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A carta de Trump ao Brasil:

Choque, reação e oportunidade.

A carta de Trump ao Brasil:
Crédito:Daniel Torok/White House.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, enviou ao Brasil uma carta que, à primeira vista, já revelava algo diferente de suas costumeiras provocações ruidosas. Não se tratava de um tuíte impulsivo ou de um comentário de campanha. Era um documento formal, entregue por canais diplomáticos, dirigido a um governo soberano — com acusações graves, interferência institucional e consequências econômicas concretas.

Ao afirmar que o Supremo Tribunal Federal atua com motivação política, que as eleições de 2022 foram fraudadas e que Jair Bolsonaro é alvo de perseguição, e ao anunciar tarifas de 50% sobre exportações brasileiras, Trump rompeu com as convenções da diplomacia internacional e lançou uma ofensiva inédita contra a soberania do Brasil.

Nossa resposta a esse gesto — e o que faremos a partir dele — pode determinar não apenas nossa posição geopolítica, mas o tipo de país que estamos dispostos a ser.



Um gesto que fala a muitos — mas é sobre um só

Trump não escreve apenas ao Brasil. Escreve aos seus eleitores, aos tribunais que o investigam nos EUA, e ao mundo que ainda o vê como um ator imprevisível, mas influente. Ao comparar os ataques de 8 de janeiro em Brasília aos de 6 de janeiro em Washington, tenta reescrever sua própria história e criar um paralelo que o isente de culpa, sugerindo que o autoritarismo é uma resposta legítima à desconfiança nas urnas — em qualquer lugar do mundo.

A carta não é sobre nós — mas a escolha do Brasil como palco diz muito. E exige resposta à altura.



O momento é revelador
1. Reposicionamento internacional
A carta veio logo após a cúpula dos BRICS, onde o Brasil defendeu o uso de moedas locais e maior autonomia frente aos EUA e Europa. Ao mirar no Brasil, Trump tenta desestabilizar um dos vértices de um possível novo eixo de poder global.
2. Ruído estratégico
Trump não precisa de coerência. Precisa de impacto. E ele governa pelo barulho. A carta ao Brasil é apenas mais um abalo controlado em sua estratégia de comunicação: ruídos frequentes, choques calculados e uma narrativa em constante ebulição.
3. Espelho narrativo
Ao transformar o Brasil num espelho conveniente para sua própria trajetória, Trump internacionaliza sua retórica doméstica, tentando legitimar ataques à democracia e às instituições sob o disfarce da equivalência.



As consequências em curso

💰 Econômicas
As tarifas atingem diretamente setores como aço, carne, soja, químicos e manufaturados. Projeções indicam impacto negativo de até 0,5 ponto percentual no PIB, além de pressão sobre o emprego e a inflação.

🏛️ Políticas
A carta não fortalece institucionalmente o bolsonarismo, mas oferece munição para sua lógica de atuação: a do “quanto pior, melhor”. É a mesma estratégia que a extrema-direita atribuía à esquerda quando Bolsonaro estava no poder. Hoje, os mesmos que se diziam patriotas celebram um ataque externo ao país, desde que sirva à sua ideologia.

A incoerência é flagrante: em nome de um projeto pessoal de poder, vale até abrir mão da soberania e da consistência.

🌐 Diplomáticas
A devolução da carta pelo Itamaraty foi um gesto firme. Lula reagiu prometendo reciprocidade comercial, e o Brasil começou a costurar apoios na OMC e entre países democráticos. O episódio coloca o país como protagonista de uma disputa global que não escolheu, mas à qual não pode fugir.



Quando a crise revela caminhos

Mais do que uma ameaça, a carta expõe nossas vulnerabilidades: a dependência de exportações primárias, a fragilidade da industrialização e a ausência de um projeto nacional que priorize autonomia e inovação.

Mas também revela uma oportunidade rara:
• Para investir em cadeias produtivas locais e reindustrialização verde;
• Para valorizar a agroecologia e a segurança alimentar sustentável;
• Para adotar métricas de desenvolvimento que vão além do PIB — como qualidade de vida, justiça climática e inclusão.

Crescer, sim — mas crescer diferente.



Reagir ou redefinir?

A carta de Trump poderia ter sido apenas mais uma provocação. Mas o Brasil, se reagir com firmeza, criatividade e clareza de rumo, pode transformá-la em ponto de virada. O país tem a chance de recusar o papel de espelho — e afirmar sua identidade própria, democrática e soberana.



📎 Leia também:
O Palácio dos Espelhos – vaidade, poder e a encenação perigosa de Trump, Putin e Netanyahu.
https://www.valeriamonteiro.com.br/post/o-palacio-dos-espelhos-vaidade-como-metodo-de-poder

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.

11/07/25
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