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Senso Público.

O ditado acertou. Só não previu que a mamata teria passaporte.

Senso Público. O ditado acertou. Só não previu que a mamata teria passaporte.

Imagem gerada por IA.

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O governo que promoveu os cortes mais agudos na Lei Rouanet foi também o que produziu o escárnio. Em abril de 2019, a gestão Bolsonaro derrubou o teto de captação por projeto de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão (https://jornal.usp.br/cultura/mudancas-na-lei-rouanet-sao-positivas-mas-deixam-pontas-soltas/ ); em fevereiro de 2022, uma nova instrução normativa baixou ainda mais esses valores e fixou teto para os cachês dos artistas (https://exame.com/brasil/governo-bolsonaro-oficializa-serie-de-mudancas-na-lei-rouanet-entenda/ ). Ao publicá-la, o secretário especial da Cultura, Mário Frias, comemorou republicando um vídeo de deboche sobre os “mamadores da Rouanet” (https://www.metropoles.com/brasil/lei-rouanet-governo-diminui-cache-de-artistas-individuais-em-93 ). A cena condensa a posição firmada no período: a de que a cultura incentivada era, antes de tudo, um mecanismo de captura de dinheiro público.


Convém olhar o que a Rouanet de fato é, antes do que dela se disse. É um mecanismo de renúncia fiscal com projeto registrado, valor aprovado e prestação de contas. Seu defeito mais sério não está em quem recebe, mas em quem decide: a escolha do projeto incentivado cabe ao departamento de marketing da empresa que renuncia ao imposto, o que tende a premiar o nome de maior vitrine. É uma falha de governança, não de moral — e, por ser de governança, é corrigível. O teto de captação por projeto caiu de sessenta milhões para um milhão de reais (https://www.camara.leg.br/noticias/556156-deputados-criticam-novas-regras-da-lei-rouanet/ ); o cachê de artista solo foi tabelado; o Ministério da Cultura abriu consulta pública para revisar a norma (https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-cultura-moderniza-instrucao-normativa-da-lei-rouanet ). O erro da Rouanet acontece à vista, num sistema que aceita ajuste porque é auditável.


Esse traço — a visibilidade — é o que separa a Rouanet do caso que a ironia da história colocou ao seu lado.


O filme mais caro já produzido no cinema brasileiro é uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, Dark Horse. Seu financiamento, segundo a série Vaza Flávio, do Intercept (https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes/ ), não passou por incentivo cultural algum — a produtora afirma que não usou um centavo de Rouanet. A reportagem revelou que o senador Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, instituição liquidada sob suspeita de lavagem, cerca de R$ 134 milhões para a produção, dos quais ao menos R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos (https://www.intercept.com.br/2026/06/09/planilha-comprovante-bancario-vorcaro-dinheiro-eua-ar-dark-horse/ ), em seis operações entre fevereiro e maio de 2025, a um fundo sediado no Texas, o Havengate, ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal investiga o caso (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dark-horse-produtora-diz-que-filme-sobre-bolsonaro-custou-r-75-milhoes/ ); um inquérito paralelo apura se verba de um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo (https://www.metropoles.com/sao-paulo/produtora-dark-horse-75-milhoes-filme ) foi desviada para a produção.


A distinção que o caso impõe é entre ambição e encanamento. Um orçamento alto não constitui ilícito; a aspiração de uma produção nacional a padrões internacionais é legítima. O que se investiga não é o tamanho do filme, mas a origem dos recursos e o caminho que percorreram. A retórica que transformou a cultura subsidiada em sinônimo de roubo confundiu, de propósito, as duas coisas — tratou a ambição como crime, quando a suspeita, quando existe, recai sobre a estrutura financeira.


Daí a assimetria que desmonta o ditado popular segundo o qual quem acusa projeta a própria conduta. Não se trata de simetria moral, de dois lados igualmente comprometidos. Trata-se de inversão com agravante: o mecanismo condenado é rastreável e corrigível por construção; o mecanismo sob suspeita foi desenhado para não deixar rastro. Quem fez da transparência alheia uma acusação operou, segundo a investigação, na opacidade — banco liquidado, fundo no exterior, suspeita de verba municipal.


