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O centro perde a tradução: cultura, língua e poder após um show latino no Super Bowl.

Por Valéria Monteiro.

O centro perde a tradução: cultura, língua e poder após um show latino no Super Bowl.

Crédito: Nelson Jr./SCO/STF.

O show de Bad Bunny no Super Bowl não foi uma celebração da diversidade, mas um momento político — que expôs como língua, cultura e poder continuam a ser negociados na esfera pública americana.

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O intervalo do Super Bowl é frequentemente tratado como entretenimento. Mas, na prática, ele funciona como um ritual cívico informal: um espaço em que os Estados Unidos reafirmam, para si e para o mundo, ideias de pertencimento, centralidade cultural e normalidade simbólica.

Foi por isso que o impacto do show protagonizado por Bad Bunny ultrapassou o campo da música. O que se viu não foi apenas a presença de um artista latino em um palco histórico, mas uma ruptura momentânea na engrenagem que costuma organizar a cultura global: a expectativa de que tudo o que vem de fora precise ser traduzido para ser aceito.

O que é o “centro”

Quando falamos em “centro”, não nos referimos a um país específico nem a um público homogêneo. O centro é uma posição de poder simbólico.

É o lugar a partir do qual se define:
• quais línguas podem circular sem explicação
• quais referências são tratadas como universais
• quais expressões culturais precisam ser mediadas, suavizadas ou adaptadas

Historicamente, essa posição tem sido ocupada por instituições culturais sediadas no Norte global — em especial nos Estados Unidos. Não porque toda a sociedade americana represente esse centro, mas porque sua indústria cultural atua, há décadas, como tradutora autorizada da cultura mundial.

Quando a tradução falha

Parte da reação nos Estados Unidos foi marcada por desconforto. Não por falhas artísticas, mas pela ausência de concessões. O espanhol não apareceu como elemento decorativo; foi o idioma dominante. A estética não foi explicada. A performance não se esforçou para se tornar “acessível”.

Esse incômodo não é cultural — é político.

A esfera pública americana está estruturada sobre uma hierarquia linguística clara. Outras línguas podem aparecer, desde que subordinadas. Quando essa hierarquia é interrompida, ainda que por alguns minutos, o centro perde sua função tradicional: a de traduzir, enquadrar e autorizar.

O palco permaneceu o mesmo. O código, não.

Reconhecimento além dos Estados Unidos

Na América ibero-espanhola — designação formal para os países latino-americanos de herança espanhola e portuguesa — a reação foi distinta. Não se tratou apenas de orgulho identitário, mas de reconhecimento político-cultural.

Ao longo do século XX, as culturas latino-americanas circularam globalmente sob condições implícitas. Podiam ser celebradas, desde que permanecessem periféricas. Podiam ser visíveis, desde que aceitassem o rótulo do exótico. Podiam existir, desde que não disputassem o estatuto do universal.

O show rompeu esse acordo silencioso. Não apresentou uma latinidade diluída nem cuidadosamente contextualizada. Apresentou uma identidade específica, localizada, sem legenda.

Por que o Brasil reconhece esse gesto

Para o Brasil, esse movimento é familiar. Mesmo fora do eixo hispânico, compartilhamos a experiência histórica de sermos vistos como curiosidade tropical — ora romantizada, ora simplificada.

Em entrevista ao Conexão GloboNews, o professor Miguel Jost observou que culturas latino-americanas vêm, há décadas, tentando destituir a ideia de que existem primordialmente como sociedades exóticas. No Brasil, esse esforço ganha forma emblemática na Semana de Arte Moderna de 1922, quando artistas rejeitam tanto a submissão cultural à Europa quanto o papel de vitrine folclórica para consumo externo.

O modernismo brasileiro não buscava inclusão no centro. Buscava autonomia simbólica: o direito de produzir linguagem cultural em seus próprios termos.

Mais do que diversidade

Sob essa perspectiva, o show não deve ser lido como um gesto de inclusão multicultural, mas como um reposicionamento político-cultural.

O centro não desaparece. A plataforma continua sendo americana. O que muda é a interrupção do seu papel tradicional de mediador. Pela primeira vez em um evento dessa magnitude, o centro não explicou o que estava vendo — e não conseguiu controlar completamente a reação.

O que fica depois do espetáculo

O legado do show não está nas músicas executadas, mas na tensão que revelou.

