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Da persuasão ao constrangimento:

Groenlândia, tarifas e a política da coerção.

Da persuasão ao constrangimento:

Durante décadas, a política externa das grandes potências operou sob uma tensão permanente entre força e persuasão. Mesmo quando assimétrica, a diplomacia preservava ao menos a forma do convencimento: alianças eram negociadas, pressões eram disfarçadas, e a coerção raramente se apresentava como método declarado. O que se observa agora, sob Donald Trump, é uma inflexão mais profunda: a substituição progressiva da persuasão pelo constrangimento explícito como linguagem do poder.


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A ameaça de elevar tarifas contra países que se recusem a se alinhar aos Estados Unidos quanto ao futuro da Groenlândia — que Trump afirma querer submeter a “controle completo e total” — não deve ser lida como mero instrumento comercial. Tarifas, nesse contexto, deixam de ser mecanismo econômico para se tornarem instrumentos de coerção política, capazes de impor escolhas estratégicas a aliados formais. O comércio passa a funcionar como alavanca de submissão, não de interdependência.


Esse deslocamento ganhou novo peso depois das ações recentes dos Estados Unidos na Venezuela e das ameaças reiteradas ao regime iraniano. Ainda que cada episódio tenha sua lógica própria, o padrão que se consolida é outro: o poder deixa de ser exercido dentro de limites tácitos e passa a ser testado como imposição direta. Nesse ambiente, até declarações antes tratadas como bravatas — como a ideia de transformar o Canadá no 51º estado americano — deixam de soar como piada geopolítica e passam a ocupar um território mais inquietante.


É nesse contexto que a Groenlândia assume centralidade. Não apenas por sua posição estratégica no Ártico, mas por simbolizar algo maior: a disposição de Washington de redefinir soberania como variável negociável, desde que o custo da resistência seja alto o suficiente. O que antes exigia consenso passa a ser obtido por desgaste, pressão econômica e constrangimento diplomático.


Hoje, essa lógica foi explicitada sem rodeios. Em carta enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, Donald Trump afirmou que “o mundo não é seguro a menos que tenhamos controle completo e total da Groenlândia”. Na mesma mensagem, ao comentar o fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, escreveu:


“Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter encerrado oito guerras — e mais —, já não me sinto obrigado a pensar exclusivamente na paz, embora ela continue predominante. Posso agora pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América.”


As frases não são apenas reveladoras; são estruturantes. Ao vincular a ausência de um prêmio simbólico à liberação para agir fora do registro da paz, Trump abandona a ambiguidade diplomática e transforma ressentimento pessoal em argumento político. A paz deixa de ser princípio; torna-se escolha contingente, subordinada à conveniência estratégica.


Esse ponto dialoga diretamente com o primeiro encontro entre Trump e Volodymyr Zelensky na Casa Branca, quando o presidente da Ucrânia foi publicamente constrangido e lembrado de que “não tinha as cartas”. A cena foi emblemática não apenas pela humilhação, mas pelo recado: no novo vocabulário do poder, legitimidade importa menos do que capacidade de coerção.


O que emerge, portanto, não é apenas uma política externa mais agressiva, mas uma filosofia implícita de governo internacional: o might is right não como slogan, mas como prática. Aqui, “força” não se limita ao uso militar; inclui tarifas, sanções, isolamento diplomático, chantagem econômica e exposição pública. A coerção passa a ser o idioma comum.


O risco desse modelo não reside apenas nos conflitos que ele pode gerar, mas na erosão silenciosa das regras que, imperfeitas ou não, ainda funcionavam como contenção. Quando a potência mais influente do sistema internacional normaliza o constrangimento como método, ela autoriza outros a fazerem o mesmo — com menos poder, menos freios e muito mais instabilidade.


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Inglês: 🇺🇸👇


From persuasion to pressure:

Greenland, tariffs, and the politics of coercion.


For decades, great-power foreign policy operated under a permanent tension between force and persuasion. Even when asymmetric, diplomacy preserved the appearance of consent: alliances were negotiated, pressure was veiled, and coercion was rarely stated outright. What is now emerging under Donald Trump is a deeper shift: the gradual replacement of persuasion with explicit pressure as the language of power.


The threat to raise tariffs against countries unwilling to align with the United States on the future of Greenland — which Trump has said must be placed under “complete and total control” — should not be read as a mere trade tactic. In this context, tariffs cease to be economic tools and become instruments of political coercion, designed to impose strategic choices on formal allies. Trade turns into leverage, not interdependence.


This shift has taken on new meaning following recent U.S. actions in Venezuela and renewed threats toward Iran. While each episode has its own logic, a broader pattern is consolidating: power is no longer exercised within tacit limits but tested as direct imposition. In such an environment, statements once dismissed as bluster — such as the idea of turning Canada into the 51st U.S. state — no longer sound entirely absurd.


Greenland sits at the center of this transformation. Not only because of its strategic Arctic position, but because it symbolizes something larger: Washington’s willingness to treat sovereignty as negotiable, provided resistance becomes costly enough. What once required consensus is now pursued through attrition, economic pressure, and diplomatic intimidation.


Today, this logic was stated openly. In a letter to Norwegian Prime Minister Jonas Gahr Støre, Donald Trump wrote that “the world is not secure unless we have complete and total control of Greenland.” In the same message, referring to not having received the Nobel Peace Prize, he added:


“Considering your Country decided not to give me the Nobel Peace Prize for having stopped 8 Wars PLUS, I no longer feel an obligation to think purely of Peace, although it will always be predominant, but can now think about what is good and proper for the United States of America.”


The sentences are more than revealing; they are structural. By linking the absence of a symbolic award to freedom from the obligation of peace, Trump dispenses with diplomatic ambiguity and turns personal grievance into political rationale. Peace ceases to be a principle and becomes a conditional option.


This moment echoes Trump’s first White House meeting with Volodymyr Zelensky, when the Ukrainian president was publicly reminded that he “didn’t have the cards.” The scene mattered not only for its humiliation, but for its message: in the new grammar of power, legitimacy matters less than leverage.


What emerges, then, is not merely a more aggressive foreign policy, but an implicit governing philosophy: might is right not as slogan, but as operating system. Here, “might” extends beyond military force to include tariffs, sanctions, diplomatic isolation, and public pressure. Coercion becomes the common language.


The danger of this model lies not only in the conflicts it may provoke, but in the quiet erosion of the rules that once served as restraints. When the most powerful actor in the international system normalizes pressure as method, it licenses others to do the same — with less power, fewer limits, and far greater instability.


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Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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