A bola é redonda.
O mundo também.

Imagem gerada por IA.
A ligação de Trump apagou o cartão vermelho do time americano — e devolveu, em dobro, o troco que a Casa Branca queria evitar.
Aos 18 minutos do segundo tempo, o atacante Folarin Balogun pisou no tornozelo de Tarik Muharemović. O árbitro brasileiro Raphael Claus consultou o VAR, confirmou o lance e mostrou o cartão vermelho. Os Estados Unidos, que já venciam a Bósnia e Herzegovina por 2 a 0, terminaram a fase de 32 avos com um jogador a menos e o artilheiro do time — três gols em três partidas — suspenso para as oitavas de final contra a Bélgica.
Até aqui, futebol. O que veio depois é que transformou o episódio em algo maior do que um lance de jogo.
No mesmo dia da expulsão, o presidente Donald Trump telefonou pessoalmente para Gianni Infantino, presidente da Fifa, para entender por que o cartão tinha sido dado e por que a suspensão automática se aplicava. No domingo seguinte, a Fifa anunciou que a suspensão de Balogun ficava suspensa por um período probatório de um ano, com base no artigo 27 do seu Código Disciplinar — o mesmo artigo que, no início do ano, já havia sido usado para suspender dois dos três jogos de punição de Cristiano Ronaldo após uma expulsão contra a Irlanda. O cartão vermelho continua no registro do jogador; some apenas o efeito prático dele. Balogun jogou contra a Bélgica.
A Fifa insiste que a decisão partiu de um órgão disciplinar independente. O próprio Trump confirmou o telefonema publicamente, no Salão Oval: "Tudo que fiz foi pedir uma revisão. Eu não disse que tinham que fazer isso." Infantino também se manifestou, em nota, confirmando a ligação — mas reforçando que "os órgãos judiciais da Fifa são independentes" e que recebe chamadas de chefes de Estado e dirigentes do futebol regularmente, "sobre diferentes assuntos". A seleção americana também tem sua defesa: o técnico Mauricio Pochettino já dizia, antes de qualquer revisão, que o lance "nunca foi cartão vermelho", e lembrou que o time já havia sido penalizado ao jogar trinta minutos com um a menos contra a Bósnia.
Trump, por sua vez, não se limitou a pedir uma revisão discreta. Em entrevista coletiva no Salão Oval, fez questão de deixar claro que entende do assunto: "Sou alguém que gosta de esportes, e aquilo não foi falta. São dois grandes atletas que se chocaram." Foi além: chamou a marcação de "horrível" e lançou suspeita sobre o próprio árbitro. "Esse árbitro, que é um pouco suspeito, se você verificar o histórico dele... Se você quiser, eu lhe forneço o histórico dele", disse, sem jamais apresentar um único argumento ou documento que sustentasse a acusação. Na mesma entrevista, admitiu algo que destoa do especialista em esportes que dizia ser: não sabia, de início, o que um cartão vermelho significava — só entendeu a gravidade quando lhe disseram que implicaria suspensão para a partida seguinte.
A Confederação Brasileira de Futebol não deixou a insinuação no ar. Em nota oficial, classificou Claus como "um dos melhores árbitros em atividade" no mundo, com carreira "marcada por excelência técnica, conduta ética e absoluto respeito ao futebol", e afirmou que "não há, em todo o seu histórico, qualquer elemento que o desabone ou que sustente qualquer tipo de suspeita". Paulista de 45 anos, no quadro da Fifa desde 2015, Claus já apitou a Copa do Catar em 2022 e é hoje um dos árbitros mais escalados para clássicos e decisões do futebol brasileiro — currículo que a acusação presidencial não conseguiu, até aqui, contradizer com um único fato concreto.
O problema é que nada disso explica por que a reversão aconteceu depois do telefonema, e não antes — nem por que, segundo o Axios, é a primeira vez desde 1962 que um cartão vermelho em Copa do Mundo deixa de resultar em suspensão. E aqui a coincidência histórica dói duplamente para o público brasileiro: o episódio de 1962 envolveu Garrincha, expulso aos 83 minutos da semifinal contra o Chile — sede daquela Copa — numa suspensão que também acabou revertida em meio a suspeitas de influência política. Seis décadas depois, o Brasil aparece de novo no meio da história. Desta vez, não como beneficiário: como o país do árbitro que ficou no caminho.
