers as competence.

Brazilians have become fluent readers of their own cities as risk maps, and that fluency — sad, automatic, shared — already says something about the contract that has failed.

What it says, above all, is that public safety in Brazil long ago ceased to be a public good and became a private burden.

Each citizen manages his own fear with whatever resources he has: higher walls for those who can afford them, alternative routes for those who cannot, resignation for the majority. What ought to be the state’s most basic function has been quietly outsourced to luck.

And here is where the strangeness deepens.

The fear that Brazilians live in silence is also the fear most thoroughly measured in their public life. In every electoral cycle, public safety ranks among the top three concerns of the Brazilian electorate, and in many years it ranks first. This ought to be the engine of serious policy — the foundation on which competent platforms are built, debated, and held to account. It is precisely the opposite.

The Brazilian election year is the moment in which the citizen’s fear is captured and converted into the conditions of its own perpetuation.

The candidate who promises hardness defeats the candidate who promises method.

The rhetoric of confrontation outsells the vocabulary of criminal intelligence.

The slogan replaces the diagnosis. And the result, cycle after cycle, is a country that votes on safety every four years and remains unsafe every morning.

It is worth looking at this without illusion. Insecurity is not, fundamentally, a policing problem. It is a failure of the democratic contract at its most elementary level. When a citizen must negotiate the route home, hide the phone, sleep behind a second locked door, what he is saying — silently, daily — is that the state has not held up its end. There is a fissure in the floor of Brazilian democracy. The easy rhetoric grows in that fissure.

The solutions sold in campaigns tend to fail for the same reasons.

Mass incarceration without intelligence about who is being imprisoned and to what end has, in Brazil, fed the prison-based criminal organizations rather than dismantled them; the country’s penitentiary system has become, in significant measure, an administrative arm of organized crime, and that is the result of four decades of penal policy made in panic.

Confrontational policing, trained and rewarded for lethality, produces extraordinary numbers of deaths with no demonstrated correlation to falling crime — and, in many territories, with rising crime. The deliberate confusion between rhetorical hardness and technical effectiveness allows successive governments to celebrate spectacular operations while the structural indicators refuse to move, or move in the wrong direction.

And above all this sits a federal abdication dressed up as respect for federalism: the Union, which controls decisive instruments of intelligence, financing, and coordination, alternates between engagement and withdrawal according to the political weather, while the states, alone, cannot contain phenomena that cross borders and oceans.

The responsibility for this failure is shared, and honesty requires saying so.

The Brazilian left has historically struggled to speak about public safety without discomfort, as if the subject belonged to its adversary, and has paid dearly for the hesitation — surrendering to the other camp the fluency on one of the most pressing demands of ordinary voters.

The right has learned to speak about safety with growing ease, but in a performative register: it has substituted method with gesture, policy with theater, and converted the legitimate frustration of the electorate into fuel for solutions that do not work.

Both sides, in different keys, have left the citizen hostage to a false choice between awkward silence and ineffective noise.

The uncomfortable truth of any honest analysis is that what reduces crime is already known, and what is known does not fit on a stage.

The successful experiences — Bogotá and Medellín in Colombia, the Pacto pela Vida program in the state of Pernambuco at its most disciplined phase, São Paulo in the 2000s — converge on a small set of principles that are rhetorically uninteresting.

Community-based policing, with the police integrated into the territory rather than operating against it.

A narrow focus on a few priority crimes, with public, measurable targets. Criminal intelligence directed at the logistics of crime — the resale markets, the money flows, the supply of weapons — rather than only at the street-level retail. Real federal coordination, with shared data and joint operations.

The reduction of police lethality treated as an explicit metric of success rather than a sign of weakness. And, hardest of all, institutional patience: meaningful results in public safety appear over ten or fifteen years. Mandates last four.

This is the central tension of Brazilian politics on the issue. What works is technical, slow, federated, invisible in the headline.

What sells is immediate, spectacular, territorial, headline-shaped by definition. Between the two, the voter is invited, every four years, to choose the second — and then to live with the consequences of the first never having been done.

Escaping this trap demands something uncomfortable from both sides of the political spectrum.

It demands that the left claim public safety as its own concern, without the embarrassment of those who fear sounding punitive, and that it offer a confident, evidence-based account of what protects people. It demands that the right abandon the aesthetics of internal warfare and commit to programs that produce no immediate applause.

And it demands of both a rare honesty: the willingness to tell the voter that there is no shortcut, that the cycle is long, that the results will arrive after the mandate of whoever begins the work has ended. It is a high demand.

It is also the only one proportional to the size of the problem.

Return to the woman taking a ride for two blocks, the mother training her daughter, the man crossing the street.

They are not figures of speech.

They are the actual electorate of the country, and their physical safety is the concrete measure of the seriousness of the democracy that claims to represent them.

A democracy that must be persuaded, every four years, that the bodily integrity of its citizens is not a matter for slogans is a democracy still, in some measure, waiting to be founded.

The election year is the recurring opportunity to ask the right question and to refuse the easy answer. The fear will be there, as it has always been.

What remains to be seen is whether, this time, it will be captured by those offering performance, or finally directed toward those willing to offer method.

The difference between the two is not ideological.

It is the difference between continuing to manage fear privately, each citizen for himself, and beginning — slowly, technically, federally — to build its opposite.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

05/05/26
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