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Créu de remada.

Por algumas semanas, o verde-amarelo deixou de ser senha de um lado. Bastou a marra antes da vitória — que nunca veio — para lembrar que união sem humildade dura exatamente até o apito final.



Fazia tempo que eu não via uma bandeira do Brasil sem fazer uma conta rápida na cabeça. A bandeira na varanda, a bandeirinha presa ao retrovisor — e, antes mesmo de acenar para o vizinho, eu já o tinha catalogado: de que lado ele está. Não me orgulho disso. Mas foi o que esses anos nos ensinaram a fazer: transformar um símbolo que pertence a todos os brasileiros numa senha de uns poucos.

Então veio a Copa. E o verde-amarelo voltou a pertencer a todos.

Percebi por mim! A bandeira na janela do outro não me fez pensar logo em política, mas em jogo. Tinha voltado a ser o que era antes de virar fardamento: um lugar onde cabe gente que discorda de tudo, menos do gol.

É isso que é lindo que o futebol faz dentro de uma casa, junta na mesma sala quem mal se fala o ano inteiro. Por noventa minutos, a divergência vira tempero, e não trincheira. Ninguém ali precisa concordar para pertencer ao mesmo time.

Corta para as comemorações pré-jogo com a Noruega.

Um bando de brasileiros em Nova York resolveu inventar uma contra-remada. A torcida norueguesa tinha viralizado o mundo com a remada viking, puxada por Odegaard no tambor — um gesto quase cerimonial, coletivo, limpo. Nós respondemos com o créu — um rebolado vulgar em cima de um dos funks mais grosseiros que este país já produziu, e olha que a concorrência não é pequena. Um grupo de brasileiros escolheu fazer o créu estilizado no Brooklyn e na Times Square, filmado, aplaudido, viralizado, para escrachar um adversário que ainda nem tínhamos vencido. Foi o primeiro gol contra.

Tem uma palavra em inglês que expressa o que eu senti: cringe. Em português: vergonha alheia. Pensei se aquela era a expressão da nossa cultura que queríamos propagar com tanto orgulho. Marra antes de vencer, no nível mais baixo. Como diz o ditado popular, D’us castiga.

Domingo, no MetLife Stadium, o Brasil caiu de 2 a 1 para a Noruega nas oitavas — a pior campanha em 36 anos, desde a Argentina de 1990. Bruno Guimarães perdeu pênalti no primeiro tempo. Haaland fez dois no fim. Neymar descontou nos acréscimos e foi rir na cara do goleiro norueguês — o mesmo gesto, reciclado, de quem já tinha sido eliminado e não sabia.

A eliminação seria melhor se nos preservasse da vergonha. A trégua da bandeira foi boa enquanto durou, mas preferia que não nos unisse na vergonha e na autodifamação.


Créu de remada.

Imagem gerada por IA.

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S’Créu-d.


For a few weeks the green-and-yellow stopped being one side’s password. It took the swagger before a win that never came to remind us that unity without humility only lasts until the final whistle.


For a long time I couldn’t look at a Brazilian flag without running a quick calculation in my head. The flag on a balcony, the little one clipped to a rearview mirror — and before I’d even waved at the neighbor, I’d already filed him: which side is he on. I’m not proud of it. But that’s what these last years trained us to do: take a symbol that belongs to every Brazilian and turn it into a password for a few.

Then the World Cup came. And the green-and-yellow went back to belonging to everyone.

I noticed it in myself. The flag in someone else’s window didn’t make me think of politics first, but of the game. It had gone back to being what it was before it turned into a uniform: a place with room for people who disagree about everything except the goal.

That’s the beautiful thing football does inside a house — it gathers in one room people who barely speak the rest of the year. For ninety minutes, disagreement becomes seasoning, not a trench. No one there has to agree in order to belong to the same team.

Cut to the pre-match celebrations against Norway.

A pack of Brazilians in New York decided to invent a counter-row. Norwegian fans had gone viral worldwide with their Viking row, led by Odegaard on the drum — a gesture almost ceremonial, collective, clean. We answered with créu — a vulgar grind riding one of the crudest funk hits this country has ever produced, and that’s not a low bar. A group of Brazilians chose to perform a stylized créu in Brooklyn and Times Square, filmed, cheered on, gone viral, to mock an opponent we hadn’t even beaten yet. It was the first own goal.

There’s a word in English for what I felt: cringe. In Portuguese: vergonha alheia — secondhand shame. I wondered if that was the expression of our own culture we wanted to broadcast with so much pride. Swagger before winning, at its lowest. As the old saying goes: God don’t like ugly.

On Sunday, at MetLife Stadium, Brazil fell 2-1 to Norway in the round of 16 — the worst campaign in 36 years, since Argentina in 1990. Bruno Guimarães missed a penalty in the first half. Haaland scored twice late. Neymar pulled one back in stoppage time and went to laugh in the Norwegian keeper’s face — the same gesture, recycled, from someone already eliminated who didn’t know it yet.

The elimination would sting less if it had spared us the shame. The flag’s truce was good while it lasted, but I’d rather it hadn’t united us in shame and self-inflicted disgrace.


Créu de remada.


Valéria Monteiro
Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
 
 
 

1 comentário

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Solano Manoel
06 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Seu texto Valéria, vem de encontro a tudo que pensei, e vinha pensando, antes mesmo da partida. Brasil nunca ganhou da Noruega, e no entanto memes foram feitos, tentando reduzir o jogador holandês a uma piada. Sempre o Brasil foi soberbo na questão futebol, mas antes tínhamos um time completo e perfeito. Este estava se desenhando, porém infelizmente, caiu ontem. E a soberba precede a queda de uma forma rápida no futebol. Em 2022, a soberba foi de alguém da própria equipe da seleção, jogou pra fora da mesa da coletiva um gato, imagem essa que causou indignação, e perdemos para a Croácia. E o tombo agora foi maior, pois perdemos para alguém que nunca aprendemos a ganhar dela. E…

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