A reação internacional não deixou dúvida sobre como o episódio foi lido fora dos Estados Unidos. A Uefa acusou a Fifa de cruzar o que chamou de linha vermelha, classificando a decisão como inédita, incompreensível e injustificável. A federação belga disse estar atônita e avalia contestar formalmente a medida, sustentando que ela contraria tanto o Código Disciplinar quanto o regulamento específico do Mundial. O ex-presidente da Fifa Joseph Blatter — que também não é estranho a polêmicas de bastidor — resumiu a questão de forma direta: cartões vermelhos não se revertem por telefonemas políticos, eles se revertem por regras, provas e instâncias independentes. "Quo vadis, Fifa?", perguntou.
Há também a camada que antecede este caso específico. Infantino e Trump já apareciam juntos publicamente antes da Copa, em eventos políticos e esportivos, e o presidente americano já havia chamado o dirigente de "grande amigo". Em dezembro de 2025, durante o sorteio dos grupos do Mundial, Infantino foi além dos elogios: criou, ali mesmo, a primeira edição de um inédito "Prêmio da Paz" da Fifa — e o entregou a Trump, dizendo que ele "certamente merecia" a honraria. O gesto foi lido quase unanimemente como um troféu de consolação, entregue meses depois de Trump não conseguir o Nobel da Paz que perseguia. A Federação Norueguesa de Futebol chegou a pedir publicamente a extinção do prêmio, alegando que a Fifa não deveria disputar terreno com o Instituto Nobel nem se aproximar tanto de chefes de Estado. A ONG FairSquare apresentou queixa formal ao Comitê de Ética da Fifa, apontando violações às regras de neutralidade política da própria entidade. Num torneio sediado nos Estados Unidos, essa proximidade já alimentava dúvidas sobre a neutralidade da entidade antes de qualquer cartão vermelho. O caso Balogun não criou essa desconfiança — deu a ela um episódio concreto, com data, hora e resultado em campo, para se ancorar.
A pergunta mais interessante não é se o pisão merecia ou não cartão vermelho. Árbitros erram, VAR erra, e o próprio artigo 27 existe para dar à Fifa margem de revisar excessos — foi usado, afinal, para Ronaldo, sem o mesmo escândalo. A pergunta é se o que estamos vendo é dinheiro e poder fabricando uma terra do faz de conta que o resto do mundo é obrigado a engolir: um prêmio da paz para quem não ganhou o Nobel, um cartão vermelho que desaparece para quem tem o telefone certo. Não é a exceção que corrói a credibilidade de um sistema — é a exceção seguida da explicação de que não houve exceção nenhuma, embalada com troféu e comunicado oficial.
Horas depois da decisão, Trump publicou em suas redes um vídeo gerado por inteligência artificial em que os papéis se invertem: é Balogun quem mostra o cartão vermelho ao árbitro. A cena nunca aconteceu. Mas, àquela altura, talvez já não precisasse.
*Nota da redação, 6 de julho:* até o fechamento deste texto, a Bélgica vencia os Estados Unidos por 4 a 1, na segunda etapa, em Seattle. Toda a arquitetura política mobilizada para manter Balogun em campo não impediu o time americano de afundar diante do adversário. O poder consegue editar um cartão. O placar, por enquanto, segue sendo dos fatos.
Leia também: Créu de remada.
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The Ball Is Round. So Is the World.
Trump's phone call erased Team USA's red card — and handed back, twice over, the very reckoning the White House was trying to dodge.
In the 18th minute of the second half, striker Folarin Balogun stepped on Tarik Muharemović's ankle. Brazilian referee Raphael Claus checked the VAR, confirmed the challenge, and showed the red card. The United States, already 2-0 up on Bosnia and Herzegovina, finished the round of 32 down a man, with their leading scorer — three goals in three matches — suspended for the round of 16 against Belgium.
So far, just football. What came next turned it into something bigger than a match incident.
On the same day of the sending-off, President Donald Trump personally called FIFA president Gianni Infantino to understand why the card had been given and why the automatic suspension applied. The following Sunday, FIFA announced that Balogun's ban would be suspended for a one-year probationary period, under Article 27 of its Disciplinary Code — the same article used earlier this year to suspend two of Cristiano Ronaldo's three-match ban after a red card against Ireland. The card stays on the player's record; only its practical effect disappears. Balogun played against Belgium.
FIFA maintains the decision came from an independent disciplinary body. Trump himself confirmed the call publicly, from the Oval Office: "All I did was ask for a review. I didn't say, you have to do this." Infantino also weighed in, in a statement, confirming the call — but stressing that "FIFA's judicial bodies are independent" and that he regularly receives calls from heads of state and football stakeholders "on many different issues." Team USA has its own defense: coach Mauricio Pochettino had already argued, before any review, that the play "was never a red card," and noted the team had already paid a price by playing thirty minutes down a man against Bosnia.
