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Pompa e circunstâncias para negócios bilionários.

Por Valéria Monteiro.

Pompa e circunstâncias para negócios bilionários.

Da carruagem ao banquete, a visita de Trump a Windsor uniu coreografia régia, gestos calculados e cifras bilionárias — mas deixou no ar a dúvida sobre quem realmente ganha com essa amizade.

O cenário foi de conto de fadas embalado em carruagem, música e ouro. Cada gesto, do rigor dos uniformes à cadência dos desfiles, compôs uma coreografia meticulosa, absorvida como se o visitante fosse, por um dia, rei.

À noite, o ponto alto: o banquete de Estado oferecido por Charles e Camilla no Castelo de Windsor, diante de menos de duzentos convidados selecionados entre a realeza, magnatas da tecnologia e figuras da imprensa.

As falas acompanharam a encenação. Trump descreveu a visita como “uma das maiores honras da minha vida”, disse que a relação EUA–Reino Unido é “inestimável e eterna” e recorreu à imagem: “somos como duas notas de um mesmo acorde ou dois versos de um mesmo poema”. Não resistiu a elogiar a princesa Kate: “tão radiante, tão saudável… tão bela”.

Charles, em contraste, manteve a sobriedade. Evocou a “aliança permanente” entre os dois países, lembrou a Segunda Guerra como lição de preservar a paz e defendeu proteger os “tesouros naturais” para as próximas gerações. Um brinde sóbrio, carregado de recados sutis sobre clima e geopolítica, sem precisar citar nomes.

Fora dos salões, o contraste era evidente. Em Windsor, ativistas projetaram imagens de Trump com Jeffrey Epstein nos muros do castelo, em protesto contra a recepção luxuosa, ação que resultou na prisão de quatro pessoas. Já em Londres, manifestações maiores reuniram milhares sob a vigilância de 1.600 policiais. Dentro, rapapés e brindes dourados; fora, indignação popular e memórias de escândalos que ainda o perseguem.



Frutos do banquete e a agenda de hoje

No dia seguinte, a pompa ganhou tradução em cifras. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, anunciou £500 milhões na NScale e declarou que o Reino Unido está a caminho de se tornar uma “superpotência em inteligência artificial”. O governo revelou um pacote de £150 bilhões em compromissos: a Blackstone com £90 bilhões adicionais, além de £10 bilhões já previstos para data centers; a BlackRock, com £500 milhões em novos centros e promessa de £7 bilhões no mercado britânico no próximo ano.

O primeiro-ministro Keir Starmer tratou de capitalizar o momento, exibindo os números como motor de empregos e prosperidade: mais de 3.000 vagas com a Amentum, além de novos postos em defesa, tecnologia e manufatura. Em sua narrativa, os salões de Windsor se transformam em motor de crescimento econômico e prestígio internacional.

Hoje, a agenda oficial prevê encontros bilaterais entre Trump e Starmer, anúncios em inteligência artificial, energia nuclear e tarifas comerciais, além de declarações conjuntas sobre as guerras em Gaza e na Ucrânia. Serão os testes práticos do que até agora foi envolto em pompa, ouro e encenação.



Entre teatro e cálculo político

Os números podem impressionar, mas não apagam o desconforto de uma encenação opulenta diante de uma opinião pública descrente. Pesquisas recentes indicam que seis em cada dez britânicos não veem nessa amizade algo que valha a pena, já que Trump é percebido como instável, hostil às causas ambientais e corrosivo para as instituições democráticas.

Cabe a Starmer provar que o brilho de Windsor não foi apenas teatro diplomático, mas o início de acordos que tragam prosperidade real. Caso contrário, arrisca-se a colher, no lugar de dividendos políticos, a ressaca amarga de ter investido tanto luxo e simbolismo para encantar um homem — e dividir um país.

Inglês:
Pomp and Circumstance for Billion-Dollar Deals.

From the carriage to the banquet, Trump’s visit to Windsor combined royal choreography, calculated gestures, and billion-pound promises — but left hanging the question of who really benefits from this friendship.

The setting was a fairy tale wrapped in carriage rides, music, and gold. Every gesture, from the rigor of the uniforms to the cadence of the parades, formed a meticulous choreography, absorbed as if the visitor were, for one day, a king.

At night came the high point: the state banquet offered by Charles and Camilla at Windsor Castle, before fewer than two hundred guests selected among royalty, tech magnates, and members of the press.

The speeches followed the script. Trump described the visit as “one of the greatest honors of my life”, said that the US–UK relationship is “invaluable and eternal”, and reached for imagery: “we are like two notes of the same chord or two verses of the same poem”. He did not resist adding flattery for Princess Kate: “so radiant, so healthy… so beautiful”.

Charles, by contrast, maintained sobriety. He invoked the “enduring alliance” between the two countries, recalled World War II as a lesson in the need to preserve peace, and emphasized the duty to protect the “natural treasures” for future generations. A discreet toast, filled with subtext about climate and geopolitics, without naming names.

Outside the halls, the contrast was stark. In Windsor, activists projected images of Trump with Jeffrey Epstein onto the castle walls, in protest against the lavish reception — an act that led to the arrest of four people. Meanwhile in London, larger demonstrations spread through the streets, under the watch of 1,600 police officers. Inside, pomp and golden toasts; outside, popular indignation and the lingering shadow of scandals that still follow the guest of honor.



Fruits of the Banquet and Today’s Agenda

The following day, pomp translated into figures. Nvidia CEO Jensen Huang announced £500 million for NScale and declared that the UK is on its way to becoming an “AI superpower”. The government unveiled a £150 billion package of commitments: Blackstone pledging £90 billion, in addition to £10 billion already destined for data centers; BlackRock committing £500 million for new centers and planning to inject £7 billion into the British market in the coming year.

Prime Minister Keir Starmer was quick to capitalize, showcasing the figures as a driver of jobs and prosperity: more than 3,000 positions with Amentum, alongside new roles in defense, technology, and manufacturing. In his narrative, Windsor’s gilded halls transform into engines of economic growth and international prestige.

Today, the official agenda foresees bilateral meetings between Trump and Starmer, announcements in artificial intelligence, nuclear energy, and trade tariffs, as well as joint statements on the wars in Gaza and Ukraine. It will be the practical test of what, so far, has been wrapped in pomp, gold, and ceremony.



Between Theater and Political Calculation

The numbers may impress, but they do not erase the discomfort of such opulence in the face of a skeptical public. Recent polls indicate that six in ten Britons do not believe this friendship is worth pursuing, since Trump is seen as unstable, hostile to environmental causes, and corrosive to democratic institutions.

It is now up to Starmer to prove that Windsor’s glitter was not just diplomatic theater, but the beginning of agreements that bring real prosperity. Otherwise, he risks harvesting not political dividends but the bitter aftertaste of having invested so much luxury and symbolism to enchant one man — and divide a nation.

Veja também:
https://www.valeriamonteiro.com.br/politica/entre-frustracao-e-encanto-donald-trump-londres

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

19 de jan. de 2026

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