Resta a imagem que fecha o ciclo. Um dia antes de Vorcaro ser preso, o senador lhe enviou um áudio cobrando, constrangido, as parcelas atrasadas do patrocínio ao filme. A cobrança mais ruidosa contra a mamata alheia ficou gravada em particular — exigindo o repasse de um banco que o Estado precisaria liquidar no dia seguinte.


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COMMON CENTS.


The old saying was right. It just never guessed the handout would get a passport.


The government that cut deepest into Brazil’s main cultural-incentive law was also the one that turned its beneficiaries into a punchline. In April 2019, the Bolsonaro administration dropped the per-project funding ceiling from sixty million reais to one million (https://jornal.usp.br/cultura/mudancas-na-lei-rouanet-sao-positivas-mas-deixam-pontas-soltas/ ); in February 2022, a new ruling cut those figures further still and capped the fees paid to artists (https://exame.com/brasil/governo-bolsonaro-oficializa-serie-de-mudancas-na-lei-rouanet-entenda/ ). Announcing it, the special secretary of culture, Mário Frias, celebrated by reposting a mocking video about the “freeloaders” feeding off the Rouanet Law (https://www.metropoles.com/brasil/lei-rouanet-governo-diminui-cache-de-artistas-individuais-em-93 ). The scene captures the position that hardened in those years: that subsidized culture was, above all, a scheme for capturing public money.


It is worth looking at what the law actually is, rather than what was said about it. It is a tax-renunciation mechanism with registered projects, approved budgets, and mandatory accounting. Its gravest flaw lies not in who receives the money but in who decides: the choice of which project gets funded rests with the marketing department of the company waiving its taxes, which tends to reward the name with the brightest marquee. That is a failure of governance, not of morality — and because it is governance, it can be fixed. The per-project ceiling fell from sixty million reais to one million (https://www.camara.leg.br/noticias/556156-deputados-criticam-novas-regras-da-lei-rouanet/ ); solo-artist fees were capped; the Culture Ministry opened a public consultation to revise the rules (https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-cultura-moderniza-instrucao-normativa-da-lei-rouanet ). The law errs in plain sight, inside a system that accepts correction because it can be audited.


That trait — visibility — is what separates the Rouanet Law from the case that history’s irony has now set beside it.


The most expensive film ever produced in Brazilian cinema is a biopic of Jair Bolsonaro, Dark Horse. Its financing, according to The Intercept Brasil’s Vaza Flávio series (https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes/ ), ran through no cultural incentive at all — the production company maintains that not a cent of Rouanet money was used. The reporting revealed that Senator Flávio Bolsonaro negotiated some 134 million reais with Daniel Vorcaro, former controller of Banco Master, an institution wound down on suspicion of money laundering, of which at least 61 million reais were actually paid (https://www.intercept.com.br/2026/06/09/planilha-comprovante-bancario-vorcaro-dinheiro-eua-ar-dark-horse/ ), across six transfers between February and May 2025, into a Texas-based fund called Havengate, tied to allies of Eduardo Bolsonaro. The Federal Police is investigating (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dark-horse-produtora-diz-que-filme-sobre-bolsonaro-custou-r-75-milhoes/ ); a separate inquiry is examining whether money from a 108-million-real contract with the city of São Paulo (https://www.metropoles.com/sao-paulo/produtora-dark-horse-75-milhoes-filme ) was diverted into the production.


The distinction the case forces is between ambition and plumbing. A large budget is not a crime; a national production reaching for international standards is legitimate. What is under investigation is not the size of the film but the origin of the money and the route it travelled. The rhetoric that made subsidized culture a synonym for theft deliberately blurred the two — casting ambition as the crime, when the suspicion, where it exists, falls on the financial structure.


Hence the asymmetry that dismantles the folk wisdom that the loudest accuser is rehearsing his own defense. This is not moral symmetry, two equally compromised sides. It is inversion with an aggravating factor: the condemned mechanism is traceable and correctable by design; the mechanism under suspicion was built to leave no trail. Those who turned someone else’s transparency into an accusation operated, according to the investigation, in opacity — a liquidated bank, an offshore fund, suspected municipal money.


One image closes the circle. A day before Vorcaro’s arrest, the senator sent him an audio message, awkwardly chasing the overdue installments of the film’s sponsorship. The loudest cry against everyone else’s freeloading was recorded in private — demanding payment from a bank the state would have to shut down the next morning.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

18 de junho de 2026

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