top of page

María Corina Machado e o Nobel em tempos de poder duro:

Símbolo de paz ou peça em um tabuleiro maior?

María Corina Machado e o Nobel em tempos de poder duro:

Quando María Corina Machado ergue o Nobel da Paz e o dedica a Donald Trump — figura que, para muitos analistas, encarna uma política externa baseada em força, pressão e unilateralismo — o gesto ecoa muito além da celebração individual. Ele reverbera num tabuleiro continental tensionado, em que o passado e o futuro da Venezuela cruzam interesses globais, disputas internas e a sombra de um autoritarismo que não é monopólio de esquerda nem de direita.

(Scroll down for English)

A pergunta fundamental não é se Machado merece o Nobel; é o que significa esse Nobel no contexto geopolítico atual, e para quem ele serve.

Um Nobel que vira narrativa

Para parte da comunidade internacional, a Venezuela vive há anos sob um regime autoritário, marcado por violações de direitos humanos e colapso institucional. Para outra parte, qualquer intervenção externa — sobretudo norte-americana — constitui uma ameaça à soberania latino-americana e reedita a velha doutrina da influência hemisférica.

É nesse cenário de percepções conflituosas que o gesto de Machado se inscreve. Ao associar sua conquista moral a uma figura política polarizadora, ela realinha o simbolismo do Nobel com um projeto que é, para muitos, menos de paz e mais de “pressão estratégica”.

Em outras palavras: o prêmio, que deveria conter a promessa de reconciliação, é rapidamente convertido em ativo geopolítico.

Peão involuntário ou colaboradora consciente?

A questão mais incômoda — e a mais importante — é esta:
Machado está sendo usada como instrumento da política externa trumpista ou atua como colaboradora de um projeto que representa uma elite venezuelana derrotada por Chávez e agora ansiosa por retornar ao poder?

Ambas as leituras coexistem, e ambas são perigosas.

Se ela é peão, torna-se vítima de um jogo maior: seu capital moral é apropriado para legitimar agendas externas que pouco têm a ver com democracia e muito com geopolítica.

Se ela é colaboradora consciente, sua agenda deixa de ser exclusivamente a democratização do país para se tornar a reinstalação de um modelo de poder — econômico, político e social — que já foi rejeitado por parte significativa da população venezuelana no passado.

Em ambos os casos, o risco é o mesmo: o futuro da Venezuela deixa de ser decidido pelos venezuelanos.

O problema estrutural: a América Latina como terreno de projeção

A América Latina tem um padrão histórico:
— quando governos progressistas ganham força, surgem acusações de alinhamento com autoritários de esquerda;
— quando lideranças liberais despontam, multiplicam-se suspeitas de submissão a interesses externos conservadores.

Assim, nenhuma liderança latino-americana consegue ser plenamente lida dentro de sua própria realidade — sempre é arrastada para o teatro de operações das grandes potências.

O Nobel de Machado, como gesto e como narrativa, cai exatamente nesse vácuo histórico. Em vez de consolidar uma agenda de pacificação e reconstrução institucional, corre o risco de polarizar ainda mais um país já dilacerado — e de alimentar projetos que enxergam a região como plataforma, não como pátria.

O que resta ao continente

Diante disso, é legítimo perguntar:
A América Latina ainda consegue produzir lideranças que não dependam de tutores externos?
É possível que o Nobel volte a simbolizar paz, e não poder?

O futuro de Machado — e da Venezuela — dependerá menos das cerimônias internacionais e mais da capacidade de construir legitimidade local, dialogar com todos os setores e recusar o papel de peça num tabuleiro cujo centro de gravidade nunca está em Caracas.

Enquanto isso, o continente observa — dividido, esperançoso e exausto — mais um capítulo da velha disputa entre soberania e influência, democracia e poder, paz e narrativa.

Leia mais em:
https://www.valeriamonteiro.com.br/editorial/maria-corina-machado-nobel-da-paz



Inglês:
María Corina Machado and the Nobel in an Age of Hard Power: Symbol of Peace or Pawn on a Bigger Board?

When María Corina Machado lifts the Nobel Peace Prize and dedicates it to Donald Trump — a figure widely associated with force-based, pressure-driven foreign policy — the gesture travels far beyond personal celebration. It resonates across a continent shaped by global interests, internal fractures, and the constant risk that authoritarianism can emerge from any ideological direction.

The central question is not whether Machado deserves the Nobel. It is what this Nobel means now, and whose interests it ultimately serves.

A Nobel transformed into narrative

To part of the international community, Venezuela lives under an authoritarian regime marked by repression and institutional collapse. To others, external intervention — especially from the United States — represents a violation of sovereignty and a replay of hemispheric dominance.

Machado’s dedication moves inside this battlefield of interpretations. By linking her moral achievement to a polarizing political figure, she redirects the Nobel’s symbolism toward a project seen by many as rooted less in peace and more in “strategic pressure.”

In short: a prize meant to foster reconciliation becomes a geopolitical asset.

Unwitting pawn or strategic collaborator?

This is the question that stings:
Is Machado being used as an instrument of Trump-style foreign policy, or does she actively collaborate with a displaced Venezuelan elite seeking to return to power?

Both interpretations exist. Both are dangerous.

If she is a pawn, her moral authority is appropriated to validate agendas that are not fundamentally about democracy, but about geopolitical leverage.

If she is a collaborator, her mission shifts from democratization to the reinstatement of a political and economic model that a significant portion of Venezuelans rejected during the rise of Chávez.

In both scenarios, the danger is identical: Venezuela’s future slips out of Venezuelan hands.

The structural problem: Latin America as projection zone

Latin America follows a persistent pattern:
— left-leaning governments are accused of aligning with authoritarian regimes;
— liberal or right-leaning leaders are accused of subservience to conservative foreign powers.

No leader escapes this gravitational pull. The region is rarely allowed to speak for itself.

Machado’s Nobel, as symbol and narrative, falls straight into this historical void. Instead of bolstering a roadmap for peace and institutional rebuilding, it risks deepening polarization and feeding projects that treat the region as a platform rather than a homeland.

What remains for the continent

The real questions now:
Can Latin America still produce leaders free from foreign tutelage?
Can the Nobel recover its meaning as a symbol of peace rather than power?

Machado’s future — and Venezuela’s — will depend less on international ceremonies and more on building local legitimacy, engaging all sectors, and refusing to become a piece in a game whose center of gravity lies far from Caracas.

The continent watches — divided, hopeful, exhausted — as another chapter unfolds in the long struggle between sovereignty and influence, democracy and power, peace and narrative.

Read more at:
https://www.valeriamonteiro.com.br/editorial/maria-corina-machado-nobel-da-paz

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

Leia também

A política da vida melhor:

Do discurso dos direitos à promessa de prosperidade vivida.

Inovação e bioeconomia:

A nova fronteira da Amazônia na COP 30.

bottom of page