Nos Estados Unidos, expôs o desconforto diante de uma cultura que não pede permissão nem se traduz para caber.
Na América ibero-espanhola, produziu reconhecimento ao reativar uma ambição histórica: disputar o universal sem abrir mão do particular.

Não foi apenas entretenimento.
Foi uma fissura breve, mas politicamente eloquente, na hierarquia cultural global.

E fissuras, mais do que discursos, costumam anunciar mudanças.

Veja também no link abaixo:
https://www.valeriamonteiro.com.br/arte-cultura/bad-bunny-alem-do-palco


ENGLISH

When the Center Loses Its Role as Translator: Culture, Language, and Power After a Latin Show at the Super Bowl

Bad Bunny’s Super Bowl performance was not a celebration of diversity, but a political moment—one that exposed how language, culture, and power are still negotiated in the American public sphere.



The Super Bowl halftime show is often framed as entertainment. In practice, it functions as an informal civic ritual — a space where the United States reasserts ideas about belonging, cultural centrality, and symbolic normalcy.

This is why the impact of Bad Bunny’s performance extended beyond music. What unfolded was not merely the presence of a Latin artist on a historic stage, but a temporary disruption of the mechanism that organizes global culture: the expectation that everything coming from outside must be translated in order to be accepted.

What we mean by “the center”

The “center” is neither a specific country nor a unified audience. It is a position of symbolic power.

It is the place from which decisions are made about:
• which languages circulate without explanation
• which references are considered universal
• which cultural expressions must be mediated, softened, or adapted

Historically, this position has been occupied by cultural institutions in the Global North, particularly in the United States. Not because American society as a whole embodies the center, but because its cultural industries have long operated as authorized translators of global meaning.

When translation breaks down

Part of the reaction in the United States was marked by unease. Not because of artistic shortcomings, but because of the absence of mediation. Spanish was not decorative; it was dominant. The aesthetics were not explained. The performance made no effort to become “accessible.”

This discomfort was not cultural — it was political.

The American public sphere is structured around a clear linguistic hierarchy. Other languages may appear, as long as they remain subordinate. When that hierarchy is disrupted, even briefly, the center loses its traditional function: to translate, frame, and authorize meaning.

The stage remained the same. The code did not.

Recognition beyond the U.S.

Across Ibero-American Latin America — the formal designation for Latin American societies shaped by Spanish and Portuguese histories — the response was markedly different. What emerged was not simply pride, but political-cultural recognition.

Throughout the twentieth century, Latin American cultures circulated globally under implicit conditions. They could be celebrated as long as they remained peripheral. They could be visible as long as they accepted the label of the exotic. They could exist — but not compete for universality.

The show disrupted that silent agreement. It did not present a diluted or carefully contextualized Latin identity. It presented a specific, localized one — without subtitles.

Why Brazil recognizes this gesture immediately

For Brazil, this movement resonates deeply. Even outside the Spanish-speaking world, Brazil shares the historical experience of being framed as a tropical curiosity — sometimes romanticized, often simplified.

In an interview with Conexão GloboNews, cultural scholar Miguel Jost noted that Latin American cultures have long attempted to dismantle the idea that they exist primarily as exotic societies. In Brazil, this effort became emblematic during the Week of Modern Art in 1922, when artists rejected both cultural subordination to Europe and the role of folkloric showcase for external consumption.

Brazilian modernism did not seek inclusion in the center. It sought symbolic autonomy: the right to produce cultural language on its own terms.

Beyond diversity

Seen through this lens, the show should not be read as multicultural inclusion, but as political-cultural repositioning.

The center does not disappear. The platform remains American. What changes is the interruption of its traditional role as mediator. For once, the center did not explain what it was seeing — nor fully control the reaction.

What remains after the spectacle

The show’s legacy lies not in the songs performed, but in the tension it exposed.

In the United States, it revealed discomfort with a culture that neither asks permission nor offers translation.
Across Ibero-American Latin America, it generated recognition by reactivating a long-standing ambition: to claim universality without surrendering specificity.

This was not merely entertainment.
It was a brief but politically eloquent fissure in the global cultural hierarchy.

And fissures, more than speeches, tend to signal change.

See also the link below:
https://www.valeriamonteiro.com.br/arte-cultura/bad-bunny-alem-do-palco

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

13 de fevereiro de 2026

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