A Odisseia.

Por Valéria Monteiro.
Christopher Nolan talvez não tenha apenas adaptado Homero. Talvez tenha mostrado um caminho para o cinema na era do streaming.
Durante algum tempo, achei que o cinema tivesse perdido parte de sua razão de existir.
Se uma boa história pode ser vista em casa, numa televisão cada vez maior, com excelente imagem, ótimo som e uma poltrona confortável, por que atravessar a cidade para assistir a um filme?
Sem perceber, eu também havia incorporado uma ideia que se espalhou silenciosamente nos últimos anos: a de que o cinema era apenas um meio de transportar uma narrativa.
A Odisseia, de Christopher Nolan, me fez rever essa convicção.
Não apenas porque adapta um dos textos fundadores da literatura ocidental com rara ambição. Nem porque reúne um elenco extraordinário ou entrega imagens impressionantes. Mas porque me lembrou que algumas histórias não foram feitas apenas para serem assistidas. Foram feitas para serem experimentadas.
Fazia muito tempo que eu não saía de uma sala de cinema com a sensação de que a experiência acontecia também no corpo.
Não é apenas uma questão de tamanho de tela. É a forma como a imagem, o som, a escala, o silêncio e até a presença de outras pessoas na sala passam a fazer parte da narrativa. O filme deixa de ocupar apenas a tela e ocupa também o espaço entre ela e o espectador.
Talvez seja justamente aí que Christopher Nolan esteja apontando um caminho para uma indústria que há anos procura responder ao avan ço das plataformas digitais e do home theater. Em vez de competir pela conveniência, ele aposta naquilo que o ambiente doméstico dificilmente consegue reproduzir: uma experiência coletiva, física e imersiva.
Se você me perguntasse apenas uma coisa — vale pagar o ingresso? — minha resposta seria sim. E, se possível, numa sala IMAX.
Isso não significa que o filme seja perfeito.
Quem conhece bem a epopeia de Homero talvez estranhe o ritmo do primeiro ato. Antes de lançar Ulisses em sua longa travessia, Nolan dedica um tempo considerável à construção do universo e das relações entre os personagens. Para quem já sabe exatamente para onde a narrativa caminha, essa preparação pode parecer mais lenta do que o necessário. Ao mesmo tempo, ela permite que espectadores sem familiaridade com a obra original embarquem na jornada sem se sentirem excluídos.
Quando essa etapa termina, porém, o filme muda de escala.
A adaptação encontra equilíbrio entre espetáculo e significado. Ao contrário de outras versões cinematográficas da mitologia grega, nas quais deuses e monstros frequentemente servem apenas como grandes atrações visuais, aqui eles recuperam sua dimensão simbólica. Cada obstáculo enfrentado por Ulisses é também uma etapa de sua transformação interior.
Foi justamente isso que mais me surpreendeu. Eu esperava algo mais próximo de Troia, centrado sobretudo na guerra e na ação. Nolan prefere devolver protagonismo à própria viagem — à espera, à inteligência, à perda, à perseverança e ao desejo quase obsessivo de voltar para casa.
O elenco acompanha essa escolha com enorme competência. Matt Damon conduz o filme com segurança, mas talvez o maior mérito seja coletivo. Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Robert Pattinson e os demais desaparecem atrás de seus personagens. Em tempos em que tantas superproduções parecem depender do peso de seus astros, é um mérito raro.
Minha principal ressalva está no desenho de som.
A trilha sonora e os efeitos criam uma atmosfera poderosa, mas, em alguns momentos, competem com os diálogos. Não chega a comprometer a narrativa, mas reduz a clareza justamente em cenas que mereciam ser ouvidas com mais nitidez.
Também impressiona a ousadia do projeto.
Com um orçamento estimado em cerca de US$ 250 milhões — o maior da carreira de Christopher Nolan —, a Universal apostou em uma adaptação de um poema escrito há quase três mil anos, sem super-heróis, sem um universo compartilhado e sem a segurança de uma franquia contemporânea. A excelente estreia mundial mostra que ainda existe público disposto a sair de casa quando o cinema oferece algo que vai além da simples exibição de uma história.
Foi essa a sensação que trouxe comigo ao deixar a sala.
Christopher Nolan não me convenceu apenas de que A Odisseia vale o ingresso.
Ele me fez lembrar por que o cinema ainda vale a viagem.
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The Odyssey.
Christopher Nolan may have done more than adapt Homer. He may have offered a blueprint for cinema in the age of streaming.
For a while, I began to wonder whether movie theaters had quietly become optional.
If a compelling story can be experienced at home on a beautiful television, with excellent sound and a comfortable seat, why make the trip?
Without quite realizing it, I had embraced an assumption that has spread almost unnoticed over the past decade: that cinema is simply another way of delivering a story.
The Odyssey made me question that assumption.
Not merely because Christopher Nolan has transformed one of the foundational works of Western literature into a remarkably ambitious film. Nor because of its extraordinary cast or breathtaking imagery. What stayed with me was something more fundamental.
Some stories are not simply meant to be watched. They are meant to be experienced.
It had been years since I left a movie theater feeling that a film had engaged not only my attention, but my senses.
This has very little to do with the size of the screen alone. It is the way image, sound, scale, silence, and even the presence of hundreds of strangers become part of the storytelling. The film no longer exists only on the screen. It fills the entire room.
That may ultimately be Nolan’s most important achievement. Rather than competing with streaming platforms or increasingly sophisticated home theaters on convenience, he reminds us that theatrical cinema still possesses something uniquely its own: the ability to create a shared, immersive experience that cannot simply be recreated at home.
If you ask whether the ticket is worth buying, my answer is yes.
If possible, see it in IMAX.
That does not mean the film is flawless.
Ironically, viewers already familiar with Homer’s epic may find themselves exercising the most patience during the opening act. Nolan spends considerable time introducing relationships, motivations, and the world surrounding Odysseus—not because seasoned readers need the explanation, but because millions of moviegoers do. The deliberate pacing broadens the film’s accessibility, even if it briefly slows the momentum for those who already know where the journey is heading.
Once that foundation has been laid, however, the film opens magnificently.
Unlike many modern adaptations of Greek mythology, where gods and monsters often function primarily as spectacle, Nolan restores their symbolic weight. Every encounter becomes more than an obstacle. Each one reveals another stage of Odysseus’s long transformation.
That was perhaps my greatest surprise.
I expected something closer to Troy: a film driven primarily by war, action, and military heroism. Nolan is interested in something richer. His film is about endurance, intelligence, temptation, loss, resilience, and the almost unbearable desire to return home.
The ensemble embraces that vision beautifully. Matt Damon anchors the story with quiet authority, but one of the film’s greatest accomplishments is how completely its stars disappear into their characters. Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Robert Pattinson, and the rest never feel like celebrities visiting ancient Greece. They simply belong there.
My only significant reservation concerns the sound mix.
The score and sound design are often magnificent, yet there are moments when they overwhelm the dialogue, making important exchanges more difficult to follow than they should be.
The film’s ambition extends well beyond its storytelling.
Produced for an estimated budget of around $250 million—the largest of Nolan’s career—it represents an unusually bold investment in an era dominated by established franchises and intellectual property. A nearly three-thousand-year-old poem, without superheroes or a shared cinematic universe, has become one of the year’s biggest theatrical events.
Perhaps that, more than anything else, explains why The Odyssey feels important.
Christopher Nolan did not simply remind me that this film was worth leaving home for.
He reminded me why going to the movies still is.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
20 de jul. de 2026
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