Trump, for his part, didn't stop at a quiet request for review. At a press conference in the Oval Office, he made a point of establishing his credentials: "I'm someone who likes sports, and that wasn't a foul. Two great athletes collided." He went further, calling the call "horrible" and casting suspicion on the referee himself. "That referee, who's a little suspect, if you check his history... If you want, I'll give you his history," he said, without ever producing a single argument or document to back the accusation. In the same conversation, he admitted something that sits oddly with the sports expert he claimed to be: he hadn't initially known what a red card meant — he only grasped the stakes once someone explained it would mean missing the next match.
Brazil's football confederation, the CBF, didn't let the insinuation stand. In an official statement, it called Claus "one of the best active referees" in the world, with a career "marked by technical excellence, ethical conduct, and absolute respect for the game," and said "there is nothing in his entire record that discredits him or supports any kind of suspicion." A 45-year-old from São Paulo state, on FIFA's list since 2015, Claus officiated at Qatar 2022 and is today one of the most frequently assigned referees for marquee matches and finals in Brazilian football — a résumé the presidential accusation has yet to counter with a single concrete fact.
None of that explains why the reversal came after the phone call rather than before it — or why, according to Axios, this is the first time since 1962 that a World Cup red card hasn't resulted in a suspension. And the historical coincidence cuts twice as deep for a Brazilian audience: the 1962 episode involved Garrincha, sent off in the 83rd minute of the semifinal against Chile — that tournament's host — in a suspension that was also reversed amid suspicions of political influence. Six decades later, Brazil is back in the middle of the story. This time, not as the beneficiary: as the country of the referee who got in the way.
The international reaction left little doubt about how the episode read outside the United States. UEFA accused FIFA of crossing what it called a red line, calling the decision unprecedented, incomprehensible, and unjustifiable. Belgium's federation said it was stunned and is weighing a formal challenge, arguing the ruling contradicts both the Disciplinary Code and the World Cup's own regulations. Former FIFA president Sepp Blatter — no stranger to backroom controversy himself — put it plainly: red cards aren't overturned by political phone calls, they're overturned by rules, evidence, and independent bodies. "Quo vadis, FIFA?" he asked.
There's also a layer that predates this specific case. Infantino and Trump had already been appearing together publicly before the tournament, at political and sporting events alike, and the American president had already called him a "great friend." In December 2025, during the World Cup group draw, Infantino went further than compliments: he created, on the spot, the first-ever FIFA "Peace Prize" — and awarded it to Trump, saying he "certainly deserved" the honor. The gesture was read almost unanimously as a consolation trophy, handed out months after Trump failed to win the Nobel Peace Prize he'd been chasing. Norway's football federation publicly called for the prize to be scrapped, arguing FIFA shouldn't compete with the Nobel Institute or cozy up to heads of state. The NGO FairSquare filed a formal complaint with FIFA's Ethics Committee, alleging violations of the body's own political-neutrality rules. In a World Cup hosted on American soil, that closeness was already feeding doubts about the body's neutrality before any red card. The Balogun case didn't create that suspicion — it gave it a concrete episode, with a date, a time, and a result on the pitch to anchor itself to.
The more interesting question isn't whether the challenge deserved a red card. Referees make mistakes, VAR makes mistakes, and Article 27 exists precisely to give FIFA room to review excess — it was used for Ronaldo, after all, without the same uproar. The real question is whether what we're watching is money and power manufacturing a make-believe land the rest of the world is expected to swallow: a peace prize for the man who didn't win the Nobel, a red card that vanishes for the man with the right phone number. It isn't the exception that corrodes a system's credibility — it's the exception followed by the insistence that there was no exception at all, wrapped in a trophy and a press release.
Hours after the decision, Trump posted an AI-generated video on social media in which the roles are reversed: it's Balogun showing the red card to the referee. That scene never happened. But by then, maybe it no longer needed to.
*Editor's note, July 6:* as of this writing, Belgium led the United States 4-1 in the second half, in Seattle. All the political machinery mobilized to keep Balogun on the field didn't stop the American side from sinking against their opponent. Power can edit a card. The scoreboard, for now, still belongs to the facts.
Read also: Créu de remada.

Valéria Monteiro.
Jornalista, fundadora do site valeriamonteiro.com.br
e ex-âncora da TV Globo e Bloomberg.
18 de julho de 2026

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É quanto o Brasil investe em ciência — e patina nisso há décadas.
